Florescer

“Você não sabe o quanto pesa um morto, exclamava o velho, numa frase que ribombava nos ouvidos do garoto e reverbera na obra do escritor” . Biografia escrita por jornalista colombiano que traçou as relações entre ficção e a vida do Nobel Gabriel García Márquez (Via Diário de Cuiabá, 13/04/2000)

É, vocês não sabem o quanto pesa uma energia materializada imóvel, morta. Sabe aquele medo do escuro, aquele medo de mexer naquela gaveta que há anos a gente só coloca coisinhas que um dia iremos usar e nada. Sabe aquela caixona lá em cima do armário, sabe aquilo tudo que fica num fundo escuro acumulado, acumulando sujeira, barata, rato e teia de aranha, sabe?! Certamente todos sabemos! Aquilo ali tudo pesa! Pesa muito! Se livrar de energias paradas é a maior e melhor maneira de se desintoxicar, de lavar a alma, de se manter saudável, limpo e livre.

Tem um ditado que diz, “o que você não usa, não te pertence”. Escrevi há alguns post’s atrás sobre um artigo do ano passado, da Revista DasArtes, que tratava do processo de desapego do artista com sua criação. A necessidade do descarte, queima e destruição do que foi feito também faz parte do aprendizado, do processo criativo e da trajetória do trabalho artístico. E assim, o é em tudo! O Museu Nacional do Rio de Janeiro, em 2018, a Cinemateca, em 2016, o Museu da Língua Portuguesa, em 2015, incendiados… A Catedral Notre-Dame, em 2019 e tantos outros patrimônios mundiais que se perderam no decorrer de milênios. Quem não se lembra da Biblioteca de Alexandria, 48 a.C, ou o Movimento Nazista, em 1933, ou ainda a Revolução Cultural Chinesa, em 1966 que também promoveu a queima de livros.

Nós, serezumanos somos assim, criamos e destruímos. Está na nossa natureza. Daí tantas mitologias, como a da Fênix, que renasce das cinzas. Também somos capazes de nos recriar, de nos inventar. É depois de perder tudo que sentimos a necessidade de ganhar novamente. Li nos stories do criativo, Jean Bergerot uma pérola “antes de pegar uma boa onda tem que remar contra a maré”. Antes na água que no fogo, né não!? Pensar em como nos recriar talvez seja o nosso real objetivo. Tem também aquele ditado do Luiz Fernando Veríssimo: “quando a gente acha que tem todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas”.

Para o domingo não passar em branco, resenhei este descompromissado texto, talvez para me redimir em ser humana, em acumular, em guardar sem necessidade para enfim, me desapegar e poder compartilhar com vocês o quanto isso me fez bem. Talvez porque somos todos assim, como o cerrado, durante a seca a gente se fortalece com as queimadas, para depois, nas chuvas, finalmente florescer!

Agradeço sempre a atenção dos que me dedicam dois ou três minutinhos de leitura!

Desenho em nanquim, Wés Gama.