Mais sentimentos, menos sentimentalismos

O vice-presidente da República, Hamilton Mourão concedeu uma recente entrevista à um desses programas jornalísticos norte-americano sensacionalistas e até que se saiu bem. Com pertinentes afirmações diplomáticas, Morão conseguiu se esquivar de algumas alfinetadas, porém levou alguns uns tantos tropeços típicos de militante reformado. Repetidas vezes alegou que nosso país vive duas drásticas realidades, a gigantesca desigualdade social e a bipolaridade política, ou seja, extremismos que incomodam e parecem nunca conseguir entrar num acordo entre cavalheiros.

Em nosso universo cultural, isso já vem sendo explicitado antes mesmo da campanha presidencial, desde 2016, pois quando há um excessivo combate, haverá uma excessiva resistência. Não por acaso os extremismos começam através de apelos sexuais, tal quando artistas se rebelaram adotando a nudez como suporte artístico, ou disseminando ferrenhas críticas aos dogmas religiosos, como foi o absurdo caso de um transgênero ter sido eleita uma das mulheres mais sexy de 2018. Todas essas reações são advindas de políticas que acentuam rigorosos discursos falsos moralistas em relação à família do bem, recatada e do lar. O discurso artístico sempre será um discurso político, independente do partido, ou um partido independente: a licença poética. Não reconhecer à Chico Buarque, que ganhou o Prêmio Camões, em 2019 é querer polarizar ainda mais uma situação que já se encontra caótica e desmerecer nosso crédito literário internacional.

Reivindicar direitos feministas, afrodescendentes, de gênero, indígenas e blá blá blá são apenas um dos sintomas da doença coletiva que vem assolando nosso querido país. Mas o pior não está apenas nesta luta vã e de princípios duvidosos, mas na credibilidade que perdem as Instituições quando usam do mesmo discurso extremista de seus governantes. A Arte falaria por si só, mas atualmente anda falando por redes sociais e isto, pode não ser um bom sinal. O imediatismo e a falta de profundidade das ideias fazem emergir uma arte barata, supérflua e vil, assim como o sujo jogo político. Os projetos, as metas, os meios, os fins necessitam seguir um fluxo com princípios dignos e fundamentação filosófica e não religiosa.

Trabalhamos a curadoria da mostra coletiva “Primavera Brasiliana” sem qualquer pretensão tendenciosa, mas nos apoiando à nossa história, ao nosso acervo, às nossas 40 primaveras bem vividas. Em dados estatísticos demonstrarei que tudo feito com amor e princípios se chega à um resultado justo e coerente, principalmente na atual conjuntura. Dos 14 artistas selecionados para mostra coletiva, 68,4% são homens, 45,6% afrodescendentes, 22,8% mulheres e 15,2% europeus. Querendo ou não esse é o real perfil da base trabalhadora cultural da contemporaneidade. Sim, ainda somos poucas mulheres entre homens negros ou pardos, mas isto está mudando gradativamente, esperneando ou não. Enxergar as diferenças e abraçar com amor as novas ideias é querer fazer brotar a esperança num momento onde tanta informação ocupa o espaço que deveria pertencer à emoção. Então, meu amor, mais sentimentos, menos sentimentalismos, por favor!

Vote com consciência, agende sua visita e viva a Arte!