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Boi da CasaCor

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Parece até premonição, mas os artistas estão mesmo à frente do seu tempo e à espreita para nos arrancar suspiros dos pulmões!

Não bastasse o escândalo político envolvendo uma das maiores empresas frigoríferas do país, acabo de me deparar com a Casa do Boi do grandioso Leo Romano para CasaCor 2017. Num misto luxuoso de contemporaneidade, rusticidade e criatividade, o artista-arquiteto nos conduz à uma viagem histórica que incita as controvérsias dos sentimentos do ser humano como o ódio e o amor, a atração e a repulsa, o clássico e a vanguarda.

Anexado ao ambiente principal está reproduzido um confortável curralzinho, digno ao casal de bovinos, onde estarão hospedados até o final do evento. Para o deleite dos visitantes, que se restringem à Pecuária ou nunca tiveram a oportunidade de encarar um verdadeiro reprodutor de sêmens, Senhor Lavrado e Senhora Mococa são devidamente apresentados pelo veterinário de plantão. Depois de nos despedirmos dos bichinhos vamos enfim, à Casa do Boi. Antes de entrarmos somos surpreendidos por centenas de vergalhões de ferro suspensos na varanda, que balançam suas repulsivas pontas num desencanto ou desencontro tropical, fazendo as vias do que poderiam ser as gigantes palhas de palmeiras dos antigos engenhos nordestinos.

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Entramos e de imediato um contraste perfeito do curralzinho que ficou lá fora. Móveis de design assinado e, pairando nas paredes, obras em azulejos banhados a ouro com desenhos de santidades e peixes executados pelas mãos de fada da ceramista, Ieda Jardim. O tapete com estamparia exclusiva produzida e executada pelo escritório de Leo Romano traz imagens de figuras femininas nuas, como as banhistas do neoclassicista Ingres, do século XVIII. A delicadeza da nudez, as formas arredondadas dos corpos aspirando à fertilidade fizeram jus à cultura paternalista na decoração. Aos pés das Poltronas Xibô ou “chifrudas”, do designer Sérgio Rodrigues, que ostentam em sua estática estética a viril posição do macho alfa sob suas fêmeas, explicita a relação da superioridade masculina na família. Mas não é só isso, a atmosfera da Casa do Boi é uma viagem à literatura sociológica brasileira. Ela é um pedacinho das Casas-Grandes e Sobrados, do século XIX, que tinha como elemento primordial no mobiliário o clássico piano de cauda, erudito instrumento musical da cultura europeia adotado pela burguesia brasileira como mais um hábito do Mundo Antigo.

A capela também fazia parte da Casa. Ela era o canto para rezar, confessar e catequizar os possíveis hereges. Mas ali não há uma capela inteira e sim um considerável altar, com um Santo rachado ao meio. Uma visão de ruptura aos dogmas pragmáticos da Igreja Católica que só o Leo teria a ousadia de expor.

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O teto da Casa é o contraste “mor” de toda ambientação. Ele optou pelas listas pretas e brancas que tanto estão ou são em voga nas casas noturnas e ambientes modernos conceituais. Se olharmos para cima estamos em outro lugar, se olharmos para os lados nos deparamos com o brilho dourado, nos azulejos típico da cultura portuguesa, que insistem em nos lembrar das histórias bíblicas do milagre da pesca, os peixes e os santos, mas também de nunca nos esquecermos de que ainda é a figura feminina quem alinhava o tempo e o destino dos homens. Sejam elas deusas, ninfas ou mães.

Parabéns à toda equipe. Vocês sempre nos surpreendem. E viva o Boi da Casa Cor!

Crédito das imagens @leoromanoarquitetura e @ieda_jardim

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Quem é Rogério Mesquita?

Quem é Rogério Mesquita?

Conheci Rogério Mesquita na minha adolescência, entre 97 e os anos 2000. Filho da talentosa arquiteta Fátima Mesquita, Rogério singelamente circulava na Galeria entre um vernissage e outra. Na época eu fazia bijuterias em fio de cobre e ele já fotografava top models conceituadas. Certa vez, fotografando obras de arte para um catálogo de Leilão que minha mãe organizava, viu minhas peças em cobre e sugeriu um ensaio fotográfico. Foi o primeiro ensaio artístico de acessórios que vivenciei.

