Excuse

Uma polêmica crítica publicada em Agosto, pela Doutora em Antropologia, Lilia Moritz Schwarcz sobre o musical “Black is King” da pop star Beyoncé, causou mal-estar entre celebridades negras brasileiras, o que impulsionou um pedido de desculpas da Professora, pelo tweeter. No musical, a cantora americana enfatiza uma sofisticada superioridade negra, esbanjando brilho, cores, estampas, coreografias e hit o que sempre foi de costume da diva pop em seus videoclipes. No entanto, o artigo do jornal aspirou um certo tipo de recalque da classe branca erudita e por pouco não vira um conflito diplomático. Mas o episódio deu margem para uma breve reflexão do quanto a luta racial e o recalque recíproco ainda são tão recentes quanto na época da escravidão!

Quem nunca leu ou assistiu filmes sobre sinhazinhas enciumadas pelos fartos seios e largas ancas de suas escravas, os quais enlouqueciam seus cônjuges. Castigos, torturas e até mesmo assassinato eram comuns e velados. Ou então sobre bravos e corajosos escravos que se apaixonavam por suas sinhazinhas ruivas, ou loiras e chegavam a planejar fugas para levá-las aos mais longínquos quilombos da região. Enfurecidos, os noivos brancos saíam a uma caçada mortal em busca do atleta de ébano que enfeitiçara a donzela. Mas o ciúme também se dava de forma inversa, as negras escravas peritas nas ciências ocultas, rogavam pragas às suas patroas, invejando-as, não apenas pelo status social que as desprivilegiava, mas pela cor dourada de seus lisos cabelos de ouro, ou a textura branca de sua pele e o rosado de suas bochechas. A própria Xica da Silva castigou dezenas de suas escravas por serem mais formosas que ela. Gilberto Freyre, relata em “Ordem e Progresso”, depoimentos de vários membros da sociedade brasileira entre o século XIX e XX, perguntas capciosas como “Você aceitaria que sua filha ou seu filho se casasse com pessoa de cor”? Respostas de todo tipo surgiram e uma delas, a que mais me chamou a atenção, foi negativa, justificando que “se nem as próprias negras se aceitam negras, alisando e pintando seus cabelos de loiro, passando enorme porção de pó de arroz no rosto para embranquecerem, por que eu as aceitaria?”

Olhe, esse assunto aqui dá pano pra manga. De fato, sempre existiu uma moda onipresente para influenciar a opinião pública. Se o glamour, o status, o dinheiro está nas mãos dos brancos, porque não ser como eles? Entendemos que, nem tanto a intenção da Antropóloga, quanto a da cantora Beyoncé foi causar qualquer mal-entendido, mas fica a pulga atrás da orelha, por que não conseguimos ou não queremos resolver as questões raciais? Antes de serem raptados e escravizados pelos europeus, as tribos africanas conservavam costumes e tradições. A cultura das tranças identificava as tribos, origem, idade, a posição social, o estado civil, ou problema pessoal. Há um penteado específico para cada cerimônia, como casamentos ou eventos religiosos. “Aqui no Brasil e em outros países da América Latina como Colômbia, no período da escravidão elas foram usadas de maneira muito inteligente, como forma de comunicação entre os negros. As mulheres negras tinham o costume de trançar seus cabelos e faziam os mapas na cabeça uma das outras, desenhando com as tranças para encontrar o caminho nas fugas para os quilombos. A simbologia da resistência é muito forte nas tranças nagô”. (Via www.laspretas.com.br)  

Trançando conhecimentos daqui e dali começamos a refletir sobre questões tão contemporâneas quanto milenares. A representação das tranças vem desde o Egito Antigo, 3.500 a.C. O cabelo tem um significado místico em diversas culturas, há o culto da força através do comprimento dos fios, como é descrito na própria Bíblia na história de Sansão e Dalila. Ao chegarem no Brasil os escravos tinham seus cabelos cortados, como uma primeira forma de dominação e enfraquecimento de sua autoestima, mas nem por isso deixaram de lutar, desenvolveram a capoeira como artifício de treino e fuga, aplicaram seus conhecimentos nas tranças mapas, aprimoraram feitiços e se miscigenaram. Tomara que essa troca cultural histórica, embora desumana e sangrenta, traga sabedoria e muitos pedidos de desculpas, mas que o outro também saiba aceitá-las com sabedoria e educação!

Ilustra o texto escultura em resina com pó de ferro, do artista goiano Gilvan Cabral, pioneiro no Centro-Oeste em esculpir negras na madeira do pau-brasil.