Carnaval

Hoje é domingo de Carnaval, porque a Páscoa deste ano cai no dia 21 de Abril. Você sabia que no ano de 1818 a Páscoa caiu dia 22 de Março, um mês antes? Isso acontece porque: “A data da Páscoa mistura 2 calendários, o lunar (influência do judaísmo) e o solar (usado pelos egípcios). O calendário solar leva em conta a volta da Terra ao redor do Sol em um ano (ou 365 dias). Enquanto isso a Lua completa suas quatro fases em 29,5 dias. Doze ciclos completam 354 dias. O ponto de partida para se chegar ao dia da Páscoa é a data do calendário solar, o equinócio, que marca o começo do outono no hemisfério sul. Neste momento entra o calendário lunar, é preciso esperar a próxima lua cheia. A partir daí, o domingo seguinte é o da Páscoa. Como os calendários solar e lunar não são sincronizados, esta data muda todos os anos. O Carnaval é contado retroativamente 46 dias antes da Páscoa. São 40 dias de quaresma somados a 6 domingos “. (Via Jornal NEXO)

O significado da palavra Carnaval  vem do latim, carnis levale “retirar a carne”, nada mais é que o jejum que deveria ser praticado durante a quaresma, num ritual da Igreja Católica para controlar os prazeres mundanos e os excessos cometidos nas festas profanas. Embora com matrizes na Antiguidade: Mesopotâmia, Grécia, Roma e mais tarde nos famosos bailes de máscaras de Veneza ou a popular festa do Holi, na Índia, o Carnaval Brasileiro adquiriu características próprias com bases na cultura africana. A origem da palavra semba, que segundo Batista Caetano e Teodoro Sampaio, se pronuncia “samba”, vem do tupi, cama ou camba, no entanto há controvérsias. Sua origem, do conguês, semba significa oração (Vetralla, Idioma do Congo, Seidel-Struff) ou do quimbundo, kusemba, orar, alega-se que durante as orações os negros precediam de danças. No dialeto sanjoanense e umbundo, a palavra semba tem o mesmo significado, orar e/ou dançar (“O Negro e o Garimpo em Minas Gerais”, Aires da Mata Machado Filho, 1985). Portanto, há de se admitir que até no nome da música, que é a alma da festa, fomos agraciados pelos africanos através de um “blues brasileiro”, um samba canção de raiz, que canta as mazelas, as feridas, as amarguras dos negros e seu banzo.

O nosso Carnaval é autêntico, um patrimônio cultural e simplesmente a mais pura prova que podemos sim dar uma trégua, “bandeira branca, amor”, às nossas divergências. Ali, homem se veste de mulher, vice-versa e não há mal algum! As crianças de vestem de super-heróis ou de algum tipo de profissional diplomado e os pais se fantasiam de personagens infantis ou bichos de pelúcia. O pobre se veste de Rei e a burguesia se fantasia de doméstica sexy com avental. Os papeis se invertem e tá tudo certo! Num curto momento somos liberados a nos despir de tabus e pudores, depois tudo é perdoado! Não há preconceito no negro se pintar de branco e vice-versa. Não há problema em beijar a amiga “sem querer querendo”, ou trair o namorado ou se sentir sozinho esperando a “banda passar cantando coisas de amor”.

É carne na carne, com carne que nos sentimos mais humanos. E é na abstinência dela, que nos sentimos mais espirituais. Buda, Pitágoras e Jesus Cristo praticavam o jejum como método (ou ritual) de desintoxicação, introspecção e meditação. Cuidar dos prazeres da vida diz respeito ao corpo, mente e alma! A moderação é bem-vinda em todos os momentos, sejam sagrados, ou profanos. Apreciem esta maravilhosa festa como na canção de Vinícius de Moraes, “Samba da Bênção” (1967):

“Fazer samba não é contar piada

E quem faz samba assim não é de nada.

O bom samba é sempre uma forma de oração.

Porque o samba nasceu lá na Bahia e se hoje ele é branco na poesia

Se hoje ele é branco na poesia

Ele é negro demais, no coração!”

Ilustra o post, o trabalho bordado da nossa senhora, querida vovó, Suzana de Abreu, “Carnaval”, 2010.

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