Medo

“É preciso levar em conta a pobre e triste condição do homem. Os homens começam com medo, coitados. E terminam por fazer o que não presta. Mas é sem querer. É só por medo. Medo de muitas coisas: do sofrimento, da solidão e no fundo de tudo, medo da morte.” (Auto da Compadecida – Ariano Suassuna)

Dito isso enumeremos questões relevantes que amedrontam a sociedade recentemente tais como: quem matou Mariele, o que incendiou o Museu Nacional, quem esfaqueou o candidato à Presidência da República? O medo. Sim, esse Bicho Papão que nos ronda desde pequenininhos. O monstro que destila a dúvida, o conflito e a escuridão. E que ironia da vida, a Filosofia nos ensina que o medo tem seu lugar ao Sol.  Ele nos guarda das extravagâncias da carne e das injurias da alma. Limita-nos daquelas atitudes insanas, nos puxa para traz diante de um abismo, nos lembra de trancarmos a porta de casa. É o medo que controla e descontrola nossos sentidos e quanto maior a nossa falta de sensibilidade, maior os nossos medos.

Não por acaso, quase que simultaneamente, importantes instituições de arte do país abrem mostras pertinentes sobre assuntos relevantes que estão em evidência. A Pinacoteca de São Paulo está com a mostra “Mulheres Radicais”, o MASP – Museu de Arte de São Paulo, elucida a brasilidade com “Histórias Afro-Atlânticas”, o Instituto Tomie Ohtake abre a “AI – 5 : 50 anos, ainda não terminou de acabar”, o MAR – Museu de Arte do Rio expõe a coletiva “Arte Democracia – UTOPIA, quem não luta tá morto”, no Parque Lage (RJ) a comentadíssima “QueerMuseum” e bem aqui pertinho, no CCBB – Centro Cultural Banco do Brasil DF, “Ex-África”. Assuntos em voga como diversidade, etnias, feminismos e ecologia, tudo ao mesmo tempo agora. A 33ª Bienal Internacional de São Paulo, a maior e mais importante mostra de arte contemporânea do país apresenta “Afinidades Afetivas”, que busca um modelo alternativo ao uso de temáticas privilegiando o olhar do artista sobre seus próprios contextos criativos. Vivenciamos um momento de tensão onde realmente deveríamos privilegiar o olhar dos verdadeiros artistas, das mulheres sensatas e dos altruístas.

Num desconfortável episódio no mês de Junho, a primeira-dama Melanie Trump, em visita a um abrigo de imigrantes, cujas crianças estavam separadas dos pais, decidiu usar um modelito inconveniente com os dizeres: “I really don’t care” (Eu realmente não me importo). Felizmente o mal feito teve uma resposta acima da desastrosa atitude da Mrs Trump. Jill, a Mrs Vedder, esposa do vocalista da conceituada banda Pearl Jam, apareceu logo em seguida no show do marido, em Londres trajando uma jaqueta com os escritos: “Yes, we all care about. Y – Don’t u?” (Sim, todos nós nos importamos. Vocês não?.)

Isso talvez comprove que a incoerência não está relacionada a quantidade de riqueza ou pobreza, em ser homem ou mulher, em ser branco ou negro, mas na falta de sensibilidade. A verdadeira arte alimenta os bons sentimentos, nos une e nos torna mais humanos. O excesso de medo alimenta preconceitos e ganâncias que inibem a nossa sensibilidade. Mas o medo também vira a chave da fechadura da porta de nossa casa, nos protege. Saibamos sentir o medo com moderação e o manifestar com sapiência em momentos críticos e de tensão. Afinal, quem não tem um pouco de medo do lobo mal?

“Let’s take it easy, let’s take it slow!” (Bob Marley)

pearl jamJill McCormick em Londres, no show da banda Pearl Jam. Via Twitter @PearlJam