Gigantes pela própria natureza

A arte indígena tem se mostrado ao longo dos tempos uma manifestação cultural antropológica e ao mesmo tempo uma expressão significante de autoafirmação nacional. Certa vez, minha tia, há uns 15 anos atrás, recém-chegada do Canadá me confessou com grande entusiasmo e satisfação a valorização do povo canadense em relação às suas origens e a cuidadosa preservação de sua cultura primitiva. O país tem espalhado em praças públicas, estátuas de líderes indígenas, assim como em Museus e Instituições Educacionais.  Recordo-me bem desse diálogo porque ela enfatizava sempre se lembrar de mim quando avistava algum símbolo, monumento ou homenagem aos primeiros povos que habitaram aquele país. Comentou também sobre as cédulas e moedas que retratavam os indígenas e o quanto o povo canadense se orgulhava em demonstrar suas origens e hábitos de seus antepassados.

Essa lembrança veio à tona em meus pensamentos devido a uma recente visita ao Museu do Índio, atualmente Museu das Culturas Dom Bosco, na capital do Mato Grosso do Sul, Campo Grande. Elaborada e projetada para abrigar artefatos indígenas, além de uma série de objetos arqueológicos, uma fauna de animais empalhados e uma extensa exposição de invertebrados, o Museu é uma espécie de Centro Científico Cultural, que nos transporta para o túnel do tempo e para dentro da nossa natureza primitiva e selvagem. Grande parte da mostra foi organizada em vitrines com formatos lúdicos, que recontam os costumes indígenas além de toda ambientação da mostra nos remeter às aldeias e a penumbra suave e misteriosa das florestas.

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O acervo conta com uma valiosa coleção adquirida ao longo dos anos e selecionada por padres italianos da Missão Salesiana, do Mato Grosso. Ironicamente uma instituição católica conseguiu reunir uma extraordinária coleção de arte indígena e valorizar sua estética na impressionante montagem contemporânea de rústica beleza. As divisões e suportes utilizados foram estudados com muita sensibilidade para garantir ao espectador a compreensão da grandiosidade e diversidade das etnias indígenas que habitavam nosso país em tempos remotos. Dentre os grupos indígenas estão peças dos povos Bororós, Xavantes, Karajás, Kadiwéu,  Tukanos, Desanos, Tarianos, Pira-Tapuios, Paracabâs, Taiwanos e Wananos.

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Vocês não podem imaginar a quantidade de artefatos, canoas, instrumentos de caça e pesca, de música, liturgia, cestarias, pinturas, cocares, cerâmicas e muito, muito, muito mais! Posso garantir que até o mais antipático dos brasileiros sairia de lá querendo ter um parente próximo com raízes indígenas. Tenho a impressão que minha tia ficaria também maravilhada com todo esse resgate e preservação da memória brasileira. Aberto ao público com um razoável valor de ingresso, o Museu tem expografia de centenas de fotografias de índios, de seus costumes e rituais, assim como a monitoria de estagiários da Universidade Católica Dom Bosco. Bem provável ser maior a admiração de turistas estrangeiros ao acervo do museu que a dos próprios brasileiros, em questão. Talvez por sermos um povo tão jovem sejamos ainda um tanto imaturos para reconhecer quão ricas e nobres são as nossas raízes e o quanto podemos nos afirmar como nação através delas.  Os padres italianos que o digam! Vai Brasil, porque o gol não é só dentro de campo, mas em todo grande território do país!

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