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Rogério também fotografou uma amiga minha da Faculdade de Design de Moda, a Viviane Vaz, cujos ensaios abalaram o tradicionalismo da cidade. Vivi foi capa de uma revista regional num tema bem inovador para época, fora fotografada dentro de uma piscina com um peixinho palhaço! Mas a polêmica se deu com um ensaio na boate Pulse, a preferida dos tecno‘trônics de plantão. Uma das imagens virou outdoor num dos pontos mais concorridos do Jardim Goiás. Vivi estava debruçada num sofá, representada horizontalmente, de corpo inteiro, já numa posição vanguardista para época, visto que até então ninguém ousou pensar nesta possibilidade de formato em outdoors. A imagem viralizou e logo depois virou febre entre os modistas.

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Rogério também experimentou a fotografia de moda com diversos recursos, sendo percursor muitas vezes na ousadia como com jatos d’água, fumaça, vento, sobreposição de imagens, intervenções, filtros e outros. Ele sempre tinha ideais inovadoras para compor suas imagens. Lembro e tenho ainda hoje, um catálogo de roupas de uma famosa loja de Goiânia onde os modelos eram os próprios clientes. Para cada pessoa ele articulou uma pose que caracterizasse a personalidade, ou pela profissão ou pelo gosto. Uma delas foi a Camila Dechichi, naquele tempo, bem graduada na capoeira, que ele fotografou no movimento de queda de rins, algo bem inusitado pela posição de ponta cabeça, principalmente para apresentar um modelito da marca.

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Isso tudo são fatos que sei e recordo porque fizeram parte da relação que tive com o fotógrafo. Porém Rogério se mudou para o exterior, morando um tempo na Argentina e logo mais se estabelecendo em Nova Iorque, onde vive e trabalha atualmente. Hoje com mais de 14 cliques em capas de revistas de moda reconhecidíssimas internacionalmente e executando um trabalho sensacional em parceria com o artista francês Ludovic Thiriez, Rogério não se afasta nunca do que o consagrou. A fotografia de moda é seu ponto forte, mas sua irreverência o transforma mais do que um fotógrafo qualquer. Antes de tudo Rogério Mesquita é um artista contemporâneo. Está presente em acervos de importantes instituições culturais e coleções de arte. Também tem acumulado prêmios, menções honrosas e diversas exposições pelo mundo a fora.

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Para quem se interessar, algumas obras do artista estão expostas na Casa Cor 2017, como esta belíssima imagem da Série Liquid Portrait para Sala de Banho Aldeia, pelos arquitetos Adriana Mundim e Fernado Galvão!

 

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Vá lá levar um banho de arte! Para mais www.rogeriomesquita.com

 

Sobre as “coisas”

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Não sou uma conhecedora muito aprofundada das “coisas”, mas quando as conheço, as “coisas” são bem profundas em mim. Tenho certa queda e curiosidade por “elas”, quaisquer que sejam, até que me provem que não sejam tão curiosas assim. Uma delas foi a fotografia de uma cena do altar de um casamento. Ricamente adornado por flores de todos os lados, ao longo da passarela, na estrutura criada para o altar, no teto, nas paredes, com gigantescos lustres pairando no ar e o majestoso véu da noiva descendo pelos degraus, a cena se distorce e como num passe de uma mágica (ou um jogo de espelhos), tudo se multiplicava, refletindo esse sonho angelical de cabeça para baixo. O casamento de um famoso advogado, onde se estima um gasto de dois milhões de reais para a festa com mais de mil e quinhentos convidados, não ganhou a capa da revista, mas ganhou a minha atenção e curiosidade.

A luxúria e o exagero na cenografia refletida e multiplicada de pernas pro ar foi um insight para uma das leis do antigo filósofo Hermes Trismegisto, a lei da Correspondência: “o que está em cima é como o que está embaixo. O que está dentro é como o que está fora.” O que na natureza é bem comum compreendermos através das árvores, como o tamanho de suas copas para cima ser o mesmo ou proporcional de suas raízes para baixo. A imagem do altar invertida nos sugere um encontro com o além, fica subintendido uma distorção, um ato falho em toda beleza captada pela lente do fotógrafo.

