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Clerezia ou Hipocrisia

Em 2002 conheci Londres a convite de minha irmã e alguns amigos de Salvador que já residiam há anos em Clapham Commom. Por sorte, nossa ida em novembro coincidiu com a data da sensacional mostra BODY WORLDS do médico, professor, escultor e artista alemão Gunther Von Hagens que inventou e patentou a técnica de plasticinação do corpo. A mostra incluía esculturas de corpos humanos desmembrados expostos em posições inusitadas como um atleta de basquete encestando a bola, jogadores em uma mesa de poker, uma grávida com a barriga aberta e o feto a mostra além de um cavalo pairando no ar num quase movimento. Hagens, na época da abertura da mostra propôs fazer a autópsia pública de um cadáver em rede nacional para demonstrar como era realizada sua técnica. A proposta gerou uma interessante polêmica, visto que o conservadorismo britânico colocou suas “manguinhas de fora” e se manifestou contra o ato alegando que o autor da autópsia poderia ser indiciado criminalmente e preso durante a apresentação. O inspetor de anatomia real justificou que von Hagens não tinha a licença para realizar o procedimento assim como, também a do espaço.

“A atitude do inspetor de anatomia lembra os tempos em que apenas os clérigos tinham direito de ler a Bíblia”, alfinetou o artista. Via: BBC Brasil

O procedimento aconteceu mesmo com a “pirraça” e eu assisti ao vivo pela televisão. Foi fantástico! Von Hagens dissecou os órgãos com a facilidade de um menino que brinca com LEGOS.

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Von Hagens ao lado de uma de suas instalações

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via Pinterest

Plastinated bodies are posed to look like poker players at the "Body Worlds exhibition" in Berlin, Germany on April 27, 2011. (Sean Gallup/Getty Images)

“Body Worlds exhibition” em Berlim, Alemanha, 2011. (Sean Gallup/Getty Images)

A lembrança desse fato inesquecível se deu por causa de uma notícia recente que mexeu com as mídias sociais. O “mimimi” à respeito da mostra QueerMuseu – Cartografia da Diferença na Arte Brasileira, que contava com mais de 200 obras de mais de 80 artistas, no Centro Cultural Santander, em Porto Alegre, foi cancelada pelo MBL. Há, de fato, um grande interesse na alienação alheia por parte de uma minoria reinante. A contento de tudo que vi, ouvi e li sobre a polêmica mostra e sua repercussão através de imagens, textos e críticas infelizmente posso concluir que existe uma visão medieval, um tanto retrógrada, baseado em argumentações preconceituosas e suspeitas. Se a mostra é tão nociva aos bons costumes e às belas e recatadas do lar, porque então tanto tempo gasto, tanta pesquisa e dinheiro investidos em vão? Se fosse para gerar mimimis, momomos, mumumus a mostra foi um sucesso. Mas se não, creio que a “clerezia brasileira livre” vem estudando a finco a Bíblia e se absteve de estudar também os livros de Ciências e História da Arte.

Arte no mundo a fora

Em artigo para Revista Vogue a expert em arte contemporânea, Beta Germano faz um raio-x da Documenta de Kassel e replica os temas mais abordados pelos seletos artistas de uma das principais mostras de arte internacional, quiçá a mais importante! Este ano a mostra engloba uma relação entre Alemanha e Grécia, num audacioso projeto do curador polonês Adam Szymczyk experimentando os espaços de Kassel e Atenas.

“O resultado foi uma Documenta com muitas obras tratando de racismo, nacionalismo, capitalismo metastático e toda a violência que vem com esses três fenômenos.” Via: Casa VOGUE

Viva a liberdade

“Enquanto a QueerMuseu é cancelada no Brasil, na Grã-Bretanha a galeria Tate Britain realiza até o dia 1º de outubro uma exposição dedicada exclusivamente à arte de teor “queer” do país. Intitulada Queer British Art, a mostra celebra cinco décadas de descriminalização parcial da homossexualidade masculina na Inglaterra.” Via: Jornal NEXO

Vamos largar de pirraça, QUEERidos!

burnning, baby

Dentre tantas feiras, festivais e mostras de moda e arte, um em particular me chamou a atenção, principalmente por se tratar de um evento um tanto peculiar e outside. Também porque semana passada um fato curioso na mídia goiana me trouxe o nome deste festival à tona.

