Como os nossos pais

O título, um bordão em nossa sociedade, foi ícone da geração lírica de Belchior, interpretada pela voz apimentadinha da imortal, Elis Regina. Quem não a cantava como hino dos anos 70, pelo menos tinha a dignidade de escutá-la dos amigos! “Como os nossos pais” dos anos 2017, é o filme da diretora Laís Bodansky, que não tem nada ou quase tudo a ver com a canção de Belchior.

O cotidiano de uma mulher de meia idade da classe média paulistana, filha de artistas e em crise com a avalanche de conflitos que o roteiro lhe apresenta é protagonizado pela atriz Maria Ribeiro, a Rosa. Maria Ribeiro é forte, antipática e talentosa, o perfil perfeito para interpretar e se esquivar das adversidades com que a personagem se depara. Ora previsível, com diálogos que remetem aos filmes do sueco Ingmar Bergman, ora surpreendente pela leveza como se conduz a conturbada trama, o filme é feminino e doloroso como um parto normal: dói, mas passa!

Por ter características tão femininas são perceptíveis nas cenas, no figurino e na fotografia, detalhes que denunciam a profissão humanista dos personagens e todo seu entorno. A mãe, intelectual, abriga uma volumosa biblioteca em sua casa, com um jardim muito bem assistido, visto que a variedade de vasos e diversidade de plantas compete com os livros. Nas paredes de sua casa, obras de arte modernistas, discrição e singeleza do bom gosto nos complementos da decoração. Sem se esquecer, é claro, do piano de cauda. No apartamento da amante do pai, uma refinada decoração, com escultura e obras de arte demonstradas em rápidas cenas. (como na foto abaixo: uma xilogravura com fortes referências do trabalho do artista renomado, Antônio Henrique do Amaral)

A fotografia da paisagem de São Paulo é primorosa, apesar das rápidas tomadas, o visual da metrópole é um colírio para os olhos. Para ir de encontro com seus temores, Rosa, a protagonista, viaja à Brasília, onde somos presenteados com toda majestosa arquitetura, a atmosfera de design e glamour político e as curvas faraônicas de Oscar Niemeyer, no Palácio do Planalto.  Rosa é convidada para uma conferência na paradisíaca Ilha Bela, onde enfim, nos sentimos verdadeiramente abençoados pela natureza. O filme valoriza nossa brasilidade sem se render ao americanismo hollywoodiano dos filmes comerciais. O crítico de cinema Bruno Carmelo faz uma reflexão coerente e realista da obra acentuando suas falhas, mas principalmente seus pontos positivos.

Pode-se reclamar, portanto, que parte deste discurso não soa natural, e nem todas as importantes ideias feministas se encaixam tão bem na boca dos personagens. Apesar destas ressalvas, Como Nossos Pais tem consciência de seus objetivos e sua estética, conduzida com precisão notável: nenhum elemento técnico chama mais atenção que o outro, tampouco desperta atenção para si próprio. Este seria um bom exemplo do “cinema do meio” (nem hermético, previsto para um nicho, nem escrachado, previsto para a massa) de que o cinema brasileiro tanto precisa. Se ele puder incitar a uma discussão progressista e despojada sobre o papel da mulher na sociedade, melhor ainda. Enquanto tantos cineastas buscam a maneira mais adequada de fazer cinema contemporâneo, Laís Bodanzsky continua fazendo cinema moderno, e muito bem por sinal”.

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 Rosa, Maria Ribeiro. Cena do filme “Como nossos pais”, 2017