Se, porém esta imagem não foi suficiente para visualizar a ideia da Lei da Correspondência recorro à imagem do fotógrafo Tuca Vieira, de 2003, que conseguiu captar a engenhosidade de um condomínio de luxo e coloca-la lado a lado com a enfermidade da favela.

Sem querer ser dramática ou fazer discurso socialista, longe de mim isso, porque sou romântica demais para essas “coisas”. Mas ninguém precisa ser um gênio para compreender que tudo tem uma causa e feito, se você destrói você tem de construir, ou vice-versa.  Tenho tido muita esperança e logo a perdido. Certamente o ser humano é um doente incurável, mas insistimos em viver com saúde. Estamos fadados a nos destruirmos se não aprendermos a nos construirmos. Quem já ouviu a trágica história dos Rapa Nui saberá do que estou falando. Mas até lá ainda estarei disposta à conhecer muitas outras “coisas”. E assim segue a vida!

Nascido em Primeiro de Maio

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“Figuras desenhadas rudemente, frases manuscritas e fórmulas científicas são misturadas sobre um fundo multicolorido, compondo uma cacofonia visual de cores e formas. As imagens primitivas e infantis refletem os vínculos de Basquiat com a arte do grafite. O quadro parece ser uma destilação do submundo de Nova Iorque, das raízes do artista evocando sua cultura multiética, do hip-hop, e refletindo a realidade veloz e caótica da vida nas ruas da cidade grande, através de uma série de imagens e fragmentos escritos desconexos.” Martins Fontes, 1999.

Esse trecho retirado de O Livro da Arte, sobre uma das obras do artista norte-americano, Jean-Michel Basquiat, bem poderia sintetizar algumas obras do artista goiano, Pitágoras. No entanto, o americano morreu aos 26 anos, em 1985 e Pitágoras completa hoje mais um ano de vida.

A curadora cubana, Dayalis Gonzales poeticamente, concluiu sobre a obra de Pitágoras como sendo um “carnaval de absurdos”, o que caiu muito bem com nossa brasilidade. Pitágoras pode ser comparado, assemelhado, referenciado com diversos artistas, desde a imaginação diabólica de Bosch, no século XIII às obras em tom dramático da arte do exímio pintor, Iberê Camargo. Mas temos todos que admitir que suas pinturas vem carregadas de características inigualáveis à quaisquer outros artistas. São braços robóticos, vespas coloridas, capacetes de astronautas, máscaras respiratórias, toda fauna de animais e claro, travestis e top models desconfiguradas.

Pitágoras não passa a mão na cabeça de ninguém. É um autodidata e vai de Rousseau à Dalida, ou Lady Gaga à Gabriel Garcia Marquez… Com ele não tem lero lero, nem vem cá que eu também quero.  Pitágoras já nasceu trabalhando, no dia 1° de Maio, nasceu com o nome de um dos maiores gênios da matemática, nasceu e ainda vive no bairro Fama. O que mais dizer desde gênio da rebeldia, da inconformidade, da imperfeição, da incongruência… Todos predicativos que um artista necessita ter ele tem de sobra. Não se atreva subestima-lo numa conversa em francês ou tentar persuadi-lo com alguma ideologia fascista, Pitágoras é fogo na roupa e é bem capaz de queimar a sua se sair alguma besteira. Ele leu, assistiu e escutou quase tudo o que você for perguntar a ele. É uma enciclopédia cultural ambulante. Eu adoro!!!

Este aqui não é nenhum texto crítico sobre seu trabalho ou sobre sua pessoa. É só uma carta de feliz aniversário mesmo. Porque ele merece. É um trabalhador. Um poeta da cidade de pedra. Um delator dos crimes da sociedade, uma vítima da crueldade do sistema, um réu da obscenidade de suas imagens, um realista cínico, um otimista iludido.

Eu adoro!

Feliz aniversário, Pite!

 

A prova viva da morte

Não há como negar que a simbologia da caveira é um xodó globalizado. Desde as civilizações antigas até a contemporaneidade sua imagem é difundida e venerada por diversos estilos, classes e gêneros.

