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Desmistificando mitos

Amós Oz (1939-2018) é (ou era até semana passada) um escritor sagrado em Israel. Pacifista e colecionador de prêmios literários internacionais, Oz teve sua vida privada exposta recentemente pela própria filha, que acaba de lançar uma autobiografia sobre as violências domésticas e abusos psicológicos que sofrera com o pai. Ora, num país tão religioso e machista como Israel, seria até corriqueiro uma filha passar por tudo isso e ninguém dar ouvidos, não fosse a contribuição histórica e cultural de um homem público como seu pai, a imprensa deu ouvidos, voz e mais algumas páginas nas mídias virtuais.

É sabido e até comum na História da Arte as disparidades comportamentais dos artistas em geral. René Rodin (1840-1917), por exemplo, foi a última gota para enlouquecer por completo sua talentosa discípula e amante, Camille Claudel (1864-1943). Quantas biografias de Jackson Pollock (1912-1956) precisaríamos ler para entender que ele era um fanfarrão e um ninfomaníaco incurável. Pablo Picasso (1881-1973) teve mais amantes que telas para pintar. Quem não sabe que o gênio do cinema mudo, Charlie Chaplin (1889-1977), o icônico Carlitos era um cineasta indomável, assim como seu colega Alfred Hitchcock (1899-1980). No romântico e tendencioso documentário sobre moda “Casablancas (1942-2013): o homem que amava as mulheres” é explícito a prepotência e petulância da top model Naomi Campbell (1970), dentre outras celebridades do ramo.

Há uma lógica nisso tudo, a resposta é que para a grandeza de toda essas genialidades há uma outra inversamente proporcional. Quanto mais talento e brilho se expande, maior a escuridão e a obscuridade que se escondem dentro dos holofotes. Biografias não autorizadas estão aí para nos dizer o que nem sempre pode ser dito. Mas é claro que eu não estou aqui para julgar ninguém. O que seria do mundo sem estes gênios geniosos? Nossas vidas são preenchidas com cultura e lazer, música, moda, design e sabor por causa deles e delas.

O escritor Ítalo Calvino (1923-1985) também entra no bolo dos geniosos. Nascido na Itália e criado em Cuba, Calvino transitou entre ideologias opostas, ora defendendo o comunismo, ora o neoliberalismo. Inspirado em sua obra “Cidades Invisíveis”, o arquiteto, artista e designer, Ricardo Masi reproduziu na técnica de corte e dobragem em papel o conto “Armila”, cujo tema aborda uma situação controversa, mas que enfim, consegue ser equalizada pelo destino!

Ignoro se Armila é dessa maneira por ser inacabada ou demolida, se por trás dela existe um feitiço ou um mero capricho. O fato é que não há paredes, nem pavimentos: não há nada que faça com que se pareça com uma cidade, exceto os encanamentos de água, que sobem verticalmente nos lugares em que deveria haver casas e ramificam-se onde deveria haver andares: uma floresta de tubos que terminam em torneiras, chuveiros, sifões, registros. A céu aberto, alvejam lavabos ou banheiras ou outras peças de mármore, como frutas tardias que permanecem penduradas nos galhos. Dirse-ia que os encanadores concluíram o seu trabalho e foram embora antes da chegada dos pedreiros; ou então as suas instalações, indestrutíveis, haviam resistido a uma catástrofe, terremoto ou corrosão de cupins. Abandonada antes ou depois de ser habitada, não se pode dizer que Armila seja deserta. A qualquer hora do dia, levantado os olhos através dos através dos encanamentos, não é raro entrever uma ou mais jovens mulheres, esbeltas, de estatura não elevada, estendidas ao sol dentro das banheiras, arqueadas debaixo dos chuveiros suspensos no vazio, fazendo abluções, ou que se enxugam, ou que se perfumam, ou que penteiam os longos cabelos diante do espelho. Ao sol, brilham os filetes de água despejados pelos chuveiros, os jatos das torneiras, os jorros, os borrifos, a espuma nas esponjas. A explicação a que cheguei é a seguinte: os cursos de água canalizados nos encanamentos de Armila ainda permanecem sob o domínio de ninfas e náiades. Habituadas a percorrer as veias subterrâneas, encontram facilidade em avançar pelo reino aquático, irromper nas fontes, descobrir novos espelhos, novos jogos, novas maneiras de desfrutar a água. Pode ser que a invasão delas tenha afastado os homens, ou pode ser que Armila tenha sido construída pelos homens como oferta para cativar a benevolência das ninfas ofendidas pela violação das águas. Seja como for, agora parecem contentes, essas moças: cantam de manhã.” 

