Ir à Lua com os pé na Terra

Aproveitei o lockdown para reassistir o inesquecível “Contato”, uma pérola dos anos 90 dirigido pelo norte-americano, Robert Zemeckis, que também foi responsável pelas ficções teenagers da trilogia “De volta para o Futuro” e o hilariante “A morte lhe cai bem”.

“Contato” (1997) é a adaptação do romance do cientista Carl Sagan (1934-1996) e conta a trajetória da protagonista interpretada pela atriz Jodie Foster, que sonha em ser uma astronauta e conversar com extraterrestres. O filme (para a década) tem primorosos efeitos especiais e transita entra a metafísica cosmológica até o âmago da pergunta que não que calar: “afinal, para onde estamos indo?”. Li noutros artigos psicanalíticos que a Ciência também pode ser um caminho para o fanatismo, um tipo de cientificismo sem fronteiras. Brincadeiras à parte, a crença cega na Ciência é tão nociva quanto a crença inabalável num mito cristão. Diante de tantas incertezas que estamos vivendo, o filme é um alento, uma gota de mel no amargo limão que guarda a bendita vitamina C.

Se Deus existe ou não, se é mulher ou homem, negro ou negra, baixo ou alto, a questão é que mesmo indo para Marte ou mergulhando no fundo do mar não descobrimos quem realmente somos, o que viemos aqui fazer e para onde vamos. Desvendar nossa verdadeira essência é o mais desafiador dos propósitos. A Ciência explica, a Religião conforta, o prazer diverte, o medo protege, mas só o amor salva. É piegas e clichê, mas é fato.

O filme me remeteu à um dos episódios da 3ª temporada de “The Crown: Poeira Lunar”, no qual o Duque Phillip faz um pedido irrecusável à Rainha para ter uma audiência particular com os astronautas que acabaram de chegar da Lua, em 1969. Sua entrevista é um fracasso e ele fica sem as respostas que tanto procurava nos céus e no seu ceticismo. Dada sua crise existencial, o Duque finalmente cede às propostas para reuniões sobre Teologia, ao diácono Robin Woods (1914-1997) , com quem estabeleceu uma relação de amizade durante anos.

Ambas as histórias nos levam a crer que tudo tem um ponto de equilíbrio, a Ciência como conhecimento empírico e indispensável e a Teologia como um conforto para a alma e os males invisíveis que nos afligem dia a dia. Saber estabelecer este elo de confiança entre áreas tão distintas pode realmente ser a resposta para as tais insistentes perguntas. Viajar para a Lua sem tirar os pés da Terra é para os que tem fé! Fiquem todos bem, continuem com suas máscaras e/ou capacetes e façam uma boa viagem a este estágio chamado vida!

Ilustra o texto a pintura óleo sobre tela, “O astronauta”, 2020, do hiper realista Tarcísio Veloso, que brinca com os detalhes que contextualizam contrastes da contemporaneidade como as abelhas num estúdio fotográfico, insetos responsáveis pela polinização e indiretamente, pela nossa saudável subsistência no planeta e um brinquedo nas mãos da criança, que é uma pistola, geralmente presenteada aos meninos, porém na cor rosa, que geralmente é a cor pré-estabelecida para as meninas.