Dívida

Dívida

“A taxa é zero o juro é alto vamos conversar
Ressarcimento pagamento vamos negociar
Aquela dívida de uns anos atrás está bem viva
Você não lembra mais”
O Rappa

Hoje o assunto é sobre dívida! Do latim debita, debere, dever, valor de uma quantia a ser pago. Quem nunca? Ou já deveu, ou deve ou deverás… Mas se já quitou, está quitando ou quitarás, então está tudo certo, mas senão, aí já são outros quinhentos. Quinhentos anos ainda revendo a História do Brasil e suas infindas dívidas internas, externas, raciais, sexuais, sentimentais…

Certa vez perguntaram a fervorosa artista carioca, Adriana Varejão o que ela achava das cotas raciais, numa revista de bordo, há uns 10 anos atrás. Ela respondeu que concordava e que a nossa dívida com os africanos ainda demoraria muito a ser paga, as cotas seriam apenas o início de uma prestação de contas. A artista paraense, Berna Reale, que citei no texto da semana passada, também faz ativismo à esta dívida e outras, deixando explícito nos registros de suas performances, que falam mais que mil palavras.

As dívidas de uma sociedade com as minorias ora caminham, ora desencaminham. Falar de assuntos polêmicos, incomodam e esbarram em conservadorismos que podem, ou não, ser construtivos para soluções mais humanistas, igualitárias e esperançosas à um futuro menos violento, menos populoso e poluído. Mas a verdade dói e ninguém quer se incomodar com assuntos do passado, afinal, essa dívida não é nossa. Quem não teve uma vó índia que foi capturada pelos cabelos e estuprada para gerar uma nação brasileira miscigenada. Quem não teve um tataravô escravo, que foi apadrinhado pelo sinhozinho porque a filha se apaixonou pelo crioulo e por descuido, engravidou. Ou o contrário, o sinhozinho que engravidou dezenas de criadas, tendo povoado uma vila inteira com o mesmo sobrenome. Mas daí não há dívidas, afinal somos todos parentes, o conhecido Cunhadismo, como descreveu Darcy Ribeiro. Será?

Recentemente, um vídeo viralizou nas redes sociais de uma entrevista com a atriz argentina Marina Glezer, que confessou se sentir aliviada por ter abortado aos 18 anos. Ela faz um discurso sobre como a visão do aborto ainda é atrasada e romantizada e como isso não funciona na prática, principalmente nos países subdesenvolvidos. Ela ainda ressalta que o aborto é uma questão de saúde pública, uma dívida da democracia ao excluir as mulheres de baixa renda em não ter assistência para esse tipo de procedimento legal, pois a cada 3 mulheres, uma morre na clandestinidade: “Não se morrem os embriões abortados, se morrem las mujeres”.

As mulheres ainda não poderão competir com igualdade no mercado de trabalho se estarão prestes a gerar um filho que não foi programado. As mulheres ainda não poderão exercer poder de decisão se ainda não detêm da liberdade das finanças domésticas. Há também uma dívida literária quanto a visão machista que foi descrita durante milênios pelos homens. Quem nunca ouviu falar da primeira matemática da história, Hipátia de Alexandria (355 D.C.), que foi assassinada por religiosos, simplesmente por descobrir coisas que os homens não sabiam explicar. Mais um ponto para o Papa Francisco, que acaba de nomear 6 mulheres para o Conselho do Vaticano, cargos que antes eram ocupados exclusivamente por homens. Parece que a prestação de contas está começando a funcionar! Fé…minismo, no bom sentido!

Ilustra o texto aquarela da goiana Lívia Chagas, um dos 5 artistas selecionados pelo nosso Edital 2020. Lívia Chagas pesquisa o corpo feminino e as possibilidades da aquarela em encobri-lo de cor e sombra. A mostra e o passeio virtual começam no dia 1° de setembro.