Ela

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Há muito tempo atrás fiz uma tentativa para me inserir no universo acadêmico prestando prova para Mestrado em Sociologia. Acreditei, romanticamente que seria possível defender o curso de uma luta marcial como manifestação cultural que tenta se estabelecer como esporte, mas que já se tornou uma mitologia brasileira. Claro, não passei na prova e tentei a Especialização em História do Brasil, o que me proporcionou uma pesquisa muito mais profunda sobre o meu objeto de estudo. Tive alguns contratempos, pois, enfim, contanto, todavia, sou uma pessoa muito romântica. Aturei comentários em sala de aula do tipo: “o sociólogo Gilberto Freyre passou pó de arroz na história brasileira”, “a capoeira não tem nenhuma referência indígena”, “você não vai conseguir escrever esta monografia”. Hoje tenho a certeza e Seu Jorge canta por mim: “tive razão/ posso falar/ não pegou bem/ não foi legal/ que vontade de chorar, dói.” Mas eu sou forte e sei muito bem no que creio.

Historicamente, no ano de 1890 à 1937 a capoeira foi decretada crime e era severamente punido quem fosse pego praticando ou portando qualquer objeto cortante ou instrumento musical suspeito. Mais tarde, o presidente Getúlio Vargas, em 1943 reconheceu a capoeira como Ginástica Nacional. Em 2008, o então Ministro da Cultura, Gilberto Gil oficializou através do IPHAN o título de Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro. E finalmente, em 2014 a Unesco reconheceu a capoeira como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

Não é tão improvável que ela venha caminhar mais para uma vertente cultural que esportiva. Afinal suas desastrosas tentativas em ser modalidade nas Olimpíadas nunca vingarão e sabem porquê? Porque Ela é música, Ela é dança, Ela é ginga, Ela é história brasileira, Ela é cultura popular e muito mais do que isso, Ela é cooperativismo. Não se trata de um time, a capoeira se reconhece em grupos, em estilos, em ideologias. Falta só mais umas gotinhas de dendê para Ela realmente encontrar com a sua verdadeira vocação.

Panis et circenses!

Um misto de espetáculo circense com apresentações de acrobacias, teatralidade na puxada de rede (por exemplo), instrumentalização com os estilos de toques do berimbau, luta ensaiada como na cintura desprezada de Mestre Bimba, sua demonstração como dança de golpes sem combate. Um espetáculo recriado e adaptado para a contemporaneidade, porque Ela saiu das ruas deixando de ser criminalizada e subiu aos palcos, porque foi reconhecida como patrimônio cultural.  Quem soube expressar bem essa vocação da capoeira foi Mestre Jelon com a sua Companhia de Dança, Dance Brazil. O espetáculo é composto por capoeiristas e bailarinos que dançam ritmos africanos, baianos (axé), pernambucanos (frêvo), carioca (samba), dança contemporânea e movimentos de capoeira. A coreografia é acompanhada por uma orquestra de berimbaus, pandeiros, atabaques, agogôs, reco-recos e a voz característica do cantador. Os espetáculos da companhia de dança apresentados em Nova Iorque expressam essa vocação da capoeira e seu estudo para um possível Cirque Du Soleil brasileiro.

“Ela é linda, ê/ Ela é linda, ê!”

Capoeira é um substantivo feminino da língua tupi-guarani (ca’a pûera) e têm uma variedade de significados complexos. Ela combina a miscigenação africana com a indígena. A simbologia da puberdade dentro das tribos, a musicalidade relacionada aos rituais litúrgicos, a organização do espaço em formato de roda.

Essa é uma tese minha sobre os desdobramentos da capoeira. Acredito que muita gente vai torcer o nariz com essa ideia, mas eu trato a cultura como algo sagrado, ancestral, um patrimônio do saber para se manter. São dados históricos dos quais constam na cronologia da capoeira que ainda luta para se manter viva. Vivendo sob os olhares preconceituosos da sociedade e talvez, até hoje racistas. É lastimável termos que esperar que algum estrangeiro assuma uma responsabilidade que é nossa (como o que na maioria das vezes acontece), porque eles estão loucos para assumir e tomar conta dela. Vamos à luta, camaradas! A capoeira é brasileira! Bate palma pra Ela!