“Armila”, participa da mostra “Sensações” realizada pelo Coletivo Tremma e Opus Incorporadora no decorado do Deck 23, na Praça 53, Setor Bueno. E a gente agradece as disparidades comportamentais dos artistas. Que continuem sempre geniosos!!!

O que é arte?

No início deste ano, a obra “Diva”: chamada de “ferida vulva” ou “vulva gigante”, da artista pernambucana Juliana Notari causou uma polêmica envolvendo várias esferas da sociedade: princípios, lutas de gêneros, “ismos”, violência, estética e dicotomias. Sua obra comprova a verdadeira bomba de realidade que pode ser divagar sobre uma obra de arte, principalmente por sua gigantesca proporção.

Sobre os leigos: “melhor nem perder tempo pensando sobre isso”! Só que não! Leia também a reportagem que elucida o tema por Beta Germano .

A Arte, para ser boa, não tem necessariamente que ser bela. Esta semana navegando compulsivamente pelo Instagram eis que assisto um vídeo de uma representação em escala real de uma vulva rasgada feita de borracha tal como é comum acontecer em partos normais por causa do pique para a saída do bebê, mas e também na violência sexual doméstica. Neste caso o protótipo em borracha serviria como aula prática para a sutura da vulva. Pois bem! As simulações de vídeo-aulas demonstram a cirurgia em 3D de forma limpa, clara e didática. Mas quando o aprendiz tem que segurar a agulha com o fio de nylon para fazer os pontos na vagina da paciente, daí é uma outra história. Ali, de verdade, jorra sangue, exala um cheiro de álcool, iodo, formol, sons e gemidos, tensão e cuidado. A Arte, o ato do fazer com as mãos, a artesania é mais ou menos assim! Penetra em nossas entranhas demonstrando a que veio, doa a quem doer.

Sabe aquele velho ditado: “se não aprende no amor, aprende pela dor”?

Pois é: “Mentira”!

A gente só aprende mesmo com a dor ( porém, nas devidas proporções que cada um consegue aguentar). Se não aguentou, não evoluiu, não se transformou, permaneceu o mesmo… É na dor, amigos! Feliz ou infelizmente: “tarda, mas não falha”! E nem venham me dizer que são felizes, não sofrem, bla bla bla. Se não sofreu, não se transformou, continuou um leigo… A dor tinha que ser quase um prazer, um masoquismo, um aprendizado às forças, como estar amarrada e chicoteada, ou mordida pelo pescoço! Mas isso até que é bom. Para ser sincera é muito bom! Senão incomodou, senão doeu, você não entendeu ou isso não é Arte, não cumpriu a missão!

Olha só o exemplo da Yoga: “se tá fácil tá errado”.

O lema dos atletas em geral : “No pain, no gain“!

Discutir o tamanho da vagina, o efeito ambiental que ela causou para ser produzida e quantos funcionários negros trabalharam para cavar 33 metros das profundezas de vida feminina é só um detalhe para a grandeza de informações e resultados que ela vai explorar no inconsciente coletivo. Esta extraordinária obra está localizada na Usina de Arte, em Zona da Mata do Sul, Pernambuco.

Então, meus querides, saibamos que a vida é feita de realidade. Um médico não costura apenas uma boneca de borracha, ele sutura músculos, entranhas, orifícios, buracos, pus, fedor, odor, tumor… Da mesma forma que temos de aceitar a dura realidade da vida, temos de aceitar que a arte simula, através do fazer artesanal, as sensações que nos instigam a pensar na dor, nas consequências de nossos atos, em como podemos nos transformar e qual será o efeito final disso tudo para nossas vidas!

