Imperfeição

Somos o resultado dos livros que lemos, das viagens que fazemos e das pessoas que amamos“. (devo incluir também: os filmes que assistimos)

Numa conversa amigável com mamãe, mas sempre regada por sutis conflitos ideológicos, ela insiste em criticar o cinema nacional de excessivas cenas violentas, carnificina e agressões exacerbadas sobre contextos sociais. “Acho tudo muito triste, visceral e apelativo”, quanto ao uso do tema da criminalidade e desigualdade social e cita clássicos para exemplificar: Terra Estrangeira (1995), Central do Brasil (1998), Brava Gente Brasileira (2000), Cidade de Deus (2002), Amarelo Manga (2002), Carandiru (2003), Cidade Baixa (2005), Tropa de Elite (2007), O Palhaço (2011), Faroeste Caboclo (2013), Aquarius (2016), Bacurau (2019) e A Vida Invisível de Eurídice (2019). Errada ela não está, mas necessário é assistir para que pelo menos nos demos conta da realidade nacional e isso é imprescindível.

Foi no livro “Pérola Imperfeita” (2014), da Companhia das Letras, escrito pela antropóloga Lilia Mortiz Schwarcz sobre a obra de Adriana Varejão, que ela faz a reflexão mais preciosa de nossa nação. Descreve a pesquisa artístico-histórica de Varejão como fonte de estudo sobre a formação da cultura brasileira. Diante de tantas atrocidades: canibalismo, escravidão, colonização, torturas, estupros, abortos, sua obra não poderia ser diferente. É quase uma denúncia, um relato visual de um povo que se construiu nas bases da catequização, do monopólio e do patriarcalismo. Mas sua obra também tem beleza e esperança, assim como o cinema nacional, ou as lágrimas nos olhos da atriz Fernanda Montenegro.

O azul intenso que ela se apropria da azulejaria portuguesa ou da técnica de cerâmica chinesa é uma joia, um brilho no infinito horizonte de possibilidades. Ali ela mistura o barroco com a tropicalidade, com as rachaduras de nossa imperfeita formação, as fissuras e feridas abertas num mapa de um mundo de riquezas e perdições. Rachadas por dentro e por fora ainda somos capazes de criar e amar o que ainda há de mais sagrado em nosso território, a Natureza.

Em seu pavilhão no Instituto Inhotim, a Galeria Adriana Varejão é a prova de que esse amor a tudo vence. O espelho d’água na entrada, o balanço impecável da solidez do concreto e sua inserção no desnivelado terreno, que abriga o imponente verde do jardim traz a sensação de paz, de calma, de esperança. A cuidadosa pesquisa pictórica em azulejos de pássaros nativos do país estampando os bancos externos são de uma delicadeza e sensibilidade, porque a artista entende que temos a maior biodiversidade de aves de todo mundo.

Se regar de sutis conflitos ideológicos é o primeiro passo ao enfrentamento de duas faces opostas da mesma moeda. Somos sim uma sociedade violenta, desigual e marcada pelo agressivo contato entre raças. Mas podemos também ser livres, cuidar de nossas rachaduras, nossas feridas que se abrem ao deixarmos de enxergar o belo, a Natureza, a verdadeira vida que pulsa no ar, nos seres vivos, nos nossos jardins de incertezas. Em tempos tão sofridos mundialmente, resta nos cuidarmos de nossas feridas e a aceitação de nossas imperfeições.