Invisível

Aproveitando a pandemia para colocar meu lado cinéfilo para trabalhar, assisti recentemente ao American Factory, em português Indústria Americana, que concorreu ao Oscar 2019. O documentário conta sobre uma indústria automobilística, em Ohoi que faliu e posteriormente foi comprada por um bilionário chinês. O curioso é: quando associamos o “pseudo-comunismo” chinês ao sonho neoliberal do the american way of life, nossos preconceitos vão para o ralo. A gente não sabe de nada, inocentes. O documentário coloca em pauta duas culturas seguramente opostas e inseguras com seus padrões econômicos e sociais. Percebe-se uma distopia da ideia e qualidade de vida, as insatisfações, tanto dos americanos com a rígida disciplina dos chineses e seu auto controle, quanto dos chineses da falta de compromisso dos funcionários com a empresa e seu rendimento. O caso é: a ideia inicial era que 100% dos funcionários fossem cidadãos americanos, mas não deu certo. Dos 2 mil funcionários, duzentos chineses foram contratados para ocupar cargos superiores aos dos cidadãos locais. Percebemos daí, o quanto a disciplina e o lucro falam mais alto numa cultura dita socialista, mas principalmente o quanto a ideia de sociedade consumista falha numa cultura capitalista. E fica então a questão, qual o ideal de qualidade de vida para a sociedade contemporânea?

Ítalo Calvino (1923-1985) foi um dos escritores mais importantes do século XX. Calvino nasceu em Cuba e curiosamente tem uma trajetória controversa com as questões políticas e ideais da qualidade de vida nas sociedades. Fez parte do Partido Comunista, mas rompeu com este compromisso, em 1956 após invasão dos soviéticos na Hungria e pelos crimes cometidos por Stalin. Conheceu Che Guevara, para o qual escreveu um tributo após sua morte. “Embora fosse um liberal de esquerda, Calvino foi liberado para passar seis meses no Estados Unidos, onde se encantou especialmente com a cidade de Nova Iorque”. (Via www.infoescola.com/biografias).

O escritor escreveu textos de grande repercussão, um deles avivado pela obra em técnica de dobragem, por Ricardo Masi, um dos 5 selecionados do nosso Edital, que ilustra o texto, sobre a série “Cidades Invisíveis”.

“Presume-se que Isaura, cidade dos mil poços, esteja situada em cima de um profundo lago subterrâneo. A cidade se estendeu exclusivamente até os lugares em que os habitantes conseguiram extrair água escavando na terra longos buracos verticais: o seu perímetro verdejante reproduz o das margens escuras do lago submerso, uma paisagem invisível condiciona a paisagem visível, tudo o que se move à luz do sol é impelido pelas ondas enclausuradas que quebram sob o céu calcário das rochas.
Em consequência disso, Isaura apresenta duas religiões diferentes. Os deuses da cidade, segundo alguns, vivem nas profundidades, no lago negro que nutre as veias subterrâneas. Segundo outros, os deuses vivem nos baldes que, erguidos pelas cordas, surgem nos parapeitos dos poços, nas roldanas que giram, nos alcatruzes das noras, nas alavancas das bombas, nas pás dos moinhos de vento que puxam a água das escavações, nas torres de andaimes que sustentam a perfuração das sondas, nos reservatórios suspensos por ondas no alto dos edifícios, nos estreitos arcos dos aquedutos, em todas as colunas de água, tubos verticais, tranquetas, registros, até alcançar os cata-ventos acima dos andaimes de Isaura, cidade que se move para o alto”.

No texto há a confirmação de que tudo é movido pela luz e pela sombra, pela força incomparável da natureza associada às invenções dos homens. Somos seres únicos, criadores, pensadores, descobridores. Cavamos o mais profundo buraco no escuro de cavernas e subterrâneos insólitos, mas também projetamos os mais altos e suntuosos prédios para chegar mais perto da luz. Entre dicotomias, ambiguidades e distopias podemos encontrar na Arte o conforto da sensatez, da coerência e da verdade. Indústria Americana e Ítalo Calvino concordam que uma mágica invisível gira a roda da vida, da sobrevivência em turnos diferentes de energia. Uma que nos consome força para o árduo trabalho pela sobrevivência, outra que encontra sinergia ao concluir uma etapa, um objetivo! Seja em luz e sombra, direita e esquerda, oriente e ocidente, a meta é viver em equilíbrio com as forças opostas e invisíveis!