Na música, por exemplo, ela é símbolo vitalício do rock’n roll e para os famosos motoqueiros de Harley Davidson a caveira está alada. Já na logomarca das tropas de elite ela dispensa as asas e acolhe a faca. Na cultura mexicana é motivo de festa nas celebrações ao Dia dos Mortos. Na moda, a caveira é cultivada com design e irreverência. A dama do clássico, Constanza Pascolato não tira do dedo médio seu anel de caveira. O designer de joias, Antonio Bernardo estereotipou o acessório com linhas geométricas num jogo de engenharia e arte. O estilista, Alexandre Herchcovitch ficou conhecido como o percursor da caveira nas passarelas aderindo a imagem à maquiagem dos modelos no seu desfile. Também à aderiu  em sua linha de cama, mesa e banho, em estampas de lençóis, canecas, toalhas e outros. Há alguns anos atrás, a consolidada marca de tênis All Star, se rendeu à caveira executando uma montagem com tênis brancos que remetiam à sua imagem em uma das vitrines internacionais.

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Ninguém mais audacioso que o artista americano Daimen Hirst para encrustar 8600 brilhantes numa réplica de crânio do século XIX, que continha dentes autênticos e mais um enorme brilhante de 52 quilates na testa. Talvez, o maior símbolo do capitalismo relacionado à morte. Uma sátira as riquezas deixadas nas milenares múmias, no entanto recriada para atualidade numa alusão à fragilidade da vida e à desnecessária acumulação de bens materiais para o pós-morte.

O artista húngaro Istvan Orosz repercute a imagem da caveira através de desenhos em ilusão de ótica. Suas paisagens escondem a caveira e suas disposições angulares, seja de perfil, seja de frente, seja deslocada. Ela é sempre a imagem principal dos desenhos, que representam situações cotidianas da vida, cenários comuns, pessoas e seus afazeres.

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O brasileiro Alexandre Órion, foi além. O artista paulista criou uma intervenção desenhando ou “limpando” as imagens das caveiras da fuligem dos 300 metros de comprimento do Túnel Max Feffer, em São Paulo. Órion utilizou somente panos para executar a intervenção Ossário. Foi reprimido pela polícia e depois rejeitado pelo serviço de limpeza municipal após um jato d’água que apagou a obra do artista. Órion conseguiu registrar seu trabalho definindo uma crítica ácida à sociedade, da qual se exprime a convivência da vida e da morte num contraste bem hipócrita de atitudes éticas. A transgressão do grafiteiro, a intransigência do poder político e a ignorância dos espectadores.

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Em algumas culturas, após a morte era comum a família recolher os ossos do sepulcro e colocá-la numa urna. Essa urna era suficiente para que os fêmures ficassem cruzados e por fim se alojasse o crânio.  Dessa maneira, a atitude pode ser considerada uma reverência de respeito à alma dos mortos. Essa imagem do crânio no meio de ossos cruzados ficou muito conhecida na bandeira dos piratas, o Jolly Roger que por algum erro de ortografia ou tradução incitou a apologia à barbárie e a contravenção deste grupo criminalizado. Era também através do formado do crânio que se identificava a personalidade e caráter da pessoa, principalmente depois das teorias e estudos do cientista de Cesare Lombroso.

A caveira nada mais é que nós mesmos. A aversão que temos à morte seja talvez a mesma que temos a ela. Sua imagem parece nos dizer o tempo todo o quanto somos frágeis, findos, falíveis. É um tanto frustrante admitir, mas impossível relutar. Somos mortais, ela é a prova viva disso. Portanto, olhar para uma caveira pode provocar uma série de sentidos sobre a vida e a morte. Ela pode ser simbolizada como transformação, renovação, o início de um novo ciclo, ou pode simbolizar veneno, perigo, morte.

Não podemos negar, ela é o xodó do ser humano. O lugar do corpo reservado às ideias, aos sentidos, as dores e os amores. O crânio é a abóboda celeste, segundo os alquimistas. É a ligação do homem com o céu e a terra. A parte mais alta destinada à guardar o órgão pensante do corpo. A prova viva da morte!

“Faca na caveira!!!”