Ilustra o texto aquarela da ilustradora e artista, Emília Simon, que está participando do evento “Sensações” realizado pelo Coletivo Tremma e Opus Incorporadora. Nascer mulher não é missão fácil, a vantagem é que aprendemos mais rápido a lidar com a dor, com a vulva, com o sangue, com a ferida. “O que não te mata, te fortalece”!

Sensações

O mês de fevereiro vai começar com sensações que todo bom brasileiro gosta: Carnaval, Café e Arte, tudo junto e misturado. Em parceria com o Coletivo Tremma, Incorporadora Opus e iL Caffè a mostra interativa “Sensações” une o gosto do café e design para uma experiência cultural, cheia de festa e sabor. Com trilha sonora à rigor e uma pitadinha de cores suave, pensamos um evento criativo, interativo e divertido. A curadoria de arte para a mostra coletiva “Sensações” foi pensada para dar conceito à um dos maiores prazeres e rituais praticados na nossa cultura: degustar um bom café! Selecionamos 3 artistas: Pitágoras Lopes, Emília Simon e Ricardo Masi para trabalharem em conjunto e ocuparem o espaço da Cafeteria e do apartamento decorado. A instalação artística inicia na entrada da cafeteria com um tapete especialmente produzido para o espaço (com imagens de cada artista) que dialogará com as obras dentro do apartamento e adesivos também feitos para o evento, que serão distribuídos para a interação dos espectadores.

O artista Pitágoras Lopes tem como marca registrada seus insetos multicoloridos, que representam a fase da metamorfose, o ciclo mágico do ser vivo que nasce como larva e se desenvolve como um bichinho voador. Um sabor de mudança e transformação para o novo ano que se inicia.

A artista e ilustradora Emília Simon criou a figura mitológica da sereia, o mito regionalista do folclore brasileiro, a Iara, metade mulher, metade peixe, que seduz, ama e cuida dos seres aquáticos, mas tem seus mistérios e perigos. Um sabor enigmático para um gosto de um novo café.

Ricardo Masi é arquiteto, designer e artista visual, ele trabalhou sua geometria para integrar a figuração entre os outros dois artistas contraponto as ideias do abstrato com o figurativo, uma analogia entre nossas emoções e nossa razão. Um sabor de equilíbrio que é fundamental para nossa vida!

O conceito para o Projeto “Sensações” é a interação do visitante para caminhar sobre o tapete com a estampa produzida pelos artistas e também participar através dos adesivos feitos com imagens do tema de cada artista a exprimir seu momento: transformação / enigmático/ equilíbrio para adesivar nos vidros da cafeteria, da recepção, ou mesmo levar para adesivar o carro ou em casa. A experiência tem como objetivo refletir sobre o nosso momento atual, degustar um bom café para energizar as ideias e conhecer as obras dos artistas que integrarão durante 30 dias a mostra de design do apartamento assinado pelo renomado arquiteto Leo Romano, curtindo um ambiente descontraído que terá uma cenografia divertida em homenagem ao Carnaval! Pensamos com carinho e segurança nas interações para que as pessoas se sintam à vontade e saboreiem com esperança um novo ano, uma nova forma de brincar o Carnaval em coletividade, com moderação, coerência e muita Arte.

EXPEDIENTE

Organização: Coletivo Tremma – Opus Incorporadora

Curadoria: Tatiana Potrich – Potrich Galeria

Apoio: iL Caffè _encontro e sabores

Local: Deck 23 – Praça T-53 Setor Bueno

Data: 12 de fevereiro a 12 de Março de 2021

Horário: das 9h00 as 20h00

Obra do artista Pitágoras Lopes, gentilmente cedida para participar da mostra no decorado pela querida Mariana, do iL Caffè – encontro e sabores!

São Paulo é muito chato

São Paulo é muito chato!

A Pinacoteca expõe a mega mostra da dupla dos super irmãos Gêmeos.

O Itaú Cultural expõe mostra panorâmica da carioca Beatriz Milhazes.

O Masp também expõe Milhazes e ainda coleção em bronze das bailarinas de Edgar Degas.

O CCBB expõe mostra retrospectiva do vanguardista Ivan Serpa.