Burnning Man é denominado, desde sua primeira edição em 1986, o festival de música eletrônica, trocas, modelitos exóticos e comportamento exotérico, que reuniu semana passada 70 mil pessoas em 5 dias de festa, no deserto de Nevada, nos EUA. Tem este nome porque a festa contava com a escultura  de uma figura humana que era queimada em pleno setor da cidade e, que por causa da segurança das pessoas foi transferida para o deserto, em suas seguintes edições. A fogueira traçou um ritual de liberdade de expressão e purificação espiritual entre os participantes.  O festival é um misto de desfile de moda ao som de música eletrônica, mostra de arte contemporânea, liberdade sexual, escambos e liturgias.

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Não pense que é algo simples participar dessa luxuriosa anarquia. Você paga altos valores pela hospedagem, passagem e alimentação. Há uma espécie prévia de seleção, mas mesmo assim o festival cresce a cada ano. As fascinantes imagens do misto excêntrico do evento traz algo como um universo paralelo com trocas de saberes, um congresso sobre absurdas possibilidades de expressões corporais e culturais como a Yoga, estilos de arte, moda, música, sexo, drogas e rock. Um dos 10 Mandamentos para quem participa do evento é ir embora deixando o espaço exatamente como o encontrou antes (ou até melhor). Existe uma conectividade de pensamentos em prol de uma organização pacífica mediante tantas possibilidades de orgia.

De fato o festival chama atenção por sua engenhosidade, criatividade, saberes e possibilidades criativas. Não há uma publicidade imediatista dos artistas, estilistas ou frequentadores, mas certo exagero narcisista e a procura utópica da convivência em harmonia. A finalização do evento é quando se atira fogo às gigantescas esculturas feitas geralmente de madeira, ao lixo perecível e a toda e qualquer prova do “crime”.  It’s burnning, baby!

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A notícia da semana passada sobre uma festa rave, em uma fazenda a quilômetros da capital de Goiás é a de que um incêndio iniciado, acidentalmente, na mata seca provocou uma série de prejuízos às pessoas que lá estavam. Alguns carros pegaram fogo e houve um pânico na festa. Também aconteceu uma curiosidade no festival de Nevada, EUA. A imprensa cogita uma possível tentativa de suicídio de um homem que pode ter se jogado às chamas. A polícia norte-americana investiga rumores de que o homem estaria drogado. Contudo, num aglomerado de pessoas à “deriva”, na fervescente atmosfera criativa, lançada aos prazeres da música, da arte,  da moda e do design era possível que algo ou alguém saísse queimado, não é mesmo?!

Se valeu à pena a experiência e você só se queimou ou quer se queimar internamente, então bóra burning again, baby!

A moda imita a arte

O mês de agosto fechou em alto estilo com parcerias de grifes do mercado de joias e da moda à grandes nomes das artes plásticas brasileiras.

Uma delas foi a joalheria Talento que lançou o bracelete Labirinto inspirado na artista gaúcha Regina Silveira. A trama da joia foi minuciosamente cravejada de brilhantes no ouro branco, amarelo e negro reproduzindo um dos projetos de Silveira que vem representar um pouco a trajetória de suas obras. A artista tem sua pesquisa baseada nas distorções de perspectiva e em procedimentos fotomecânicos. Silveira é uma artista multimídia reconhecida e premiada internacionalmente e foi aluna do artista imortal Iberê Camargo com quem teve duradoura convivência. Uma de suas características mais marcantes são as projeções de gigantescas sombras ora de objetos, ora de bichos ora pessoas, intervindo no espaço arquitetônico. A artista investiga o paradoxo calculado em suas fabulosas invenções criando abismos, labirintos, escadas, sombras e distorções espaciais num jogo de luz e escala, entre o real e irreal.

