Look

Assisti o longa (bem longo, 189 min.) “Never look away” (2018) inspirado no artista alemão Gehard Ritcher (1932), mas que transita entre uma história de amor e os horrores da decadência do Nazismo. Meu olhar crítico é sempre tendendo mais para o lado da Arte, das curiosidades históricas e fatos realmente verídicos, como na cena onde é narrada o fatídico acidente do conterrâneo Joseph Beuys (1921-1986) pelo personagem que interpreta seu professor vanguardista, na Academia de Belas Artes. Há beleza, dor e uma impecável fotografia no filme. Certas cenas são documentos preciosos aos historiadores e amantes da Arte. Sem dúvida uma obra-prima para quem busca conhecimento deste período da História da Arte (1940-1966), mas principalmente curiosos recadinhos nas entrelinhas dos personagens, como a própria frase do título do filme, que a esquizofrênica tia do artista lhe confidência na infância: “nunca deixe de enxergar” e “tudo que é verdadeiro é belo” ou ainda nas lições do professor vanguardista: “apenas o artista pode devolver ao povo a sensação de liberdade”.

A rejeição do protagonista ao produzir seu trabalho em prol da Política é o viés mais interessante do roteiro. Há nele, uma luta interna em distinguir entre o que fazer, como fazer e para quê fazer. Essas questões pessoais de autoconhecimento (“mich, mich, mich”, em alemão “eu, eu, eu”), que no filme é repetida e refutada por um outro professor, um conservador que insistia por preservar padrões estéticos para manter a ordem e vangloriar sua vertente ideológica. A Arte não trabalha para a Política, ao contrário, ela a denuncia, a confronta, a questiona, a desnuda aos olhos de quem está disposto a enxergar. O longa intensifica a tensão politica das duas vertentes contrárias no auge da IIª Guerra Mundial para demonstrar o quanto o artista pode ser um atento observador dos fatos, um xamã, ou quase vidente, um percursor dos acontecimentos. Ele é capaz de enxergar a verdade antes do homem mediano, do medíocre, dos alienados culturalmente. Vale a pena dedicar o tempo a esta sétima maravilha das Artes. Serão 3 horas muito bem usufruídas diante da tela eletrônica.

Ilustra o texto obra do artista Siron Franco, de 1986 intitulada duas vezes. A primeira como “Fantasma no Hospital de Base” e a segunda “Os Pirilampos de Brasília”, que denuncia silenciosamente a máfia do contrabando de órgãos. A mão de um político roubando um coração.