PASSADOS / PAST

“As mulheres que concebem e amamentam apresentam uma espécie de rejuvenescimento em todo organismo, acompanhado de um caráter mais forte , mais resistente à dor, com refinamento de todas as qualidades mais belas da alma feminina: a bondade, a ternura, a resignação, o espírito de sacrifício e a abnegação.” (Adolphe Pinard)

 

O médico francês definiu com generosidade a rigorosa função da maternidade. Importante nome da Medicina do século XIX, Pinard revolucionou métodos da obstetrícia apontando recursos para facilitar o parto e cuidados com pré-natal. Uma transformação no corpo e  na vida de qualquer mulher que decida ser mãe  e por fim exercer esta “profissão” pelo resto de sua vida.

A proposta da mostra coletiva “Em nome da Mãe” vem para cutucar o Pai, que não sente as dores do parto, o sacrifício da amamentação e a eterna dedicação maternal.  A curadoria das artistas é o contraponto de técnicas, idades e pontos de vista dessas mães que exercem dupla jornada.

Emília Simon, a novata da turma se dedica ao filho de um ano, ao desenho, à pintura e ao bom humor, ora sarcástico, ora debochando da dura condição de sermos humanos. Retrata em figuras híbridas, coloridas e cheias de histórias engraçadas para contar, que a vida de uma mãe tem lá suas pitadas divertidas e repletas de peculiaridades fabulosas. A artista integrou o Coletivo Fake Fake, que entremeia a arte e a ilustração.

Adriana Mendonça permeia entre a ilustração e criação de personagens tridimensionais dentro de um universo lúdico, infantil, mas recheado de formas orgânicas, memórias do inconsciente e lembranças afetivas. Mendonça tem uma perspectiva figurativa curiosa no que diz respeito à família e seus membros. Consegue administrar o tempo entre lecionar, dissertar sobre sua tese, produzir sua arte e educar o filho de seis anos.

Simone Simões é visceral e investigativa. Abrange seu objeto de estudo na técnica da gravura, aquarela, pintura e encáustica. Uma alquimista em busca sempre do conhecimento, ela segue se espelhando na maternidade e deixa explícito em seu trabalho a delicadeza, a feminilidade, a doçura e a dor de ser mãe, de ser artista.  Sobre suas duas filhas já adultas, resume: “estou numa fase mais de observar com alegria as sementes que plantei”!

Marilda Passos é a veterana e expressa sua trajetória do início figurativo, passando pela abstração, pintura e escultura, assim como atualmente, sua habilidade na ponta seca em minuciosos desenhos geométricos. A beleza e o equilíbrio de suas formas são o contraste da penumbra, da luz, da sombra e da quase monocromia de suas obras revelando e velando as certezas e incertezas das quais cabe uma mãe e artista sentir. Passos é duas vezes mãe! Avó de cinco netos, divide sua jornada entre o seu  compromisso com a arte e sua família.

Quatro pontos de vistas de mulheres, mães e artistas que ao inverso do que impõe a sociedade machista, exprimem com naturalidade a mais importante de todas as funções sociais. A prioridade de maior excelência humana: a maternidade. O ventre que gera a alma de um futuro ser que seguirá seus exemplos, sua genética, seus caminhos e que, enfim se transformará no reflexo do seu ser. Uma responsabilidade única e fugaz, que aos erros e acertos o sentimento de Mãe é ainda o mais corajoso, anárquico e um ato artístico, pois esta é a maior de todas as criações, gerar uma vida. “Em nome da Mãe” é um convite às mulheres que vivem em jornada dupla ou tripla, para que se dêem ao direito de criar além da vida doméstica e com isso, criar suportes para expressar seus sentimentos de mulher, mãe e artista!

TATIANA POTRICH