Dois bicudos não se beijam

O último episódio da 1ª Temporada da série “The Crown” discorre sobre a glamurosa reviravolta da irmã Margareth para contornar um problema diplomático entre a Inglaterra e os EUA. Para quem acompanhou a série e sabe um pouco da história da Rainha mais antiga da Humanidade, vai lembrar que as duas irmãs eram sensos opostos. A monarca sempre conservadora, rígida, ríspida e chata, a caçula sempre alegre, extrovertida, brilhante e alternativa. Na cena final do episódio, o marido, o duque Philip têm uma conversa à sós com a sua esposa e usa o mito da águia bicéfala, Reichsadler para ilustrar a primogenitura. Ele diz: “Todos queremos igualdade, mas nós não nascemos iguais” e compara então as gerações passadas de Libeth, explicando detalhadamente que para um irmão chato, haverá um divertido. A origem hereditária é a mesma, ou seja, o corpo da águia é o ventre, mas cada cabeça pensará por si só. A liderança sempre escolherá a cabeça chata, o conservadorismo e a disciplina como foi o caso do reinado de seu tio Eduardo VIII, que abdicou precocemente do trono para o irmão mais novo, seu pai, George VI.

A história do mito da águia é descrita em várias versões, uma delas a heráldica do Império Romano, que sucedeu no Segundo Império Alemão (1871 -1918) até a introdução do símbolo da suástica na águia ao comando do Third Reich. Mas as origens são muito mais antigas. A águia vem desde tempos bizantinos (17 a 12 a.C.), o berço mundial da cultura, a Turquia ditou o mito até encontrar pouso nas bandeiras russas, que a cada mudança de império intercalava os adornos em suas garras. De tempos em tempos imagens como a coroa, o cetro e o globo eram substituídos pela cruz, escritos ou espadas. Em verdade, a origem das duas cabeças simbolizaria na Antiguidade os dois opostos da Terra, a Ásia Oriental e a Europa Ocidental. A bipolaridade que dividia o mundo em hemisférios. Observando as curiosidades da Humanidade, a Rússia, que reinventou a águia, também substituiu seus adornos pela foice e o martelo que apareceram em 1923 e até hoje está no imaginário estrangeiro, no entanto: “O fortalecimento do poder do Estado sob o Presidente Wladímir Putín se refletiu no símbolo da Rússia, que recebeu três coroas e símbolos de poder”. Via Russia Beyond

A diversidade dos símbolos em suas garras não muda a representatividade do mito, que aparece também como brasão maçon. Além de ser um predador do topo da cadeia alimentar ela possui uma visão aguçada que facilita seu trabalho de caçadora. Se suas cabeças adornam coroas ou não, se suas garras seguram suásticas, cruzes, espadas, cetros ou globos, se tem o desenho arredondado, ou é mais altiva nas formas geométricas, de fato isso nunca interferiu na sua mitologia porque ela sempre transitou entre os opostos conservando a tradição de ser um símbolo ambíguo. Há de se esperar que duas cabeças realmente funcionem melhor que uma, pois a Psicologia explica que sem o conflito não há o aprimoramento dos argumentos sobre as discordâncias, ou na Filosofia onde a tese tem a antítese para enfim se chegar uma síntese. O episódio de “The Crown” deixa esta ambiguidade no ar quando promove a importância do feito da irmã mais nova nos EUA, embora não formaliza sua atuação integral no reinado, protagonizando o perfil da cabeça chata que deve se impor aos exageros da diversão. A conduta de sucesso é um protocolo que deve ser seguido à risca com muita disciplina e chatice, mas a vida sem diversão é um fracasso à parte. Fica a mensagem subliminar que um pouco de ousadia e transgressão faz bem à saúde e aos negócios, mas manter a disciplina e o foco conservam o respeito e a credibilidade da liderança. Que cada cabeça saiba se colocar no seu devido lugar a tempo de se tornar uma só e se permitir a Paz, de vez enquanto.  

Tarcísio Veloso, óleo sobre tela, 60 x 60 cm, “Paz”, 2020.