 

 

Ela

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Há muito tempo atrás fiz uma tentativa para me inserir no universo acadêmico prestando prova para Mestrado em Sociologia. Acreditei, romanticamente que seria possível defender o curso de uma luta marcial como manifestação cultural que tenta se estabelecer como esporte, mas que já se tornou uma mitologia brasileira. Claro, não passei na prova e tentei a Especialização em História do Brasil, o que me proporcionou uma pesquisa muito mais profunda sobre o meu objeto de estudo. Tive alguns contratempos, pois, enfim, contanto, todavia, sou uma pessoa muito romântica. Aturei comentários em sala de aula do tipo: “o sociólogo Gilberto Freyre passou pó de arroz na história brasileira”, “a capoeira não tem nenhuma referência indígena”, “você não vai conseguir escrever esta monografia”. Hoje tenho a certeza e Seu Jorge canta por mim: “tive razão/ posso falar/ não pegou bem/ não foi legal/ que vontade de chorar, dói.” Mas eu sou forte e sei muito bem no que creio.

Historicamente, no ano de 1890 à 1937 a capoeira foi decretada crime e era severamente punido quem fosse pego praticando ou portando qualquer objeto cortante ou instrumento musical suspeito. Mais tarde, o presidente Getúlio Vargas, em 1943 reconheceu a capoeira como Ginástica Nacional. Em 2008, o então Ministro da Cultura, Gilberto Gil oficializou através do IPHAN o título de Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro. E finalmente, em 2014 a Unesco reconheceu a capoeira como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

Não é tão improvável que ela venha caminhar mais para uma vertente cultural que esportiva. Afinal suas desastrosas tentativas em ser modalidade nas Olimpíadas nunca vingarão e sabem porquê? Porque Ela é música, Ela é dança, Ela é ginga, Ela é história brasileira, Ela é cultura popular e muito mais do que isso, Ela é cooperativismo. Não se trata de um time, a capoeira se reconhece em grupos, em estilos, em ideologias. Falta só mais umas gotinhas de dendê para Ela realmente encontrar com a sua verdadeira vocação.

Panis et circenses!

Um misto de espetáculo circense com apresentações de acrobacias, teatralidade na puxada de rede (por exemplo), instrumentalização com os estilos de toques do berimbau, luta ensaiada como na cintura desprezada de Mestre Bimba, sua demonstração como dança de golpes sem combate. Um espetáculo recriado e adaptado para a contemporaneidade, porque Ela saiu das ruas deixando de ser criminalizada e subiu aos palcos, porque foi reconhecida como patrimônio cultural.  Quem soube expressar bem essa vocação da capoeira foi Mestre Jelon com a sua Companhia de Dança, Dance Brazil. O espetáculo é composto por capoeiristas e bailarinos que dançam ritmos africanos, baianos (axé), pernambucanos (frêvo), carioca (samba), dança contemporânea e movimentos de capoeira. A coreografia é acompanhada por uma orquestra de berimbaus, pandeiros, atabaques, agogôs, reco-recos e a voz característica do cantador. Os espetáculos da companhia de dança apresentados em Nova Iorque expressam essa vocação da capoeira e seu estudo para um possível Cirque Du Soleil brasileiro.

“Ela é linda, ê/ Ela é linda, ê!”

Capoeira é um substantivo feminino da língua tupi-guarani (ca’a pûera) e têm uma variedade de significados complexos. Ela combina a miscigenação africana com a indígena. A simbologia da puberdade dentro das tribos, a musicalidade relacionada aos rituais litúrgicos, a organização do espaço em formato de roda.

Essa é uma tese minha sobre os desdobramentos da capoeira. Acredito que muita gente vai torcer o nariz com essa ideia, mas eu trato a cultura como algo sagrado, ancestral, um patrimônio do saber para se manter. São dados históricos dos quais constam na cronologia da capoeira que ainda luta para se manter viva. Vivendo sob os olhares preconceituosos da sociedade e talvez, até hoje racistas. É lastimável termos que esperar que algum estrangeiro assuma uma responsabilidade que é nossa (como o que na maioria das vezes acontece), porque eles estão loucos para assumir e tomar conta dela. Vamos à luta, camaradas! A capoeira é brasileira! Bate palma pra Ela!