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A artista Regina Silveira via @talentojoias

A outra dobradinha moda + arte foi da grife do estilista Oskar Metsavaht, da Osklen, que lançou no fim de agosto a coleção Tarsila, inspirada na artista modernista Tarsila do Amaral. Dispensando apresentações, a artista que foi ícone da Semana de Arte Moderna, em 1922 teve como tema em suas obras a brasilidade e as cores vibrantes do clima tropical do país e ganhou notoriedade por sua ousada postura feminista na sociedade daquela época. Essa ousadia foi bem representada pelas obras “Negra” e “Abaporu”, onde na primeira a ama de leite aparece com o seio sobre o braço e na segunda uma figura nua está sentada sob Sol ao lado de um majestoso mandacaru. Essas imagens que estão estampando a coleção Tarsila desfilaram na passarela, ao som tecno de batidas de tambores e repiques de berimbau, da SPFW-2017. A coleção também abrangeu acessórios como sandálias, bolsas e os brincos que reproduziam os contornos da figura de Negra e Abaporu. Do vocábulo tupi-guarani, é a junção de três palavras: abá – gente, porá – homem e ú – comer. Símbolo do antropofagismo iniciado por Oswald de Andrade, no Manifesto Antropofágico de 1918, seu significado foi canonizado pelos artistas e críticos modernistas. As obras modernistas da Semana de Arte absorveram as técnicas pictóricas europeia as expressando no tema da nossa cultura tupiniquim como no caipira, o mestiço, o caboclo.

Não é que num processo inverso a própria cultura brasileira se alimenta dela mesma?! A moda imitando a arte e vice-versa. O saldo positivo é que dentre tantas referências e inspirações algumas empresas brasileiras já se dão conta do tamanho da fatia do bolo que é a nossa cultura. Que a antropofagia seja um resgate cultural do nosso “canibalismo” por mais brasilidade. Vai acordando, Brasil!

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Auto retrato de Tarsila do Amaral e imagens do desfile via @osklen

Luto Constitucional

Acabo de constatar que a Arte Visual é Ciência. Quer dizer, é Processo Científico ou quem sabe até mesmo Mecanismo de Premonição. Explico! Para quem já sabia há 5 meses atrás, como certas empresas estrangeiras, ou ficou sabendo por esta semana sobre a grande bomba astronômica que nosso querido Presidente da República autorizou explodir na Amazônia, isso mais ou menos  já tinha sido previsto em 2006, na 27ª Bienal de Arte de São Paulo. Com o tema “Como viver juntos” a mostra extravasou nas intempéries da natureza e nos casos fortuitos da natureza humana. Drasticamente cada artista selecionado para mostra expôs seu ideal e imaginário numa contagiante onda catastrófica de previsões de uma era futura.

A excursão com a turma de Artes para visita monitora a principio estava bem animada! Éramos jovens, livres e acabávamos de nos integrar na era da informatização! Cada um com seu celular, ou laptop. Wi-fi, naquela época era só para “grã-finos”! Mas quando batemos de frente com a primeira obra, uma espécie de luto rebateu sobre a turma e seguimos adiante em total silêncio. A obra era Cânone, do artista brasileiro Marepe, que suspendeu dezenas de guarda-chuvas pretos no extenso salão do qual nos dava a sensação imediata de um ritual funerário.

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A partir dela vieram algumas “coisas” mais fortes e bem impactantes. Eram fotografias de desertos áridos e sem vida, maquetes futurísticas de construções em ilhas sintéticas banhadas pelo mar salgado infindo. Uma instalação, cuja censura era de 18 anos, abordando uma espécie de absurdos como câmaras de torturas e objetos cortantes onde éramos obrigados a ter bastante cuidado e paciência ao interagir com a obra.  O cheiro, os sons, as imagens eram demasiadamente tristes. Não se via muito otimismo nesta Bienal. Posso dizer que passei o resto da semana em profunda reflexão sobre o que somos, o que viemos fazer e quando vamos parar de nos extinguir.

Embora Avatar (2009) seja um filme norte-americano, o tema é bem anti estadunidense (olha aí eu falando de cinema novamente). A luta dos seres alienígenas pela floresta e a árvore sagrada que gera toda a energia vital é bem nacionalista. Era o momento de nos inspirarmos nesse sentido, nós e o mundo. Somos como estes seres inventados, estamos unidos pela energia vital, pela natureza, pelos animais, pelos elementos essenciais: terra, água, fogo e ar. No filme, eles matam os animais para se alimentarem e então fazem uma prece para que a natureza receba seu espírito em paz. Nós nos alimentamos e nem fazemos ideia de onde vem o que comemos. Essa energia fará parte do nosso corpo. Será que estamos virando plástico, açúcar ou isopor? O nosso Presidente da República com certeza já se transformou em matéria industrializada importada. Acorda Brasil!

