Legitimidade

Pensando sobre a legitimidade do trabalho uma obra de arte me vem à cabeça e através dela todo discurso multidisciplinar do comportamento ético em sociedade e o atual momento cultural. A arte do carioca Ernesto Neto aponta para diretrizes humanistas, ecológicas e espirituais confirmando nossa incansável busca pelo autoconhecimento e a preservação de nossos bens culturais.

A obra-instalação “Gaia Mother Tree” foi projetada para o átrio de um metrô, em  Zurique e teve como mote o deleite à saúde mental, física e espiritual. A obra ganha estética de uma gigantesca árvore, que é suspendida no ar e “gerada” através de inúmeros nós produzidos artesanalmente por etnias da região amazônica. Erguidas no generoso vão, ela se transforma num espaço de paz e repouso promovendo ao espectador um momento de reflexão e meditação. Gaia é uma deusa grega, que na mitologia romana é denominada Terra, Deusa da Fertilidade. Ernesto Neto se aprofunda principalmente na mitologia indígena desenvolvendo argumentos que legitimam sua pesquisa.  Absorve da cultura nacional elementos descritos em lendas, saberes e fazeres manuais e os rituais litúrgicos, que mantinham os primeiros habitantes do nosso continente ligados intimamente à Natureza.  O artista investiga a cultura brasileira e nos presenteia com uma obra contemporânea interativa, bela e contemplativa. “A obra de arte é um poema”, recita Ernesto Neto sobre esse projeto patrocinado pela Fundação Beyeler, em Julho deste ano.  Cada nó é uma etapa adiante para uma grande árvore se erguer.  Em analogia, tal qual a árvore genealógica, a família tende a se erguer em comunhão, num mesmo ritmo, numa mesma realidade, respeitando sempre sua genética, seus nós, suas raízes, sua fonte original.

A legitimidade do trabalho do artista é sua pesquisa antropológica, sociológica e histórica. Sua obra é condizente à verdade e fiel à proposta humanista de sensibilizar mais o espectador que a contempla e entende a proposta. Numa época de tantas cópias baratas, superficialidades, mentiras, difamações e fake artists, nos depararmos com a “Mãe Terra” é uma grande responsabilidade. Afinal, quem somos? Onde nos encaixamos na árvore genealógica da vida? Somos índios, descendentes deles? Ou pardos, loiros, morenos, mulatos, mamelucos, caboclos, crioulos, cafuzos, caipiras? Somos insignificantes seres em busca de aprimoramento, de amadurecimento espiritual, físico e mental. Somos apenas pequenos nós em busca de legitimidade!

ernestoErnesto Neto, “Gaia Mother Tree”, 2018, Zurique, Suíça. Via Trover