Breu

Anish Kaapor é um artista indiano-britânico surpreendentemente incrível e mais que um pré-cientista, ele é um engenheiro das formas, reflexos e cores ou a ausência delas. Sua impressionante obra “Descida para o Limbo” (2018) é um enorme círculo negro “pintado” ou forjado no chão, onde a escuridão é tanta que um espectador chegou a duvidar que existia um buraco naquele breu (mesmo com todas as advertências) e presumiu que não cairia (pensando ser apenas uma imagem), de uma altura de 2,5m, mas acabou caindo. Kaapor patenteou os direitos artísticos de um material conhecido como Vantablack. “O material é capaz de alocar fótons dentre nanotubos de carbono feito em laboratório, que se recuperam até que sejam absolvidos. Apenas 0,035% da luz visível é refletido em um objeto coberto com Vantablack, tornando impossível ver curvas ou contornos”. (Via Gizmodo). Sim, a Arte de Kaapor é quase um experimento científico ou ainda mais importante para a Humanidade quanto a Ciência.

O artista ou pré-cientista produziu em 2011 a obra “Leviathan“, uma extraordinária estrutura penetrável com 35m de altura e 120m de comprimento que “recria em seu interior uma atmosfera de um organismo vivo”. “Leviathan” é, literal ou visceralmente, a representação do monstro bíblico, criado por Deus, que disseminou o medo e pânico entre os homens para que ninguém ousasse enfrentá-lo. Em 1651, Thomas Hobbes (1588-1679) matemático e filósofo inglês escreveu o livro “Leviatã” relacionando a força e poder do monstro com o Absolutismo. Acreditava que para governar os homens, eles teriam de renunciar sua liberdade aos comandos do Rei. O monstro, representado na Literatura e nas Artes Plásticas como uma gigantesca serpente ou um dragão negro foi fonte de inspiração para Kaapor produzir esta estrutura com formato orgânico de cor escura por fora e completamente vermelha por dentro. A relação medonha do ser mitológico com o Estado é vivenciada nesta intrigante obra. A sensação de estar dentro das entranhas de um aterrorizante ser, seria como nos confrontarmos com nossos próprios medos e fragilidades. Seria como estarmos à mercê de nossa impotência perante a grandeza do horror, das sombras, da escuridão, da escravidão e da morte. Anish Kaapor entende bem da escuridão e estava em tempo de falar sobre sua obra, afinal estamos vivendo tempos sombrios, tempos onde negros morrem e brancos aplaudem.

A obra do artista goiano Pitágoras que ilustra o texto atualiza a sociedade e o governo vigente nesta mitologia bíblica. Ainda somos aterrorizados por monstros-políticos e mais, comandados por robôs, máquinas e informações obscuras para nos manipular o tempo todo. Outro artista que há tempos nos elucida, o músico pernambucano, Lenine produziu o álbum “Falange Animal” (2002) com o refrão da canção “Quadro Negro”:

“Quem vai pagar a conta

Quem vai lavar a cruz

O último a sair do breu

Ascende a luz”

Vamos ascender a luz uns para os outros para não cairmos nos buracos sombrios da nossa própria prepotência.

Pitágoras, 160 x 200 cm, 2015. Créditos Rodolpho Arraes e seu filhote-modelo, Joaquim.