O olhar da alma

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O protagonista do filme cult do diretor Stanley Kubrick, Laranja Mecânica,  Alex teve e tem como ‘marca registrada’, os cílios destacados no olho direito. Há uma versão da capa do livro de Anthony Burgess, escritor inglês da obra que inspirou o filme em 1962, onde o desenho do olho do personagem é representado por uma engrenagem. Daí a ideia do olho como mecanismo de movimento, de transformação, experimentação visual que transforma a mente e por consequência as atitudes, fazendo jus às constatações da fenomenologia e ao ditado “os olhos são a janela da alma”.

Na história antiga, o mito egípcio Hórus é representado pelo olho esquerdo como um amuleto. Conta lenda que o deus Seth arrancou o olho esquerdo de Hórus que simboliza o lado abstrato, feminino, a Lua, lhe restando o olho direito, que simboliza o concreto, o masculino, o Sol. O amuleto significa a união do olho humano com a vista do falcão, animal associado ao Deus Hórus, que era usado em vida para afugentar o mau-olhado e após a morte contra o infortúnio do Além.

Outra curiosidade acerca das artes e dos olhos foi o último filme de Tim Burton (2016), o Lar das Crianças Peculiares onde os grandes vilões da história, os peculiares do mal, roubavam os olhos das crianças para se alimentarem e assim transmutarem sua forma de monstro para a forma humana. Essa característica dos antagonistas, inspirada na história e nas fotografias do livro de Ransom Riggs, um tanto bizarra e sombria, nos leva a crer que os olhos têm um quê bem ‘nutritivo’ e, sendo assim podemos os considerar um órgão ainda mais peculiar do corpo.

A animação de Travis Knight com produção da Laika, Kubo e as cordas mágicas também permeiam este tema. Kubo é um garoto prodígio que foi fruto de um amor proibido e tragicamente amaldiçoado pelo avô e sua tias gêmeas. Eles lhe roubaram o olho esquerdo, no entanto continuam a perseguição para conseguir o outro e condená-lo à escuridão numa tentativa de levá-lo à Lua para viver com eles lá pela eternidade.

Escuridão mesmo está na obra-prima do escritor português José Saramargo, Ensaio sobre a cegueira (1992), adaptado para o cinema pelo cineasta Fernando Meireles. Num misto de agonia, sofrimento, tortura e delirantes acontecimentos que protagonizam a nefasta história, um surto de cegueira numa grande metrópole afeta parte da população que é levada em quarentena para o hospício da cidade. Lá, a única pessoa que enxerga é uma mulher, esposa do médico.  Ela vê tudo, todas as atrocidades cometidas por um grupo que se instala e abusa sexualmente, além de dominar a comida, o espaço e tudo mais que lhes confortem. Ela confessa ao marido que preferiria não enxergar a ter de ser obrigada a ver tudo àquilo que um ser humano (ou desumano) é capaz de fazer.

Há rumores atualmente, não de cegueira, mas da falta de visão por grande parte da população. Talvez o excesso de contato dos olhos com eletrônicos: televisão, computador, celulares, smartphones, iphones, ipads, ibooks, caixas e cardápios eletrônicos. Essa falta de visão do mundo real, do olhar para natureza e para o próximo acaba por atrofiar o olhar verdadeiro, o olhar da alma.

Estamos passando por tempos sombrios, tempos de observações incoerentes, tempos de Hamurabi: “olho por olho, dente por dente”. Cabe a cada um de nós a autocrítica, a autoanálise e o bom senso, pois o vermelho é sempre verde ao daltônico, mas isso não significa que ele possa avançar. Que a luz do fim do túnel venha para nos iluminar e não nos cegar.

“Aprender a ler o que um olhar nos diz é alfabetizar sentimentos” Gandhi

O desenho em nankim que ilustra o texto é “Transmutação”, de Wés Gama, 2011.

