Match Point

A grife de móveis em Goiânia, Artefacto teve um tema muito feliz para sua Mostra Anual, o Cinema. A proposta é que cada arquiteto se inspirasse no filme de sua preferência e adequasse seu espaço com a ideia da cenografia mais a trilha sonora.

Dentre tantas escolhas originais ou previsíveis destaco a da dupla invencível, Adriana Mundim e Fernando Galvão. Eles escolheram o cult “Match Point”, de Woody Allen (um típico Nelson Rodrigues norte-americano) que conta com uma coletânea de dramáticas óperas italianas. A dupla também escolheu a Potrich Galeria para definir as principais características do filme nas obras de arte, que subliminarmente, remetem à personalidade dos personagens e seu desfecho.

A obra de Siron Franco “Semelhante”, da década de 1980, traz uma figura híbrida, meio bicho, meio homem, nos remetendo a esse instinto de desejo proibido e de luta fugaz pela sobrevivência. Essa selvagem personalidade é perceptível no protagonista do filme, um infeliz alpinista social que utiliza de todos os métodos para alcançar seus objetivos. Num jogo calculista de instinto e sorte ele tenta viver um conturbado triângulo amoroso.

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A fabulosa fotografia, do artista Rogério Mesquita roubou a cena dos móveis da grife, que num ousado nu, sai esbanjando sensualidade por toda sala e é a prova de que a beleza feminina ainda é o maior entorpecente para se cometer uma grande loucura. A obra da série “Brazil Encarnate” encarna a personagem da bela Scarlett Johansson e sua explícita característica sensual, por quem o protagonista se sente perdidamente atraído e disposto a qualquer sacrifício para possuí-la.

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Toda atmosfera do ambiente é submetido às vozes italianas de clássicas óperas, como a “La Traviata”, baseada no épico romance “Dama das Camélias”. Em depoimento para o catálogo da Mostra, os arquitetos relatam que a leitura do tema do filme é inspirada na elegância própria de Londres, pelo valor à arte e principalmente pelo contraste do apartamento do casal, em oposição à mansão da família da personagem que se casa com o protagonista. Ela, que inicialmente é sua aluna “sem graça” de tênis, no decorrer da trama, passa a ser uma bem sucedida dona de Galeria de Arte.

O ato final está na obra de Gustavo Rizério. A série de trabalhos intitulada “Blue” traz formas viscerais camufladas ou destacadas no vívido fundo azul da grande tela. A obra nos remete ao brutal assassinato da amante e também as declarações dela ao protagonista, sobre seus abortos, consequência de sua relação anterior. O azul da tela suaviza o drama do crime em contraste com o vermelho sangue, que sinaliza mais uma gravidez interrompida, confirmando a sorte do protagonista em alcançar, insanamente, seus objetivos.

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A dupla de arquitetos, em verdade, o casal invencível é sempre minucioso, detalhista e cuidadoso. Como na preparação de uma obra-prima, estes profissionais, peritos para transformar espaço em ideias, atuam quase como curadores, montando o ambiente para uma mostra que questiona como reage a psique e o que realmente mora dentro de cada um de nós. A sensibilidade e persuasão na interpretação do filme trazem como resultado o que certamente Woody Allen adoraria ver, a fatídica história explicitada com sutileza e dramaticidade num ambiente cuidadosamente calculado. Um filme complexo que mexe com nossos valores humanos e coloca em pauta a importância da sorte no destino da vida. E Ponto Final.

Bravo, Adriana! Bravíssimo, Fernando!