Deus

Meu Deus, tanto assunto acumulado para dissertar! Um domingo de folga que deu muito pano pra manga sobre babados, plissados, plumas e paetês. O tema “Camp” do MetGala, por exemplo, roubou a cena de muito evento do circuito da Arte Contemporânea. Quem quer lá saber quem é a swingueira pernambucana, de peito siliconizado, com cara da Beyoncé, em videoclipe selecionado para Bienal de Veneza, quando se tem uma mega performance de Lady Gaga acontecendo no red carpet? Quem vai querer saber da majestosa mostra baiana, no Museu Afro, de São Paulo, ou da retrospectiva de Adriana Varejão no MAM, de Salvador, quando está programado o Festival de Cannes, a última temporada de Games of Thrones ou a passeata em prol do Ensino Público nas ruas? Quem iria se perguntar, que há exatamente um ano atrás, se iniciara uma turnê internacional, após 75 anos escondidas, os gigantescos painéis da sueca Hilma af Klint, que primeiro pousaram em terras brasileiras, na Pinacoteca de São Paulo, para depois desembarcarem no Museu Guggenheim, de Nova Iorque? Quem se importaria em questionar por que insistem em filmar biografias tupiniquins de mitos, ou fake mitos, como políticos, religiosos ou duplas sertanejas, quando se poderia financiar séries de verdadeiros heróis ou heroínas nacionais como Machado de Assis (escritor), Carmem Miranda (dançarina e cantora), Lygia Clark (artista plástica), Ayrton Sena (esportista) e a lista vai… Alguém saberia me dizer por que estamos tão interessados na beleza externa e nos esquecemos da interna?

Olha, esse texto tá ficando um pouco chato, mas sinceramente o mundo anda mesmo muito chato! Tudo tem de virar uma lista de afazeres para alcançar imediatamente a felicidade:

“Vamos ler um livro de auto-ajuda”, “Vamos colocar um botox aqui, mas é só para correção”, “Vamos para Disney, mas é pelas crianças, claro”, “Vamos comprar um Romero Brito, ele é incrível”, “Vamos nos alienar e ficar cada vez mais vazios, assim alcançaremos mais rápido a felicidade”.

Feliz daquele que se satisfaz com pouco e com o melhor. Feliz daquele que cita o nome do autor que leu sem querer levar os créditos daquilo que escreveu. Feliz daquele que posta a imagem e declara sua fonte, o fotógrafo ou o modelo. A história de Narciso nunca foi tão atual! Estamos nos afogando em nosso próprio reflexo. Estamos adoecendo e os remédios não fazem mais efeito. Os médicos indicam a yoga, meditação, gnose, oração… Deus!

Parece piegas, mas é uma questão milenar. Só o dia em que alguém decifrar os vedas, ou as escrituras de Leonardo Da Vinci, ou o surrealismo enigmático de Miró, ou geometria orgânica de Hilma, ou as mensagens dos bordados de Bispo do Rosário, ou até as constelações de Antônio Dias, poderíamos saber ao certo como foi criado o Universo, mas enquanto isso fica sendo o Todo Poderoso mesmo.

No livro “Paintings for the Future” (Pintura para Futuro) há uma interessante passagem (dentre várias), da escritora, Anna Maria Svensson, que observa a importância dos experimentos pictóricos de Hilma af Klint e a relevância em disseminar seu trabalho para o mundo, no intuito de esclarecer a humanidade sobre suas ideologias: “(…) Though they travel through much dirt they were yet retain their purity“: (Apesar de se deslocarem bastante na sujeira, ainda sim preservam sua pureza).

Isto é, em verdade, o ser humano só conseguirá alcançar a felicidade (ou a espiritualidade), quando se aprofundar em sua própria sujeira, em sua mais profunda escória. É triste, mas cest la vie. Esse é o único caminho para a felicidade, a busca do auto-conhecimento. “Conheça-te, a ti mesmo”, repetia Sócrates aos seus discípulos e o quão atual ainda ecoa a voz de suas sábias palavras. Quais são nossas sombras, nossos odores(fedores), nossa escuridão? Só descendo até lá poderemos ascender a luz e aceitarmos nosso breu, desse jeito que somos, sem máscaras, rímel, silicone, hormônio ou remédios. Deixemos que os artistas registrem nossos tempos, nossos medos, nossas falhas, nossas taras e que possamos consumi-los com sabedoria e dignidade, porque é através da Arte que conseguimos chegar o mais próximo de Deus, ou de nós mesmos!

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Fotografia do goiano, Rogério Mesquita