Exorcismo artístico

“Os políticos passam, a Arte fica”.

A frase é do polêmico artista chinês, Ai WeiWei. O artista que vivenciou a Revolução Cultural, viu seu pai sofrer as consequências do ativismo político contra o absolutismo chinês e, mais tarde, também sentiu na própria pele a dor de ser exilado e torturado pelo governo de seu país. Engajado nas causas sociais, ambientais e políticas, o artista chinês desembarcou sua primeira mostra individual “RAÍZ” na OCA, Parque Ibirapuera, no início do ano passado. Weiwei levanta questões pertinentes e usa sua Arte para fazer o espectador refletir sobre os conflitos sociais, o consumismo, as tradições e sinaliza como discernir o que pode ser bom do que pode ser ruim.

O poder estético de suas instalações, a agressividade e ousadia dos recursos e materiais que ele utiliza para manter este diálogo são imediatos e visualmente impactantes. Por causa da facilidade da leitura de suas obras, Ai Weiwei é reconhecido com o “Andy Wharol da China”. Suas polêmicas obras e seu comportamento ativista contra o autoritarismo chinês lhe renderam uma eterna briga e perseguição fiscal.

Ossos do ofício. Se não te incomodou, então a Arte não cumpriu seu papel principal. Bela ou não, a obra precisa passar uma mensagem, um desconforto, uma pontinha de insatisfação. Já diria o ditado “Mar calmo nunca fez bom marinheiro”. Tem que chacoalhar, dar umas afogadas, tirar o ar mesmo. Em artigo para Revista de Estudos Clássicos e Tradutórios, Sandra Minae Sato disserta sobre o artista e sua relação com a cerâmica como narradora da história. No trecho que que transcreve uma entrevista de 2010, ela cita: “Eu odeio a cerâmica… Mas eu faço. Eu acho que se você odeia demais algo, você deve fazer. Você tem de usar isso”. A que o entrevistador pergunta: “Para exorcizar?”, ele responde: “Sim.”

Exorcizar é o ato de fazer jurar e olha só que lindo, ele relatou o verdadeiro poder da Arte. Ela tem a autoridade de expulsar os maus espíritos do corpo da pessoa. Weiwei ficou famoso por se fotografar quebrando uma urna milenar, rompendo com os padrões da tradição chinesa. Num ato transgressivo, o artista aplica o que a Revolução Cultural lhe ensinou, destruir o antigo para criar o novo.

Dando continuidade às observações do artigo de Sato:

“A escolha de Ai Weiwei de “odiar a cerâmica” enquanto “a constrói” constitui uma estratégia para transcender completamente a natureza conflitante de uma categoria para criar outra, são plataformas imprevistas para o fazer e o discurso.” Gregg Moore e Richard Torchia, Doing ceramics

Fica aí a dica e a antiga ladainha, “os opostos se atraem”. Cuidado com o que você não gosta, pode ser que isso seja o que você mais precisa para se autoconhecer. Ilustra o texto cerâmicas esmaltadas por Márcia Magda carinhosamente confeccionadas para nossa empresa!