Cinco Mulheres e um segredo

A Fundação Cartier, em Paris abriu no dia 30 de janeiro a mostra “A Luta Yanomami”, da artista suíça naturalizada brasileira, Cláudia Andujar que tem Galeria com seu nome no Instituto Inhotim. Andujar investigou durante anos, se embrenhado na mata e na tribo desses indígenas, registrando seu habitat, seus rituais e por fim a contaminação que os brancos causaram com seu contato tóxico e abusivo. Suas imagens nos ensinam muito sobre a natureza humana e como a cadeia alimentar se estabelece de maneira implacável. A artista Adriana Varejão à convite da mesma Fundação, em 2004 realizou uma expedição à comunidade Yanomami. “A artista não foi ao encontro de qualquer sociedade. Ela mesma explica que os artistas convidados pela Fundação não eram obrigados a conviver com os indígenas. Foi sua decisão de seguir viagem e conhecer os nativos que seu pai encontrou, quando o grupo andava sendo recém-contatado”. No livro “Pérolas Imperfeitas: a História e as Histórias na obra de Adriana Varejão”, a professora e antropóloga Lilia Mortiz Schwartz disserta e disseca a obra da artista esmiuçando detalhes pictóricos e psicológicos, elucidando um resgate quase primitivo do fazer artístico e o sentir se verdadeiramente humano. Scwartz descreve, a partir de depoimentos da artista, o processo de criação da obra “Em Segredo” (2003), que consiste numa instalação, cujo desenho de uma planta nativa segue os padrões dos naturalistas do século XVIII e logo aos pés do papel, repousa uma reluzente folha de bananeira, que serve um feto tridimensional, baseado nos estudos do caderno de Leonardo Da Vinci. A legenda que segue da obra é a escrita indígena: “ya pihi irakema”, na tradução “estou contaminada”. A beleza do texto é logo compreendida pela figuração da obra. Uma gravidez interrompida une uma dolorosa etapa da vida da artista aos mistérios do universo primitivo dos indígenas. Há muito misticismo na floresta e Varejão descobriu, através deste contato, as toxidades que as pessoas podem provocar em suas relações, principalmente quando são cegamente conduzidas pela paixão. “Assim que cheguei na floresta, sofri uma febre muita alta e caí na rede… estava duas vezes contaminada, pela estranha febre e por aquele estado de paixão febril. Juntei tal sensação à imagem das plantas de fertilidade, relacionados à cultura Yanomami. Em segredo, aquele estado em que me encontrava, como algo dentro de mim mesmo, que cresce sozinho, que você tem que sacrificar para se salvar, tomou força”. É, na minha opinião, a passagem mais humana do livro quando a artista admite e cita o aborto, envolto dos seus já 39 anos de idade. A atmosfera da floresta lhe deu força e compreensão em aceitar que para cada escolha existe uma renúncia.

Não é de hoje que as artistas levantam bandeira para descriminalização e/ou legislação do aborto que acolha mulheres em situação de abandono social e abuso sexual. A Organização das Nações Unidas equiparou a proibição do aborto à prática de tortura contra mulheres. A artista plástica, Aleta Valente, endossada por Adriana Varejão, adotou um personagem, com o pseudônimo Ex Miss Febem, o qual atende pelas redes sociais onde publica memes provocativos sobre a sociedade brasileira e bizarrices tragicômicas. Valente levanta seriamente a bandeira para temas pertinentes como o aborto, o machismo e o racismo. É bem clichê, mas tá na moda e a artista angaria adeptos para seu bloco. Ela acabou de realizar sua primeira mostra na Gentil Carioca, uma galeria de arte vanguardista da Lapa, no Rio de Janeiro. É assim que se mostra uma artista ativista, que tem coragem de manifestar seus sentimentos e experiências, mesmo estando exposta à críticas e repressões. Por isso, são poucas, as verdadeiras artistas, poucas as que se encorajam diante da hipocrisia social e comodidade do universo virtual. Mas, o mais difícil ainda é ser mulher, onde os olhares são muito mais atentos e pontuados.

Para ilustrar este texto feminista, selecionei o trabalho da artista goiana Simone Simões, de nome sibilante como o formato orgânico de suas aquarelas. Um desenho dançante da tinta sobre o papel, que discorre em gotas, umas sobre as outras, como a cor vermelha do sangue, a cor que cobre o feto. Esteja ele vivo, ou morto em segredo. Porque toda mulher teve, tem ou terá uma paixão! E naturalmente, ela irá sangrar!

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Simone Simões, aquarela sobre papel, 2019, ao lado da nossa bancada do café