Sou fã

Hoje meu filho de 9 anos me perguntou:

_ Se você pudesse ser fã só de uma pessoa, de quem seria?”

Não me atinei se o personagem tinha de ser real ou fictício, então eu cantei:

_ “Ôh, maluquete, de quem você é tiete? Eu sou, sou tiete da Ivete! heheheheh”

Ele retrucou:

_Não, mãe, fala uma pessoa.

Pensei que fosse sério e respondi sem hesitar:

_ Adriana Varejão.

_Quem? Ele me olhou desentendido!

É um nome, quer dizer, um sobrenome esquisito mesmo!

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Adriana Varejão com sua filha Catarina

Tentei explicar a ele porque eu seria sua fã nos tempos atuais. Primeiro: porque ela é mulher, mas isso não tem nada a ver com o feminismo, mas com maternalismo. Ela é simples, natural e discreta, mas suas obras desdizem toda essa fisionomia frágil e delicada. Varejão é fugaz, densa e escandalosamente visceral.

Recordando uns dias desses, sobre um email trocado com o goiano, diretor e pesquisador de cinema, Beto Leão, há muito tempo atrás, em que divagávamos à respeito da filmografia nacional e, enfim chegamos à conclusão que os filmes, Brava Gente Brasileira, de Lucia Murat e Cidade Baixa, de Sérgio Machado, complementam um ao outro no aspecto visual da formação do povo brasileiro. O ponto em comum dos filmes, mas principalmente da obra da artista plástica carioca é o aborto, a carnificina e a violência velada de uma sociedade miscigenada à ferro e fogo.

Adriana “não tápa o Sol com a peneira”, ela o deixa entrar ao meio-dia, no solsístico. Tentando explicar ludicamente ao meu filho a importância da informação e da verdade que a artista exprime, digo que ela é uma cientista da arte, historiadora, antropóloga e socióloga. Mesmo ocupando uma posição privilegiada, Varejão não vira as costas para a realidade. Ela sofre com a desigualdade social e isso é explícito em sua obra. A doçura do tom com que trabalha a cor azul é calma e imperceptível não fosse a frieza que nos toca o olhar. Seus relevos viscerais, a crônica pervertida dos chinoiseries, os ex-votos, a insistência da frieza dos azulejos, as plantas carnívoras, a fauna e flora, o processo de craquelamento, as incisões… Ela desnuda a sociedade brasileira sem ser perniciosa ou preconceituosa, mas ácida, sanguinária com os nossos instintos, crítica defensora dos direitos humanos.

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Crédito das imagens @adrianavarejao

“Claro, meu filho, ela deve ter mil defeitos, como qualquer ser humano. Mas eu preferi ser fã de uma pessoa que existe, do que de uma que não existe. Nela eu enxergo, eu me enxergo dentro do sistema e tento me entender e entender os outros. Somos todos feitos de carne e sangue. Se você preferiu construir no seu quadrado uma piscina, uma sauna, um banheiro, uma sala de cirurgia, uma sala frigorífica para abate, um manicômio ou clínica de reabilitação, cuidado! O azulejo é escorregadio, ele corta e é frio como a cor azul.

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Catarina com 11 anos, vendo o encarte do cd de Antônio Zambujo

São essas e outras reflexões que Adriana Varejão deixa acesa, como uma luz no fim do túnel, aquecendo nossa alma. Ela provoca ao ponto de tocarmos o dedo na ferida, falarmos de assuntos tabus e pensarmos de onde viemos, o que somos hoje e para onde vamos?!

Termino meu texto com a canção Tubi Tupy, de Lenine, de quem também sou tiete e fã pra caramba:

“Eu sou feito de restos de estrelas

Como o corvo, o carvalho e o carvão

As sementes nasceram das cinzas

De uma delas depois da explosão

Sou o índio da estrela veloz e brilhante

Que é forte como o jabuti

O de antes de agora em diante

E o distante galáxias daqui

 

Canibal tropical, qual o pau

Que dá nome à nação, renasci

Natural, analógico e digital

Libertado astronauta tupi

Eu sou feito do resto de estrelas

Daquelas primeiras, depois da explosão,

Sou semente nascendo das cinzas

Sou o corvo, o carvalho, o carvão

 

O meu nome é Tupy

Guaicuru

Meu nome é Peri

De Ceci

Sou neto de Caramuru

Sou Galdino, Juruna e Raoni

 

E no Cosmos de onde eu vim

Com a imagem do caos

Me projeto futuro sem fim

Pelo espaço num tour sideral

Minhas roupas estampam em cores

A beleza do caos atual

As misérias e mil esplendores

Do planeta Neanderthal”