Coletivos Culturais

Dentre tantas diversidades e adversidades vivemos num momento precioso para avaliarmos atitudes e comportamentos que afetem a sociedade e sua projeção cultural para o futuro. Quando a Arte se manifesta com suspeita cautela e subliminar sobriedade é chegada a hora de uma reflexão coletiva. Se num dado período da história brasileira, artistas declararam guerra contra a ditadura militar e suas censuras, como o famoso Ai-5, atualmente nos deparamos com manifestações mais brandas, no entanto generalizando o comportamento nacional, seja para o bem, quanto para o mal. O filme, “Bacurau”, de Kleber Mendonça e Juliano Dornelles, por exemplo, concorreu à Palma de Ouro ontem e levou o Prêmio do Júri, numa das categorias mais importantes do cinema mundial, no Festival de Cannes, na França. Bacurau é um termo tupi, que significa “maldizente” e dá nome a um pássaro de hábitos noturnos, período que sai a caça de suas presas, de pio triste, ave agoureira,  tal como a analogia dos personagens que exploram à duras penas uma comunidade que passa despercebida no mapa do país. O suspense, terror e ficção são o mote para um roteiro tão politizado e “ao sonho febril sobre um tempo perturbado no Brasil” (Warp – plataforma sobre cultura).

Outro sintoma, mas na literatura é a entrega do maior prêmio da Língua Portuguesa, ao escritor e compositor Chico Buarque. O Prêmio Camões é atribuído a autores que contribuíram para o enriquecimento do patrimônio literário e cultural da língua portuguesa que de tanto ler, estudar e escrever, esse carioca cativo recebeu a singela quantia de 100 mil euros. Com devido merecimento e sem mais delongas.

Mais um sintoma, desta vez na Arte Contemporânea, foi a obra selecionada para 58° Bienal de Veneza, “Swinguerra”, da dupla de brasileiros Barbara Wagner e Benjamim Burca. A videoinstalação dividiu críticas e se fez ouvir e ver para o mundo, como uma das expressões culturais mais popularizadas no país. O misto de pagode, brega funk e swing é trilha sonora para um culto ao corpo, à transexualidade, à resistência afrodescendente e à cultura de gueto. Ali não tem fake news, mesmo que ainda faltem verdades sobre outras expressivas manifestações culturais, o destaque é a ginga (nome da música da cantora IZA que está remixada num dos videoclipes da obra). “Swinguerra” é um apelo ao conservadorismo retraído e enrustido de uma sociedade que vem emergindo à base de extremismos e polarizações coletivas radicais. A Arte vem e dá seu tom! Bonito, bonito não é senão não se chamaria “guerra”, né! O que se pode observar são grupos de dança, selecionados desde 2015 pela dupla de artistas, tentando se firmar com alguma autenticidade em competições que os estimulam a treinar ao menos três vezes por semana. O objetivo principal desses grupos é demarcar sua identidade social em prol da sua manifestação cultural. Daí a divisão de opiniões, se é bom ou ruim, bonito ou feio, isso não vem ao caso, mas sim a beleza “tribalista”, a resistência e adaptação desses guetos que, de uma forma ou de outra se organizam para expressar o que talvez tenham de melhor a oferecer, neste caso, a dança, a swinguera. A obra da dupla de artistas nos conta muito sobre uma nação partida, partidária. Num momento onde tantos gritos virtuais ecoam pelas redes, partimos do pressuposto que a união faz a força. Se foram selecionados para uma Bienal Internacional é porque eles realmente tem algo a nos mostrar.

Uma nação só é reconhecida internacionalmente quando valoriza suas manifestações culturais. Essas manifestações acontecem através dos guetos, grupos, comunidades, companhias, coletivos que se organizam para dizer a que vieram. Ora, se eles estão em guerra ou não, pelo menos já escolherem sua arma, a Arte. Com a Arte, meus amigos só se ganha em longo prazo, mas vale a espera! A gente valoriza os coletivos e incentivamos esta comunhão em nossa própria casa. Todos são convidados para o GARiMPO-COLECiONiSMO, que acontece com o café da manhã, no próximo final de semana. Uma mostra coletiva de arte, design e moda com programação cultural de bate-papos, oficina de arte e obras à preços acessíveis. Aqui não tem guerra, não, tem Arte para dar e vender! Aguardamos sua visita!

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Making off do GARiMPO-COLECiONiSMO. Créditos Alejandro Zenha