Diário de uma hóspede

Raramente, com tom tão irônico, Gilberto Freyre alfinetou, em “Ordem e Progresso” (1987), as medidas populares que mais vieram atuar como meras datas comemorativas que propostas postas em prática: “O 15 de Novembro no Brasil não foi senão o periquito da sociologia com relação ao papagaio: o 13 de Maio”.

A abolição da Escravatura e a Proclamação da República, mesmo um tanto “simbólicas”, ainda hoje, por bem foram oficializadas para flexibilizar pensamentos e a mobilidade das classes na crescente pirâmide social. Inspirada em nossa épica história nacional, sob o olhar sereno e pincelado de romantismo por Freyre, a jornada brasileira é de dor e prazer, sangue e suor, misticismo e fanatismo.

Existe uma antiga cantiga da Capoeira que diz assim: “olha eu vou falar, quem quiser diga que sim oh, iá, iá, quem quiser diga que não. Agradeço à escrevidão. Quem quiser que ache asneira, se não fosse o escravo oh, iá, iá, não existia a Capoeira”. O Brasil nos presenteia entre uma ferida e outra, a singeleza bruta cultural de um país lapidado a ferro e fogo, pedra e ouro, que vem se transformando cada vez mais em patrimônio mundial. Pensar no Brasil é pensar na árvore genealógica que nos criou, na árvore do pau-brasil, na Bahia, na calunga, na capoeira, no caruru, no caiçara, no camará! É pensar no índio, africano, português, as belezas naturais, o calor e a geada, o mar e as montanhas.

Um cantinho no sul da Bahia, em particular, conta nossa trajetória através de artefatos, obras de arte e uma suntuosa e rústica decoração explorando as primordiais etnias, que deram origem à formação da “raça brasileira”. O Arraial d’Ajuda Eco Resort nos recepciona com arranjos naturais de flores e folhas de bananeira, de arecas, de coqueiros, antúrios, orquídeas e outras espécies não nativas que se adaptaram bem às terras Brasilis. As esculturas em cerâmica do Vale do Jequitinhonha, os vastos aparadores em madeira que tinham como função a produção de queijo nas fazendas do século XIX, as máscaras africanas, a coleção de plumária indígena cuidadosamente exposta nas vitrines de parede vermelha, as reproduções de Jean Baptist Debret, os tecidos com estampas de costumes indígenas, as referências da baiana e do capoeirista nas portas dos toaletes, a parte de um barco de pescador na parede da sala de informática para “navegar”, os ladrilhos azuis no salão principal, como referência maior à cultura portuguesa. As gigantescas esculturas do artista baiano, Tatti Moreno espalhadas pelos jardins do resort, fortalecendo a espiritualidade dos orixás, como Oxalá, que pela etimologia árabe, significa “in shá allh” (se Deus quiser), de frente ao rio que separa Arraial de Porto Seguro. Tudo que há, por todos os lados é impossível não estabelecer a relação da Casa Grande e Senzala, em mais uma jornada épica de Freyre.

Se o “periquito” da República funcionou ou continua funcionando é porque a Humanidade caminha a passos lentos, pois pela percentagem, ainda se constata que o “papagaio” da abolição é uma preservação aos hábitos da nossa pirâmide social.

Um lugar simplesmente mágico e inspirador, que coloca em pauta nossa origem e nossas diferenças sociais, econômicas, mas nunca culturais. A cultura ali é demarcada por todos os lados e dialoga com todas as tribos, porque a arte é uma linguagem universal.

1foto: Flávia Domingues, “Oxalá”, Tatti Moreno, no Jardim do Arraial d’Ajuda Eco Resort