Homem-Primata

Estudos recentes na área de Biologia tentam comprovar que os animais se emocionam como nós.  O inglês Jonathan Balcombe coleciona flagrantes de prazer entre animais e se baseia em estudos científicos sobre o cérebro dos vertebrados. “O prazer está ligado a uma região conhecida como núcleo acumbente, que nós humanos, temos em comum com outros animais. Isso mostraria que esses bichos sentem prazer de forma parecida com a nossa: Há indícios na expressão facial e nos movimentos corporais. Mesmo que seja difícil humanizar as emoções animais, as pesquisas de Balcome têm interesses que vão além da Ciência.” (Gabriel Chalita, Filosofia e Vida, Editora FTD).

No início deste ano foi decretada, em decisão histórica a proibição do encarceramento de pássaros em gaiolas, na Índia. Em Junho, foi aprovada a lei, que desde 2015 corria no Parlamento do Canadá, sobre a proibição da captura e criação de cetáceos como baleias e golfinhos em cativeiros. Biografias como a da norte-americana, Margaret Howe Lovatt “The girl who talked with Dolphins” (A garota que falava com Golfinhos) ou “Gorillas in the Mist” (Na Montanha dos Gorilas) sobre a vida da zoóloga Diane Fossey, são exemplos concretos da relação dos animais e suas surpreendentes reações emotivas.

Mas o que me motivou mesmo relatar e tentar fazer uma conexão sobre este tema à Arte foi um filme sui generis que assisti semana passada. Com um formidável roteiro e atuações convincentes, o cult belga “The Square: a Arte da Discórdia”(2017) é um filme de cabeceira para amantes da arte contemporânea e assíduos questionadores do comportamento humano. Entre o caos de viver em sociedade às tentativas constantes de altruísmo, a vida do curador de um famoso Museu é constantemente colocada em xeque nas inusitadas situações cotidianas.

A cena-inspiração do filme para este texto foi a de uma performance,  onde um artista encarna a personalidade de um primata e invade um jantar black tie provocando um audacioso desconforto entre os convidados. A princípio o artista-ator chega em movimentos brandos, cuidadosamente articulados, semelhante aos gorilas das montanhas, observando com curiosidade a elite intelectual da festa. A troca de olhares com uma dama, cuja idade poderia ser a sua, romantiza um curto momento de distração. Mas o clima começa a esquentar quando o performer interpreta a disputa pelo território e escolhe um artista do Museu para expulsá-lo da mesa do jantar. O curador intervém para finalizar o ato, mas o performer continua. Ele sobe na mesa, quebra os copos de cristais, os pratos, derruba as cadeiras e por fim, inicia sua busca pela fêmea. Puxando pelo cabelo e a arrastando pelo chão para possuí-la sem o seu consentimento, os convidados são tomados pela fúria e todos os homens da festa atacam o artista-animal!

Moral da história: a vida imita a Arte, a Arte imita a vida. Até onde um homem pode se sentir um primata? Instintiva ou intuitivamente ainda somos controlados pelos sentimentos e pelo comportamento coletivo. Esta cena sensacional me ativou um clique! “Cada pessoa sente prazer de um jeito. Imagine se compararmos espécies diferentes”, disse em entrevista para a Revista Época (2010), Mauro Lantzman, veterinário da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. O filme traz outras surpresas, como a jornalista que entra na vida do curador e tem como pet uma macaca que gosta desenhar! Penso que ainda somos todos um pouco primatas, ou não?

macaco

Cruzamento de via ecológica, no Município de Goiânia