Liquidez

As coisas não são vistas tais como são, mas tal como somos

Anais Nin (1903-1977, escritora francesa)

Se deslumbrar e criar expectativas sobre aquilo que a gente mesmo projetou é certamente frustrante. Bom mesmo é deixar fluir, aceitar a resposta de bom grado e ser grato. Mas isso aí é tão difícil quanto não se deslumbrar ou criar expectativas.

Estar bem informados, eu diria que é um começo eficaz. Segundo o filósofo polonês Zigmund Bauman, vivemos na tal sociedade líquida: “tudo escorre por entre os nossos dedos” e essa poderia ser a mais pura verdade, no atual momento. Nossos sentimentos funcionam única e exclusivamente para o nosso próprio bem estar, principalmente depois das descobertas científicas como: os antibióticos, analgésicos, a informática e os cybers prazeres. Usamos e abusamos das coisas até que elas acabem indo parar no lixo ou no mar (já se perguntou para onde vai seu iphone, seu androide, ou ipad depois de obsoleto?) Por isso, nem podemos pronunciar a ideia de sustentabilidade entre nós.

Acabo de assistir ao documentário Seaspiracy (Netflix, 2021) que não foi nada amigável sobre essa terminologia. As questões ambientais só nos comovem quando doem em nossos calcanhares. Um dos fatos relatados no filme é a epidemia do Ebola, na África Central. Pesquisadores descobriram que o advento da indústria pesqueira em locais como a Tanzânia, que faz fronteira com a República Democrática do Congo, foco central da epidemia, provocaram a escassez de recursos dos povos nativos, habitantes das margens do mar. Sem peixes para comer eles começaram a caçar pequenos animais como macacos, de onde contraíram o vírus letal. A Covid 19 também é consequência do desequilíbrio ecológico, no entanto estamos muito mais preocupados sobre não consumir prazeres sociais como medidas de segurança, em longos períodos de quarentena, do que pensar sobre as consequências dos pássaros tropicais que vão parar em gaiolas nórdicas, por exemplo.

Pois bem, especialistas relatam que este período de quarentena é o momento de resguardo que permite à Natureza de se auto recompor. Incrível, não?! Não, é científico mesmo. Nós contaminamos a terra como o venenoso mercúrio contamina as nascentes de água em garimpos clandestinos. O historiador israelense, Yuval Harari defende a teoria de que os sapiens são os maiores responsáveis pela extinção de espécies primitivas e atuais. São responsáveis também pelo aquecimento global e pelo ciclo vicioso das epidemias.

Dito no início do texto que estar bem informada é um ato de bem estar consigo mesmo, subentende-se que somos fadados em assumir responsabilidades e atuar de forma sensata, para que (pelo menos) possamos diminuir os danos e as consequências ao futuro. Uma frase bem legal e de efeito do cientista norte-americano, Carl Sagan (1934-1996) sintetiza o bem estar coletivo: “As nossas preferências não determinam a verdade“, por isso, pensemos num todo e para todos! Entre líquidos venenosos e férteis, somos nós quem decidimos o que iremos deixar escorrer sobre a terra. São nossas escolhas pelas tais informações verdadeiras e não pela tal preferida!

Ilustra o texto obra da artista, Roberta Tassinari. Tassinari é de Florianópolis, mas vive e trabalha em São Paulo. Adota em sua pesquisa a ideia: “entre o mínimo de interferência e o máximo de sensatez“.

Agir menos e melhor, pensar mais, muito mais e interferir o mínimo possível na Natureza!