Ser ou não ser sexual

Sempre tive uma admiração ‘suprema’ pela atriz Fernanda Torres, mas o que mais me conquistou em sua carreira profissional foi o dom com as letras. Comecei a ler seus escritos em artigos para o caderno Ilustrada do Jornal Folha de São Paulo e mais tarde, na Revista Piauí. Tomei de empréstimo o livro “O Fim”, que narra a trajetória de cinco senhores cariocas no final da vida. Sempre tive a sensação que Fernanda Torres tinha o dom erótico de sacar a alma humana, talvez por causa do seu monólogo em “A Casa do Budas Ditosos”, de João Ubaldo Ribeiro, ou mesmo por causa de suas hilárias atuações na série “Os Normais”. O fato é que de certa forma ela expõe com clareza o ridículo do ser sexual que somos.

No livro “O Fim” há uma passagem em que um dos personagens narra a infundada lógica de achar que a classe pobre é mais pervertida sexualmente por ser menos favorecida ou ter instintos primitivos. Nunca! Pervertida mesmo é a classe abastada, que com todas as suas possibilidades exercem requintes e métodos de engenharia sexual inimagináveis. Peraí, gente é só um livro, uma historinha. Ou não!
Inimagináveis foram algumas cenas dos filmes de “Olhos Bem Fechados” e “Cinquenta Tons de Cinza”, que me passaram pela cabeça.

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Também me recordei de um antigo filme dos anos 90, “Orquídea Selvagem”, sobre a história de uma atraente moça do interior dos EUA, que embarca para o Rio de Janeiro em pleno Carnaval e acidentalmente é espectadora de uma deliciosa cena de sexo entre um casal de negros numa construção abandonada. O ato é quase primitivo, realmente. O negro atlético rasga de súbito e agressivamente o singelo vestido da parceira, a encaixando no colo com força e prazer. Eles se debatem pelas paredes ainda rebocadas da construção e arrebentam um cano d’água, que torna a cena ainda mais atraente e sensual.

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Não é tanto o que acontece noutras cenas dos filmes antes citados, mas existe de fato um primitivismo semelhante e inerente a todos. Só que numa coisa eu tenho de concordar com o personagem do livro de Fernanda Torres, requintes e métodos engenhosos não estão lá para os bolsos da maioria, não é mesmo?

Quem ilustra o meu texto é a arte de Alejandro Zenha, que vem criando e recriando um estudo sobre as possibilidades estéticas do corpo. Entendo que sua pesquisa possa andar de mãos dadas com as idéias “eróticas” de Fernanda, afinal ainda temos um olhar sobre o nu um tanto primitivo e sexual, um tanto malicioso e pervertido. São os artistas que nos possibilitam analisar estes nossos entremeios do ser ou não ser sexual.

Asas para voar

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Tem “coisas” no Brasil que dá vontade de nem acreditar, mas tem coisas que nos fazem até acreditar e ter esperanças novamente. Foi o caso do Concurso Paranauê, da Red Bull, realizado em janeiro deste ano, na capital da Bahia. A comissão de jurados selecionou na primeira triagem 16 atletas. Entre os candidatos a se tornar o mais completo capoeirista do mundo, estavam brasileiros e radicados no exterior, um estrangeiro e a baiana Perolla, que foi a única a representar as mulheres entre quinze homens.

O principal critério do concurso foi avaliar a habilidade de adaptação dos atletas para jogar cada um dos três estilos de capoeira: Angola, Regional e Contemporânea. Para minha surpresa ou não, o vencedor foi o baiano Lucas Dias, o “Ratto”, de onde li no site da Red Bull sobre sua vitória: “quem disse que santo de casa não faz milagres?”

A Red Bull é uma empresa de energético que promove o esporte há mais de 28 anos e dá asas à pessoas e ideias. Ela possibilitou um poderoso voo à capoeira patrocinando um evento que reuniu grandes nomes e lendas desta manifestação cultural, como sendo jurados e curador do evento.

A capoeira é uma manifestação cultural nascida nas senzalas que engloba uma série de rituais e simbologias. Isso é verificado até no significado do termo capoeira, que pode ser mato, cesto, pessoa ou uma ave, o uru (odontophorus capuera spix).

Acredito que se uma instituição multinacional como essa topou dar asas à um acontecimento tão grandioso da cultura brasileira, uma empresa brasileira é capaz de fazer isso também, afim de divulgar a sua diversidade, história e importância na sociedade com demonstrações de respeito às tradições, memória patrimonial e adaptação à contemporaneidade.

