Contaminação

O fatídico acontecimento da semana passada sobre o caso de suspeita de meningite, que levou à morte uma criança de nove anos de idade, foi o motivo para um estado de pânico entre os grupos mais calorosos de mães que surtaram com o óbito. O efeito da notícia foi tão alarmante que o próprio colégio onde estudava a criança se encarregou de dar uma palestra educativa sobre o assunto, assim como realizou a missa de sétimo dia do querido aluno.

O caso não tem nada a ver com meu assunto de hoje, mas quero fazer uma relação com a obra de um artista goiano muito peculiar. Juliano Moraes é professor na FAV/UFG, artista plástico premiado e realizou interessantes mostras, uma delas no Itaú Cultural, em São Paulo, a coletiva ”Caos e Efeito” (2013). O artista produziu uma espécie de obra-performance, cujo rastro de graxa marcava o percurso por onde as pessoas passavam e deixavam o registro desse material impregnante. O visitante se desequilibrava, ou escorregava e contaminava todo o espaço expositivo, carimbando outros andares do prédio ocupados pelos demais artistas e curadores. Era uma “obra perigosa”, afirmou o curador Paulo Herkenhoff, porque “ela permeava, atravessava as outras obras e toda a exposição, também contaminava as pessoas que estavam nela, manchando e maculando as coisas”.

Juliano realizou em 2017 a individual “Contrarquitetura”, no MAC-CCON onde produziu um conjunto de obras que se diversificavam entre instalações, objetos, esculturas e técnica mista sobre papel. Fernando Oliva (Doutor em Artes Visuais pela ECA-USP), disserta para texto do catálogo: (…) ”o conjunto destas obras dá origem a um lugar próprio, situado na alternância entre tensão e distensão: na mesma medida em que Moraes reconhece e se aproxima do problema, procura se afastar dele, muitas vezes se valendo do bom humor e da ironia, ferramentas de que se utiliza com naturalidade”.

O bom humor e a ironia do artista são percebidas de imediato em verdadeiros pastiches ou numa releitura divertida da Arte Povera, estilo da década de 60, que incorporava materiais ordinários na produção das obras de arte. O artista argentino, Lucio Fontana (1899-1968) foi um dos maiores expoentes deste estilo e também foi o percursor da Arte Conceitual. Tinha como marca registrada rasgos precisos em suas telas visionando uma ruptura ao modelo tradicional da pintura sobre tela e experimentando a fissura como um novo elemento de investigação sobre a profundidade, o tempo e a dimensão.

O artista goiano integra o rasgo ao papel como novo elemento visual de sua obra, parodiando a Arte Povera e, porque não, ironizando a trajetória da História da Arte e seus ícones artísticos. Silver tape, papel celofane, laminado de madeira e bastão à óleo são alguns dos elementos que o artista se apropria para desenhar. Ele desenha suas reminiscências de infância, talvez, possíveis acessórios de design, como os que seu pai fazia para vender na feira hippie. Ele recria, com um certo sarcasmo, a estética da Arte que está na moda, o abstrato que não agride, não questiona, não incomoda, ou não! Pensar o trabalho de Juliano é levantar questões muito eruditas do universo da Arte, mas também é se divertir em meio ao caos e efeito que ele sugere. Afinal, estamos sempre a nos contaminarmos uns aos outros, seja na saúde, seja na doença. Que a Arte de Juliano Moraes seja para nós uma contaminação saudável, curiosa e bem-humorada.

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Juliano Moraes, 100 x 150 cm, gelatina, papel prateado, grafite e óleo de linhaça sobre canson, 2017