 

Tell lies vision

Há tempos não acompanho noticiários, novelas, séries de Netflix ou programas sensacionalistas da TV. Há tempos mesmo! Aboli os programas de televisão há anos! Embora me sinta um pouco escrava das redes sociais, não há muito o que me impressione nas imagens, fofocas ou correntes de grupos de whatsapp. É impressionante o quanto a mentira corre rápida e a verdade é demoradamente aceita. Foi por causa de um noticiário compartilhado nas redes sociais que resolvi desabafar.

Foi publicado no dia 26/06/2017 no Jornal da GloboNews a reportagem sobre a mostra Attenzione Fragile, do aclamado artista goiano Siron Franco. As imagens da exposição realizada em Roma foram feitas pelo próprio artista e encaminhadas ao programa. A mostra, em comemoração aos seus 70 anos tem previsão de abertura na Espanha, Inglaterra e Estados Unidos, segundo a jornalista Elisabeth Pacheco. Pacheco se encarrega também de chamar a atenção das Galerias de Arte e Museus do nosso país para que acolham a “impactante” mostra. O jornalista Sérgio Aguiar apoia a “bronca” da colega e rebate: “ É o que volta e meia a gente fala, artista valorizado lá fora e aqui ainda nada definido…”

Segue link da reportagem: Attenzione Fragile

Caros, queridos, amadíssimos jornalistas da Rede Globo, ainda bem que faz tempo que eu não perco meu tempo escutando vocês. Era numa situação como essa que a verdade deveria ser dita. A valorização do artista nacional é feita pelas instituições estrangeiras porque o nosso sistema é antipatriótico. Uma população que se instrui através da televisão não tem a capacidade de discernimento e pensamento autônomo. Já está comprovado cientificamente que a propensão do ser humano ter mais doenças mentais como Alzheimer e Parkinson é maior nos que assistem mais televisão, isto é, a televisão é extremamente nociva, principalmente quando está tendenciosa a interesses individualistas.

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Via@urbannationberlin/

Certa vez li um artigo do médico Dráuzio Varela que citava os efeitos corrosivos da televisão na mente de pacientes. Mas não se preocupem há cura. O remédio mais acertado para desintoxicação televisiva se chama livro. Mas cuidado, hein. Preserve seu tempo e dedique se a uma leitura que beneficie sua vida. Comece com poesias, depois com romances, quem sabe ficção, daí sim, leia algo científico, algo sobre história ou psicologia, mas seja nacionalista. Leia escritores brasileiros também. Temos um gênio, um imortal, um grande cientista da cultura brasileira, o baiano João Ubaldo Ribeiro.

Desculpem, estou sendo tendenciosa, mas meu nacionalismo não me deixa mentir, eu amo o Brasil, amo os artistas e as instituições culturais brasileiras, não trocaria nenhuma das minhas três viagens à Inhotim por um passeio na Disneylândia. Não critico quem faria esta troca e também não critico nem culpo as instituições culturais ou o sistema de ensino brasileiro (que, aliás, até hoje não sei muito bem se ele existe). Fica daí a responsabilidade das grandes formadoras de opinião, que se estendem via satélite para o mundo (ou para eles mesmos). Acorda, Brasil!

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Via @arua_fala

A rapadura é doce, mas não é mole

“Na Europa o açúcar obtido da beterraba era um produto raríssimo e caro. Era uma especiaria vendida na maioria das vezes na farmácia e usada principalmente pelos nobres. De tão valiosa esse açúcar era deixado como herança.” (Editora Cânone)

Em 1996, estive com minha irmã, na 23ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo, no Parque Ibirapuera, que tinha como tema a desmaterialização da arte no fim do milênio.

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Uma das obras que mais me chamou atenção depois das gigantescas esculturas de Anish Kaapor, no primeiro pavilhão e as impressionantes intervenções de Sol Lewil nas paredes do último pavilhão, foi uma obra, no segundo pavilhão, de engenhosa plasticidade, cujo o nome do artista infelizmente não me recordo (quem souber, me refresque a memória, por favor!). Ele absorveu o tema com maestria e propôs uma sutil crítica à globalização.

O artista executou centenas de caixas estreitas de acrílico e as preencheu com açúcar. Na superfície de cada caixa ele coloriu o desenho da bandeira de cada país. Em cada um dos quatro lados laterais da caixa continha um orifício onde se interligavam através de pedaços de pequeninas mangueiras transparentes, “pontes” que eram como passagens de uma caixa para outra. Dentro das caixas eram periodicamente colocadas formigas que tinham como principal objetivo a desmaterialização da arte, isto é a destruição dos desenhos das bandeiras de açúcar no seu tramitar, através das “pontes”, de uma caixa para outra.

