Boi da CasaCor

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Parece até premonição, mas os artistas estão mesmo à frente do seu tempo e à espreita para nos arrancar suspiros dos pulmões!

Não bastasse o escândalo político envolvendo uma das maiores empresas frigoríferas do país, acabo de me deparar com a Casa do Boi do grandioso Leo Romano para CasaCor 2017. Num misto luxuoso de contemporaneidade, rusticidade e criatividade, o artista-arquiteto nos conduz à uma viagem histórica que incita as controvérsias dos sentimentos do ser humano como o ódio e o amor, a atração e a repulsa, o clássico e a vanguarda.

Anexado ao ambiente principal está reproduzido um confortável curralzinho, digno ao casal de bovinos, onde estarão hospedados até o final do evento. Para o deleite dos visitantes, que se restringem à Pecuária ou nunca tiveram a oportunidade de encarar um verdadeiro reprodutor de sêmens, Senhor Lavrado e Senhora Mococa são devidamente apresentados pelo veterinário de plantão. Depois de nos despedirmos dos bichinhos vamos enfim, à Casa do Boi. Antes de entrarmos somos surpreendidos por centenas de vergalhões de ferro suspensos na varanda, que balançam suas repulsivas pontas num desencanto ou desencontro tropical, fazendo as vias do que poderiam ser as gigantes palhas de palmeiras dos antigos engenhos nordestinos.

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Entramos e de imediato um contraste perfeito do curralzinho que ficou lá fora. Móveis de design assinado e, pairando nas paredes, obras em azulejos banhados a ouro com desenhos de santidades e peixes executados pelas mãos de fada da ceramista, Ieda Jardim. O tapete com estamparia exclusiva produzida e executada pelo escritório de Leo Romano traz imagens de figuras femininas nuas, como as banhistas do neoclassicista Ingres, do século XVIII. A delicadeza da nudez, as formas arredondadas dos corpos aspirando à fertilidade fizeram jus à cultura paternalista na decoração. Aos pés das Poltronas Xibô ou “chifrudas”, do designer Sérgio Rodrigues, que ostentam em sua estática estética a viril posição do macho alfa sob suas fêmeas, explicita a relação da superioridade masculina na família. Mas não é só isso, a atmosfera da Casa do Boi é uma viagem à literatura sociológica brasileira. Ela é um pedacinho das Casas-Grandes e Sobrados, do século XIX, que tinha como elemento primordial no mobiliário o clássico piano de cauda, erudito instrumento musical da cultura europeia adotado pela burguesia brasileira como mais um hábito do Mundo Antigo.

A capela também fazia parte da Casa. Ela era o canto para rezar, confessar e catequizar os possíveis hereges. Mas ali não há uma capela inteira e sim um considerável altar, com um Santo rachado ao meio. Uma visão de ruptura aos dogmas pragmáticos da Igreja Católica que só o Leo teria a ousadia de expor.

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O teto da Casa é o contraste “mor” de toda ambientação. Ele optou pelas listas pretas e brancas que tanto estão ou são em voga nas casas noturnas e ambientes modernos conceituais. Se olharmos para cima estamos em outro lugar, se olharmos para os lados nos deparamos com o brilho dourado, nos azulejos típico da cultura portuguesa, que insistem em nos lembrar das histórias bíblicas do milagre da pesca, os peixes e os santos, mas também de nunca nos esquecermos de que ainda é a figura feminina quem alinhava o tempo e o destino dos homens. Sejam elas deusas, ninfas ou mães.

Parabéns à toda equipe. Vocês sempre nos surpreendem. E viva o Boi da Casa Cor!

Crédito das imagens @leoromanoarquitetura e @ieda_jardim

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