Eles sãos

A impecável série da Netflix “The Crown” traz um ousado ponto de vista sobre a monarquia britânica e abala nossas opiniões acerca da moral, ética e conservadorismo, colocando em prática a máxima social “isso também acontece nas melhores famílias”. O “isso” é tudo isso mesmo: traições, homossexualismo, crimes políticos, escândalos morais e toda sorte de acontecimentos que nos prende do início ao fim da série. Numa dentre tantas outras primorosas cenas de audiência particular com a Rainha, se estabelece um diálogo a respeito do então Primeiro-Ministro, Wintson Churchill (1874-1965), quanto suas práticas de guerra contra o monstruoso Nazismo (ou o sistema de controle de natalidade a favor da raça ariana). O diálogo se resumiria na qualidade de homens como Churchill e Adolph Hitler (1889-1945), que ao se digladiarem na IIª Guerra Mundial tomariam ao certo as mesmas decisões genocidas que fossem necessárias para ganhar. O nobre e grande estrategista inglês, preparado desde cedo para assumir importantes missões como esta, Churchill, sai vitorioso da guerra independente de qual teria sido sua decisão final.

Seu respaldo histórico na política monárquica o condecoraria mais tarde, com um retrato encomendado pelo Parlamento, do sombrio artista Graham Suterland. Aos 80 anos enfim, aposentaria da vida política homenageado com o pronunciamento e a entrega da obra encomendada para a ocasião. A contratação do artista foi providencial ou proposital, pois ele captaria a penúria e penumbra do líder conservador que se ofenderia de tal forma a declarar publicamente sua recusa pela obra. Após dois anos de sua morte, a esposa Clementine Spencer-Churchill, queimaria o retrato num ato, dito pelo autor da obra, de vandalismo.

Os fatos da História da Humanidade recebem várias versões e consequentemente desfechos previstos ou não, mas podemos crer que a verdade encontra só um resultado, o bem vence acima de tudo. Wintson Churchill pode lá não ter sido um santo, o salvador da pátria que todos gostariam de pintar, poderia ao menos ter se ausentado da vida política aos 76 anos (ou até antes), idade que decidiu retomar suas atividades parlamentares, poderia ter sido um pouco menos gordo carrancudo e beberrão de whisky, entretanto, no fim das contas, por incrível que pareça, ele conseguiu por em prática o modelo comunista (ou humanista), cuja atitude de seu adversário foi exatamente a oposta.

Em “The Crown” há o sério argumento que o Ministro seria o único a conseguir combater as forças do Frührer, porque tal qual o ditador alemão, o nobre britânico teria a tão monstruosa capacidade estrategista para derrota-lo. Dois grandes líderes totalitaristas. Eles foram sãos em seus ideais, um: na tentativa de exterminar toda uma “raça inferior”, o outro: na tentativa de conter um tanque de guerra desgovernado.

Quem hoje conta os fatos é a História e as Artes e só aprende quem estuda, pesquisa e adquire sensibilidade daquilo que interpretou (se é que interpretou). Embora Hitler tivesse comovido toda uma nação tilintando os dentes e batendo forte os pés no chão, Churchill sensibilizou o mundo ganhando o Prêmio Nobel da Literatura, em 1953 e sendo eleito, em 2002, pela BBC como o maior britânico de todos os tempos.

Saibamos interpretar a História e seus sinais. A vida é um ciclo vicioso e estamos prestes a retroceder tanto de um lado quanto de outro. Evitemos expectativas, façamos por nós mesmos, para o nosso bem. Ou melhor, para o bem de todos que querem o bem, pois a luz e a sombra podem coabitar juntas na mesma intensidade.

churchillCena da série “The Crown”, o ator Stephen Dillane, interpretando o artista Graham Suterland e o ator John Lighgow, no papel de Wintson Churchill.