A relação desta obra de arte com os dias atuais, mais de 20 anos de distanciamento temporal é a de que o nosso foco ainda continua o mesmo. Somos uma sociedade autodestrutiva e prezamos pelo acúmulo de bens. A História do Brasil não me deixa mentir, desde a crise da cana-de-açúcar no século XVIII à atual polêmica a respeito das grandes lavouras e seus impactos ambientais. Somos fadados a compactuar com o sistema e a máquina do Estado.

Se o açúcar fosse ainda uma especiaria de luxo, o consumiríamos com mais cautela, o que não acontece quando abarrotamos o mercado com coisas que não precisamos comer ou consumir. A citação do primeiro parágrafo é parte do conteúdo do livro didático de História direcionado ao 4° ano do Ensino Fundamental. O destaque do tema da cana-de-açúcar como moeda corrente da época, assim como o é hoje, mas com mais efeitos colaterais na natureza e na nossa saúde é ainda muito pertinente.  Quem dera que os sacos de açúcar, pacotinhos de doces ou embalagens de balinhas pudessem conter aqueles avisos como os dos maços de cigarro e das propagandas de bebidas:

“O Ministério da Saúde adverte: consuma o Açúcar com moderação.”

A rapadura é doce, mas num é mole não!

Da Favela do Vidigal à Estética Militar

A jornalista e editora da Revista Bamboo, Clarissa Schneider assina curadoria da Mostra DNA Artefacto, uma estética amorosa que acontece na próxima segunda-feira dia 07/08. Com seletos nomes do design brasileiro a mostra terá parte da renda arrecadada destinada à Escola Vidigal, um projeto idealizado pelo artista e fotógrafo Vik Muniz. Clarissa postou um vídeo em seu instagram de uma das atividades promovidas pelo projeto que visa o ensino de arte e tecnologia para crianças entre 5 a 8 anos da Favela do Vidigal. A aula registrada foi de uma roda de capoeira onde as crianças aprendem a musicalidade, senso de cooperativismo, coordenação motora e história do Brasil.

Para mim foi uma surpresa assistir ao vídeo e testemunhar a elite da estética brasileira se mobilizar e direcionar holofotes à cultura popular. O idealizador Vik Muniz presenciava as acrobacias das crianças e também escutava ao vivo o som do berimbau isso tudo com uma vista privilegiada do mar. “Só faltou a máquina fotográfica para eternizar esse momento e postar no seu instagram, né Vik!?”

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Vik Muniz na entrada da Escola Vidigal observando a roda de capoeira

Link do vídeo: https://www.instagram.com/p/BXYiEP7jVmt/?taken-by=clarissaschneider

No livro de Gilberto Freyre, Ordem e Progresso, o sociólogo pernambucano faz referência ao escritor português Ramalho Ortigão que foi professor de Eça de Queiroz e personalidade distinta da classe filosófica erudita da época. Ortigão observou a decadência do Império em contrapartida no que deveria ter sido a transformação política brasileira para a República e relata em 1890, na Revista de Portugal, “O quadro social da revolução brasileira”. Num belíssimo trecho sobre as observações de Ortigão, Freyre identifica com sensibilidade as alternativas políticas acerca da estética militar:

“Semelhante organização é evidente que teria sido alcançada de modo efetivo, durante reinado tão longo como foi o de Pedro II, se, em vez de ter se extremado, como se extremou, em rei acadêmico, o chefe de Estado tivesse se apoiado sobre um exército, como o imaginado pelo escritor português: disciplinado, aguerrido e brilhante; sobretudo capaz de ser um fator considerável na educação nacional, um foco de aperfeiçoamento físico, de destreza e de força, uma escola prática de disciplina e de respeito… Inclusive, através de uma capoeiragem estilizada em exercício militar.”

Bem issae! Salve, camaradas! A capoeira salva!

