Metamorfose

O interessante artigo “Arte e Destruição”, publicado pela Revista DasArtes, do mês de Julho, escrito por Guy Amado, disserta sobre a arte de destruir a produção artística em prol do próprio exercício de criação. O que pareceria um desperdício ou uma loucura do artista atos como rasgar desenhos, queimar telas, jogá-las fora ou obras ao mar, num contexto histórico representaria mais uma forma de manifestação do artista à sua criação. Guy Amado dá exemplos e conta casos “homéricos” de artistas como Paul Cézanne, Willen de Kooning, Jackson Pollock, Juan Miró e outros que sofreram de “surtos” de destruição para, enfim, recomeçarem do zero.

Em entrevista à uma revista de bordo, há alguns anos atrás, a artista carioca Adriana Varejão confessa ter jogado fora uma trabalhosa obra de arte em poliuretano, cujo tempo, material e desgaste físico a absorveram durante meses. Numa boa, a artista analisa sem remorso e concorda que esse desapego também faz parte da criação.

Uma constatação empírica deste ritual foi uma visita, em 1998 ao atelier do artista mineiro Amílcar de Castro, no Centro de Belo Horizonte, onde ele iniciara uma compulsiva produção de desenhos. Numa extensa bancada ele colocou e tirou folhas de papeis A3, após interferir uma a uma. Dos 10 a 15 desenhos que analisara, depois do surto criativo, o artista descartou metade do que fora aprovado. Recordo-me ainda que chegamos a desamassar um deles e lhe pedir a permissão de leva-lo conosco. Amílcar não só autorizou como também assinou o desenho. Um ano depois, em visita ao Instituto Francisco Brennand, a convite da família pernambucana, me encontrei com o mestre das cerâmicas e arrisquei especular o valor de uma de suas peças para adquirir (imagina! eu, uma mera adolescente desprevenida). Talvez por causa da minha ingenuidade, Brennand recolheu do fundo de um de seus intermináveis depósitos uma peça já em desuso, descartada por ele e esquecida empoeirada. Com nenhuma cerimônia, ele bateu por cima para tirar o grosso da poeira e me entregou sem delongas.

A produção artística exige esse exercício do erro, a magia do treinar, o desapego ao descartar e a busca pelo aprimoramento através do recomeço. Um dos maiores encontros de música eletrônica do mundo, o Burnning Man, que seleciona artistas anualmente para executarem gigantescas instalações, principalmente em madeira, tem como objetivo queimá-las em liturgia ao tema do evento, mas também envolvidos dentro do sentimento de desapego e de motivação para recomeçar no próximo evento.

O que promove essa motivação do artista é a busca pela veracidade de sua pesquisa, a liturgia do exercício de criar e recriar para tentar alcançar a perfeição. Como naquela velha opinião de Raul, os artistas vivem mesmo nessa eterna “metamorfose ambulante”! Porque tudo que vive, morre e o morto que está, se transforma.

amilcarAmílcar de Castro via Pinterest