Empatia e Antipatia

Vocês começaram a desconfiar que estou me aproveitando do BLOG para desabafar e eu lhes darei toda razão, no entanto nesses meus desabafos vocês também poderão tirar algum proveito.

Dedicarei o texto de hoje à Capoeira por dois motivos, o primeiro é que no dia 3 de Agosto se comemorou o Dia do(a) Capoeirista e o outro foi um episódio que me aconteceu e gostaria de compartilhar, porque como diz o velho ditado: “Nada na vida é em vão, se não for benção é lição”.

Entre nós, serezumanozinhos habitantes da Terra existem dois pólos interessantíssimos: a empatia e a antipatia. Ocorre que você pode ter antipatia por uma pessoa e empatia pelo que ela faz. Exemplo: você pode ter antipatia por mim e empatia pela Capoeira, porque é uma luta de resistência, uma manifestação cultural e um patrimônio imaterial da humanidade. O que me impressiona é o serumano apresentar uma postura vanguardista e ter, até hoje, um discurso machista, “heterofóbico” e racista ao ponto de dizer que “Capoeira não é coisa para mulher”.

“Ave Maria, Nossa Senhora!

Esse jogo é bonito.

Esse jogo é de Angola.”

Meus amigos, atualmente qualquer coisa que uma mulher queira é para ela. Apesar da Capoeira ainda estar concentrada nas mãos e nos pés dos homens, assim como é na política e outras tantas áreas a serem distribuídas à sensibilidade feminina, percebemos a atuação de Graduadas, Professoras e Mestras tão sérias tanto quanto os antigos Mestres.

A Professora Paula, do Grupo de Capoeira Xangô, que ministra aulas na Austrália tem adotado um método muito satisfatório entre suas alunas. Paula interage yoga e musicalidade numa turma exclusiva para mulheres. As aulas, ora ministradas à beira mar, ora na bem estruturada e espelhada academia estimula a curiosidade, a resistência e a força de vontade de uma turma just for women. Para não dizer que não falei da nova geração, a sensacional Bonekinha, do Grupo Raça e Arte, de apenas 10 anos de idade coloca muita aspirante à ginasta olímpica em xeque. Sua destreza corporal é surpreendente e a habilidade de seus movimentos parecem ter saído de uma boneca de pano, que “enverga, mas não quebra”.

Tem verso de Dorival Caymmi assim: “Quem não gosta de samba, bom sujeito não é, ou é ruim da cabeça, ou doente do pé”. O mesmo caberia sobre a arte da Capoeira. Não por menos ela estar presente nos registros da Missão Científica do Brasil por Debret e Rugendas, nas pinturas de Portinari e Carybé, na literatura de Machado de Assis e Jorge Amado, nos versos de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, nas esculturas de Bruno Giorgi e Mario Cravo Jr e nas fotografias de Miguel do Rio Branco.

Blue Tango, série de fotografias do último está na Galeria de Arte que leva o nome do artista, no Instituto Inhotim. São 20 imagens realizadas no Pelourinho, em Salvador e registra uma sequência de movimentos da Capoeira entre duas crianças. O sobe e desce da dupla no fundo quase azul nos remete às ondas do mar, de onde veio a manifestação, embarcada em navios negreiros para desembarcar no litoral brasileiro. Outra curiosidade do título da obra é que, antigamente, o Tango era dançado apenas entre homens.

Que bom que muita coisa andou mudando ao longo dos tempos. Algumas para melhor, outras para pior, porque, afinal de contas, as polaridades não podem deixar de existir, não é! A vida é mesmo cheia de lições! Que sejamos sempre gratos pelas bênçãos! E que venham e que vão!!!

blue tangoMiguel do Rio Branco, fotografias, Blue Tango, 1984, Instituto Inhotim