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Foto de André Cypriano na Favela da Rocinha

Sobre Homens e Gorilas

Recentemente revi ao filme Nas Montanhas dos Gorilas, de 1989, com a talentosa Sigourney Weaver que interpreta a zoóloga norte-americana Dian Fossey. Fossey dedicou anos na pesquisa e convivência com os gorilas da África utilizando todos os meios possíveis para protegê-los. Sua luta se tornou uma paixão tão obsessiva que seus discursos e atitudes começarem a preocupar os caçadores e elementos corruptos do exército de Ruanda. Ela foi terrivelmente assassinada e ninguém nunca achou o autor do crime. As imagens do filme, até hoje atuais, nos levam a crer que embora os animais em extinção se diversifiquem em muitas outras lutas sociais e filantropias, a favor até mesmo da Floresta Amazônica ou o degelo dos Polos, temos muito ainda por fazer pela natureza, mas principalmente pela nossa própria sobrevivência em harmonia com ela.

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Imagem do evento promovido pela Fundação DiCaprio, em Saint Tropez, França (2017).

Certamente nossos filhos não desbravarão a Chapada dos Veadeiros como nós fizemos há 20 anos, ou numa visita à Machu Picchu, onde poderíamos divagar sobre sua paisagem sem tempo contado de estadia! O mundo mudou, nós crescemos e paramos de morrer tão cedo. E a natureza? Alguém perguntou como ela está? Os cientistas e os artistas conversam com ela, denunciam, descrevem, desenham, pintam, fotografam e tentam incessantemente conscientizar uma sociedade cega a enxergar os problemas gritantes desta relação parasita entre seres humanos e os outros seres vivos.  Somos predadores natos, carnívoros, mamíferos, mas principalmente, seres pensantes. Hoje li nas redes sociais esse lindo pensamento: “A violência não é força, mas fraqueza, nem nunca poderá ser criadora de coisa alguma, apenas destruidora.” (Benedetto Croce)

Sigourney Weaver interpretou a zoóloga com a força e convicção de sua personagem protagonista de Alien. A paixão, a garra, a raiva e o instinto animal da atmosfera da mata e a selvageria do nativo é o ponto crucial da saga ao indomável, imensurável e inacreditável comportamento humano. Existe um limite de atitude que impera entre a ética e os bons costumes. Enxergar a linha que separa o exagero, a insensatez e os maus hábitos é dever de todo cidadão. Somos homens ou ratos? Até quando vamos nos alimentar de água preta gaseificada ou restos de pseudo alimentos em latas com data de validade? Até quando financiaremos heróis estrangeiros ao invés de inventarmos os nossos ou acreditarmos em líderes culturais nacionais? Até quando procuraremos o belo ao invés de enxergarmos ele dentro de nós mesmos?

O ator norte-americano e ativista ambiental, Leonardo Di Caprio foi anfitrião no evento beneficente, na última quarta-feira (27/07) que arrecadou mais de 30 milhões de dólares para causas e incentivos em energia limpa no mundo e projetos para Fundação DiCaprio. O evento foi realizado em Saint Tropez, na França e várias celebridades brasileiras compareceram, além de um show surpresa da pop-star Madonna e a presença de sua parceira do Titanic, Kate Winslet. Se esta verba realmente for revertida para os fins propostos este evento foi louvável, altruísta e esperançoso!

Resta esperar com cautela e muita consciência a resposta da natureza quanto às nossas ações. Pois, ela é o verdadeiro Deus que a ciência também não explica. Ela, não ele! Ela quem gera, concebe e amamenta! A Mãe Natureza, Senhora de todas as coisas, Deusa da vida e da morte. A Rainha das transformações. Salve, Ela! Salve a Natureza!

Imagens dos artistas, respectivamente: desenho do mineiro Carlos Cordeiro, fotografias da carioca Cristina Oldemburg e do paulista Flavio Samelo e pinturas do goiano Pitágoras e do baiano Rubens Ianelli.

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Bertholletia excelsa

Certa vez um obstinado avô decidiu plantar uma Bertholletia excelsa, ou a famosa castanha-do-pará. O jovem sobrinho indignado perguntou, “O senhor acha que dá tempo pra ver nascer alguma castanha, vô?” O avô respondeu: “Se eu não for usufruir, outros  irão. Eu não estou plantando para mim, mas para as próximas gerações.”

Há um imediatismo em relação aos nossos resultados  que esquecemos de pensa-los à longo prazo. Como nalguns causos e histórias de pessoas que compraram lotes ou obras de arte, joias ou até mesmo qualquer artefato para um hábito de colecionismo e após algum tempo obtiveram êxito na sua valorização.

