Hoje é o dia

Vocês devem ter percebido que tenho uma quedona pelo Cinema e diga se de passagem, as Artes Plásticas ora ocupam o mesmo lugar ora o segundo, no meu coração. A dita sétima arte é fascinante e consegue agregar todas as outras juntas, igual coração de mãe. Fico aqui matutando quem teve a discrepância de dizer, em épocas remotas: “pra quê servem os artistas?” Haja Covid para sarar a mente dessas pessoas, “Perdoe-os, não sabem o que fazem” ou dizem, (como diria o Livro Sagrado). Mas vamos falar de coisas boas!

Me veio a lembrança de um episódio da série televisiva, de uma emissora que todo mundo ama e odeia ao mesmo tempo, “Hoje é Dia de Maria” (2005)! Aparentemente é uma série simples, sem muitos luxos e ostentações cinematográficas sobre uma menina que quer atravessar o sertão e conhecer o mar, mas sua árdua trajetória a obriga amadurecer e entender os desafios que o mundo reserva para quem tem coragem de descobrir os mistérios da vida, da força da Natureza e da sabedoria do Tempo.  Numa das cenas que me emocionei muito, foi quando já cansada e com sede, Maria é presenteada com uma cabaça de água por uma das entidades que encontra no seu caminho. Conformada e grata por mais um sinal de resistência às intempéries da seca, antes mesmo de saciar sua sede, Maria já dá de cara com um grupo de saltimbancos, cujo líder lhe toma sorrateiramente a cabaça da mão e esbraveja certeiras palavras acerca do egoísmo humano. “Os homens retiram tudo da Natureza sem ao menos repor o que consomem. Dá cá esta água, deixe que ela volte para onde veio, para que possa umedecer a terra e então prosperar”. E daí a magia da cena começa, os pingos de água que penetram na terra logo se transformam em lama, em poça, em evaporação e enfim, em chuva. Maria dança debaixo do aguaceiro e se vê feliz novamente.  

Fiquei pensando como a simplicidade de uma cena exemplifica tudo o que está acontecendo. Quanta água, quanta terra movemos e em busca do quê!? Será que recompensamos a Natureza por tudo que ela nos oferece? Pois bem, ela nos presenteou com um vírus e isso me parece um sinal bem sério! Foi na marra que Ela achou um meio de nos deter, de nos frear para aí sim, poder prosperar! As tartarugas voltam a se reproduzirem em Galápagos, os cervos se deleitam entre as cerejeiras do Japão, os pandas se acasalam em cativeiro, em Hong Kong, os peixes voltam a nadar nos canais de Veneza e por incrível que pareça, o Vice-Presidente do Brasil faz mea-culpa sobre os desmatamentos na Amazônia! É… a Natureza não tá pra brincadeira! Quem ainda não entendeu seus sinais, ou que comece a escrever o Testamento, ou testemunhe a favor dela, demonstre amor pelas pequenas coisas, jogue fora ou doe o que não usa e nem interessa mais usar, não haverão festas ou bailes tão cedo. Produza ideias, produza conhecimento, plante uma árvore, regue uma planta, ame os animais, eduque os filhos, respeite os pais!

Perder também pode ser ganhar! Maria perdeu uma cabaça d’água, mas ganhou um dia chuvoso! Perdemos a liberdade de nos abraçar, de sentar num bar, de levar as crianças para escola, de viajar, de visitar exposições, feiras, congressos, mas ganhamos tempo, exercitamos a paciência, observamos mais o que está em volta, estabelecemos concessões para vivermos com mais significado. Arrumar o lar, trocar as coisas de lugar, organizar os armários, folear aquela revista do ano passado, ou de 10, 20, 30 anos atrás… Ah, como era tudo diferente, mas o mesmo! Onde erramos? Onde continuamos a errar! Enquanto houver quem se pergunte “pra quê servem os artistas” continuaremos a errar e a Natureza a nos cobrar mais sensibilidade, mais cuidado, mais prosperidade! Estamos de castigo no cantinho da sala, o que temos que fazer para sair daí? Cuidemos dos seres vivos, cuidemos de nós! A carpa é símbolo de beleza, boa sorte, sucesso e perseverança! Boa sorte para nós! Ilustra o texto aquarela do artista paulista Fernando Ekman.