Desmistificando mitos

Amós Oz (1939-2018) é (ou era até semana passada) um escritor sagrado em Israel. Pacifista e colecionador de prêmios literários internacionais, Oz teve sua vida privada exposta recentemente pela própria filha, que acaba de lançar uma autobiografia sobre as violências domésticas e abusos psicológicos que sofrera com o pai. Ora, num país tão religioso e machista como Israel, seria até corriqueiro uma filha passar por tudo isso e ninguém dar ouvidos, não fosse a contribuição histórica e cultural de um homem público como seu pai, a imprensa deu ouvidos, voz e mais algumas páginas nas mídias virtuais.

É sabido e até comum na História da Arte as disparidades comportamentais dos artistas em geral. René Rodin (1840-1917), por exemplo, foi a última gota para enlouquecer por completo sua talentosa discípula e amante, Camille Claudel (1864-1943). Quantas biografias de Jackson Pollock (1912-1956) precisaríamos ler para entender que ele era um fanfarrão e um ninfomaníaco incurável. Pablo Picasso (1881-1973) teve mais amantes que telas para pintar. Quem não sabe que o gênio do cinema mudo, Charlie Chaplin (1889-1977), o icônico Carlitos era um cineasta indomável, assim como seu colega Alfred Hitchcock (1899-1980). No romântico e tendencioso documentário sobre moda “Casablancas (1942-2013): o homem que amava as mulheres” é explícito a prepotência e petulância da top model Naomi Campbell (1970), dentre outras celebridades do ramo.

Há uma lógica nisso tudo, a resposta é que para a grandeza de toda essas genialidades há uma outra inversamente proporcional. Quanto mais talento e brilho se expande, maior a escuridão e a obscuridade que se escondem dentro dos holofotes. Biografias não autorizadas estão aí para nos dizer o que nem sempre pode ser dito. Mas é claro que eu não estou aqui para julgar ninguém. O que seria do mundo sem estes gênios geniosos? Nossas vidas são preenchidas com cultura e lazer, música, moda, design e sabor por causa deles e delas.

O escritor Ítalo Calvino (1923-1985) também entra no bolo dos geniosos. Nascido na Itália e criado em Cuba, Calvino transitou entre ideologias opostas, ora defendendo o comunismo, ora o neoliberalismo. Inspirado em sua obra “Cidades Invisíveis”, o arquiteto, artista e designer, Ricardo Masi reproduziu na técnica de corte e dobragem em papel o conto “Armila”, cujo tema aborda uma situação controversa, mas que enfim, consegue ser equalizada pelo destino!

Ignoro se Armila é dessa maneira por ser inacabada ou demolida, se por trás dela existe um feitiço ou um mero capricho. O fato é que não há paredes, nem pavimentos: não há nada que faça com que se pareça com uma cidade, exceto os encanamentos de água, que sobem verticalmente nos lugares em que deveria haver casas e ramificam-se onde deveria haver andares: uma floresta de tubos que terminam em torneiras, chuveiros, sifões, registros. A céu aberto, alvejam lavabos ou banheiras ou outras peças de mármore, como frutas tardias que permanecem penduradas nos galhos. Dirse-ia que os encanadores concluíram o seu trabalho e foram embora antes da chegada dos pedreiros; ou então as suas instalações, indestrutíveis, haviam resistido a uma catástrofe, terremoto ou corrosão de cupins. Abandonada antes ou depois de ser habitada, não se pode dizer que Armila seja deserta. A qualquer hora do dia, levantado os olhos através dos através dos encanamentos, não é raro entrever uma ou mais jovens mulheres, esbeltas, de estatura não elevada, estendidas ao sol dentro das banheiras, arqueadas debaixo dos chuveiros suspensos no vazio, fazendo abluções, ou que se enxugam, ou que se perfumam, ou que penteiam os longos cabelos diante do espelho. Ao sol, brilham os filetes de água despejados pelos chuveiros, os jatos das torneiras, os jorros, os borrifos, a espuma nas esponjas. A explicação a que cheguei é a seguinte: os cursos de água canalizados nos encanamentos de Armila ainda permanecem sob o domínio de ninfas e náiades. Habituadas a percorrer as veias subterrâneas, encontram facilidade em avançar pelo reino aquático, irromper nas fontes, descobrir novos espelhos, novos jogos, novas maneiras de desfrutar a água. Pode ser que a invasão delas tenha afastado os homens, ou pode ser que Armila tenha sido construída pelos homens como oferta para cativar a benevolência das ninfas ofendidas pela violação das águas. Seja como for, agora parecem contentes, essas moças: cantam de manhã.” 

“Armila”, participa da mostra “Sensações” realizada pelo Coletivo Tremma e Opus Incorporadora no decorado do Deck 23, na Praça 53, Setor Bueno. E a gente agradece as disparidades comportamentais dos artistas. Que continuem sempre geniosos!!!