Acredito que ainda há nacionalidade envolvida principalmente quando há o reconhecimento de onde foi o berço da capoeira e do nascimento da nação brasileira, que é a Bahia, desse mesmo berço onde saiu vitorioso o capoeirista, filho da terra.

Acredito que a mulher já estabeleceu alguns laços de igualdade perante a supremacia masculina brasileira e que ela é capaz de demarcar seu território na história.

São por essas e outras “coisas” que ainda topo acreditar no país da piada pronta. Porque é melhor sorrir, do que chorar. É melhor dançar, cantar, jogar e ser brasileiro, viver na terra do carnaval, do futebol, da capoeira, do clima tropical, da maior biodiversidade de aves do mundo. O Brasil precisa de asas e não de super heróis!

 

Espelho, espelho meu…

 

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Tem um trecho da música da banda O Rappa, um tanto forte, mas que fará sentido ao texto, que diz assim: “se os velhos não podem criar suas rugas, o novo já nasce velho”. Lembrei-me de uma imagem impressionante da joalheria Amsterdan Sauer, que saiu na Vogue de dezembro/2016.

A ousada propaganda de duas páginas traz na primeira delas a imagem do crânio de um boi sobre a mesa. Na segunda, uma senhora trajando figurino preto inclusive o chapéu, segura entre as mãos uma espiga com as palhas e os milhos bem tostadas ou ressecados posando distintamente com brinco e anel de ouro e pedras preciosas em formatos geométricos. A campanha da coleção TRIBES foi inspirada nos povos do mundo, desde as civilizações astecas, às tribos africanas. As obras com o tema das paisagens semiáridas do New México, da artista norte-americana, Georgia O’Keefe foram referência para um cenário simples e rústico. A personagem e o figurino foram inspirados na artista que é reconhecida como a Mãe do Modernismo Americano e morreu aos 98 anos, em 1986. Quem a interpreta nas fotos é a top model brasileira, Vera Valdez, hoje aos 80 anos. Aquela visão foi mágica! Seu semblante refletindo um olhar sóbrio e concentrado reflete uma postura vívida, serena, lúcida. A estranheza das imagens fica a nos confundir sobre os paradoxos entre o belo e o velho, a vida e a espera da morte, a simplicidade e a experiência, o exótico e o comum, as cores e a ausência delas.

Reassisti recentemente o filme Branca de Neve e o Caçador (2012), com a bela Kristen Stewart. O enredo é uma bobagem, mas a fotografia e a trilha sonora o disfarçam bem, principalmente na canção para a antagonista, “Breath of Life” da banda inglesa, Florence and The Machine.  A atuação da linda e não menos bela, Charlize Theron rouba a cena, mas infelizmente é no personagem dela que enxergamos a dispersão da juventude pela ocupação da velhice. Nela, na Rainha Ravenna, é que sentimos as incertezas da beleza, da força, do poder. Para manter se jovem e poderosa, a Rainha faz um pacto com o espelho mágico e constantemente absorve a juventude de virgens, sugando seus anos de vida e as transformando em velhas. Dessa maneira ela ganhara mais um sopro de vida, mais um ano de reinado, de poder, de juventude! Mas a que preço?

Saber envelhecer bem é uma arte. Talvez a maior e mais sábia de todas. A beleza não está só no físico, mas na alma. Saber cuidar da alma é muito mais difícil e complexo que ir ao salão de beleza, à clínica de estética ou à academia. Cuidar da alma é um encontro com bons livros, com crianças, com a arte de toda cor. É o querer dançar, cantar, desenhar, criar, rir, amar. Saber olhar as rugas no espelho a cada dia e mesmo assim não pestanejar. Saber que a memória é um bem precioso e que as inesquecíveis lembranças não envelhecem jamais. Faça suas rugas valerem à pena. A juventude passa, mas os bons momentos continuam.

“A cultura é o melhor conforto para a velhice!” Aristóteles

 

Trago imagem de minha avó comemorando sobriamente seus 90 anos de idade! Parabéns, vovó!