Só nos esquecemos de pensar à longo prazo quando acreditamos num conto à primeira vista. É à longo prazo que as ideias e os frutos  amadurecem e quando prontos são absolvidas pela sociedade. É assim com a Bertholletia e com os grandes artistas, que tantas vezes morrem na miséria e depois são supervalorizados pelo mercado que os menosprezou.

As ideias vanguardistas estão para um seleto grupo de pessoas que compreendem a origem das manifestações culturais e é capaz de reverberar a história delas à várias outras gerações.  Mas sem dúvida é complexo admitir que um pedaço de papel desenhado possa ser uma apólice de previdência. Você vai me dizer que talvez um agropecuário seja mais visionário e saiba investir melhor nos negócios, eu diria que para os veganos, esse ponto de vista seria bem diferente.

Pensar dentro deste seleto grupo de pessoas não está no entendimento de muitos sobrinhos. Mas com certeza existem exceções que de uma forma ou outra pensam nas próximas gerações. Resta só distinguir se este é um sentimento imediatista ou existe uma preocupação com o futuro, não só de uma geração onde impera o nepotismo, mas para o coletivo em geral, pois que uma castanheira consegue alimentar mais que uma família! Quem planta, colhe!

Obra do acervo do MASP em mostra no CCBB-DF, do artista holandês Vincent Van Gogh, que morreu na miséria.

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What if?

Depois de ver a foto do fenômeno pop star, Beyoncé com seus gêmeos no colo, posando como uma santa negra num altar repleto de flores campestres com visual sereno e cores vivas fui subitamente remetida à imagem de nossa Padroeira ou a Santa do Rosário dos Pretos ou mesmo orixá Ogum. A imagem sacralizada através dos filhos de apenas um mês, dormindo em seus braços reforçou essa significação, ainda mais envolta num manto violeta, não deixando desejar a quaisquer imagens de santas brancas representadas pela Igreja Católica e seus altares intocáveis.

 

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Há uma crença no ideal estético europeu ainda muito presente nas sociedades. Uma prova disso foi a “brincadeira” que rendeu marketing e louros ao designer/arquiteto/artista Henrique Steyer, em 2012. Mediante uma experiência num resort na República Dominicana, Steyer se deparou com uma pergunta fugaz que levanta questões polêmicas e éticas. Em parceria a Felipe Rijo eles manipularam retratos de celebridades públicas com cor de pele branca e as transformaram em negras, ele denominou a série What if? E se todos fossem negros? A resposta é o espectador quem vai dar, mas depois de observar os retratos da Rainha Elizabeth, Marlin Monroe, Ayrton Sena, Hittler, o Papa, Carmem Miranda. Assim como eu, Steyer é tiete da pop star hors concours, Madonna, em quem ele se espelha e se inspira. Madonna, que sempre polemizou, causou um frisson em 1989 com o videoclipe Like a Prayer, quando apareceu beijando os pés de um santo negro.

 

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Quem também polemizou foi o rapper brasileiro, MV Bill que pôs o dedo na ferida tupiniquim, em 2002. Ele compôs a canção Só Deus pode me julgar, com refrãos pertinentes sobre o racismo e o preconceito, como este em que ele canta uma questão tão relevante quanto à de Steyer:

“Pra quê, por quê?/ Só tem paquita loira/Aqui não tem preta como apresentadora.”

Foi por causa dos escravos que o culto a Nossa Senhora Aparecida ganhou adeptos e com o passar do tempo ela se tornou oficialmente a padroeira do país. Ela é o símbolo da base formadora da cultura brasileira e mais ainda, a étnica. A negritude da cantora estadunidense e as insistentes tentativas em sacralizar sua imagem desde o início de sua gravidez são notórias.  Diferentemente da mídia apelativa das concorrentes, Beyoncé posa como ícone canonizado da cultura contemporânea e inspira uma geração de mulheres, mães, negras ou esposas. Ela atinge o objetivo visual quando o transforma em espiritual, em familiar, em fértil, em sublime!

Pode parecer clichê e até um ato de contradição minha reverenciar uma pop star norte-americana. De fato ela ou os norte-americanos conseguiram criar um fenômeno midiático de alta produção, porém dentro de uma ideologia contagiante. Ela expira o feminismo na medida exata e reflete o consumo como um ato corriqueiro, excêntrico e sagrado.

What if wouldn’t we racist?