É a vida

Meu filho de 6 anos me fez a seguinte pergunta:  “Mamãe, você sabe quem nasceu primeiro? Foi o homem ou foi a mulher?” Eu, para não me aprofundar na resposta , de imediato respondi que Deus criou o homem e a partir se sua costela fez a mulher. Ele me contestou e logo afirmou: “Não, mamãe, quem nasceu primeiro foi a mulher, depois o homem e eu posso provar. Olha só o calendário: primeiro vem do Dia das Mães, depois o Dia dos Pais e depois o Dia das Crianças.”

A lógica das crianças é tão doce e pura que estou começando a adotar essa hipótese, embora em algumas mitologias e religiões a mulher realmente tenha sido criada antes do homem. Controvérsias à parte, nesta semana que passou, após quase 13 anos de mistério foi entregue as 14 esculturas gigantescas do artista Damien Hirst, instaladas em frente ao Centro Médico e de Pesquisa Sidra, em Doha, Qatar, “A Jornada Milagrosa”(2005 – 2013). As esculturas em bronze, que variam entre 5 a 11 metros de altura, contam a trajetória da gestação e sua finalização num gigantesco bebê, que tem em seu umbigo a marca da ligação eterna com sua mãe.

O início da jornada é demonstrado com a primeira escultura de um óvulo e um espermatozoide e a seguinte simplifica a mitose que acontece com as células para a formação do embrião. Dentre as 14 esculturas, o artista cria um ventre representando fetos bivitelinos, o que comprovaria que a milagrosa jornada da Humanidade pode ter sido criada com o nascimento do homem e da mulher simultaneamente, não é mesmo!?

O que chama a atenção neste trabalho do tão polêmico artista norte-americano, além da escala das esculturas, é o tema que gera controvérsias já que a maior parte dos países do Oriente Médio não tem o hábito, nem a cultura de tocar em assuntos, que de certa forma, contestem a religião e o machismo. As mulheres dessa nacionalidade, assim como as turistas, não devem usar roupas decotadas, nem minissaias, os homens podem ter mais de uma esposa e a pena de morte é legal, assim como a severa punição da esposa adúltera.

Não é por acaso que a obra “A Jornada Milagrosa” demorou tantos anos para ser descoberta pelos 14 mantos brancos que a cobriam. A direção do Centro Médico com a Fundação Qatar, encomendou o trabalho ao artista e bancaram aproximadamente 12 milhões para sua execução, se comprometendo com a função social de responsabilidade ao propor o questionamento da população sobre a verdadeira origem do ser humano.

Num território onde a maternidade é visitada, até hoje, através de cenas como as da Virgem Maria com Jesus Cristo em seus braços, fica difícil conscientizar os crentes ou religiosos assíduos que Nossa Senhora na verdade não era virgem e sim jovem, como comprova algumas traduções do hebraico para outras línguas. Se Jesus Cristo veio do Espírito Santo, só Deus sabe, mas na oração “Ave Maria”, se sabe que foi do “bendito fruto do vosso ventre!”.

Não há como negar que a química entre Ciência e Arte é perfeita para se compreender os mistérios e milagres da vida sem ferir princípios e crenças alheias. Basta acreditar e questionar as pessoas certas como a “pureza da resposta das crianças. É a vida, é bonita e é bonita” (Gonzaguinha).

miraculous_jourey_hirst_05-798x500“A Jornada Milagrosa”, bronze, Damien Hirst (2005 – 2013) – Via AVA