O MAM expõe mostra emblemática do visionário Antônio Dias.

O Farol Santander expõe a mostra divertida da jovem contemporânea, Flávia Junqueira.

E eu aqui, vendo tudo online, tudo virtual, tudo e nada. Que chato!

São Paulo não é tão perto para ir ali e voltar!

E se São Paulo viesse até aqui?

E se todo mundo pudesse ver o que tem em São Paulo?

Oh, São Paulo, você é um santo, faz um milagre pá nois!

Como não amar a chatice intelectual de São Paulo?

O sotaque irritantemente cantado!

A eficiência de seus prestadores de serviço.

O profissionalismo expresso em café e lavoro.

São uns chatos e engomados, paulistanos ou corintianos.

Chatos! De galocha ou de salto alto!

Lá é garoa, é feiura, é a beleza da cultura.

Dos mano e das mina.

Mortadela ou pastel.

Mercado, feira.

Lá é a Torre de Babel!

Que saco, que chato!

Que saudades das chatices de São Paulo!

Ilustra o texto imagem (#tbt eu empurrando o carrinho de bebê do meu primeiro filho) na Paralela 08 “De longe e de Perto”, no Liceu de Artes e Ofícios, mostra que ofuscou a Bienal do Vazio (2008), trazendo a coletiva de 61 artistas representados por 11 galerias de arte que se empenharam numa curadoria excepcional baseada na entrevista do antropólogo francês, que viveu em São Paulo em 1930, Claude Lévi-Strauss. Destaque para obra de Rodrigo Matheus (artista que apresentou sedutores quadros feitos a partir daqueles antigos cardápios que eram pendurados nas paredes de bares. Quem lembra disso?) e carrinhos de supermercado interligados, do baiano Marepe.

Padrão de Beleza

O filme a “Invenção do Natal”, lançado pela Netflix em novembro 2020, não tem nada demais. É um filme natalino como outro qualquer, não fosse pelo pequeno detalhe de que todos os atores e atrizes são negros, com exceção do vilão, que é branco, claro! Muita produção cenográfica, efeitos especiais e figurinos estruturados, transitando entre as cores fortes, típicas de estamparia africana tendendo à um estilo kischt, quase cool! Indico apenas para quem ainda tem crianças em casa, porque filme de Natal assim é bom se for com elas! Para os adultos eu indico somente àqueles que ainda tem alguma objeção à protagonistas negros ou mestiços. Se este for o caso, indicarei também a série “Lupin”, com o inebriante ator francês, Omar Sy, um clássico da literatura britânica sobre um Ladrão de Casaca que é um verdadeiro gentleman!

A série “Bridgerton” indico para os teenagers, ou para quem pensa ser, ou ainda gostaria de ser! A atmosfera romântica é típica da “Saga Crepúsculo” ou “50 Tons de Cinza”, só que não, mas é o metódico conto da donzela apaixonada pelo galã indomável e seu título de duque. Um primoroso protagonismo mestiço, que deixou a historinha e o figurino da trama a ver navios. Digamos que René-Jean é o novo Leonardo DiCaprio, versão morena, só que não. Muito melhor! Cotado para ser o próximo 007, o britânico é pura simpatia e volúpia! Ao invés da esgrima, nosso protagonista é filmado sem camisa lutando boxe.  A série tem suas ‘interessâncias’: diálogos educados, personagens caricatos aos seus atores, discrepância entre as classes culturais expressa principalmente nos figurinos e comportamento padrão britânico, que só eles são capazes de ter! Que diplomacia! Entre dizer que você pode, ao dizer que você quer, há uma grande diferença e, na série, isso é dito como traição. Quem assistiu vai entender, mas não darei mais spoilers. O fato curioso é que a Rainha Charlotte, interpretada pela atriz britânica Golda Rosheuvel tinha realmente uma descendência negra. Segundo pesquisadores, houve um apagamento da história sobre a contribuição dos negros na casta nobre da sociedade do século XIX. A própria cor da pele da rainha pode ter sido alterada nas pinturas da época para esconder sua verdadeira origem.

Isso me fez lembrar que em alguns anos atrás uma polêmica atiçada por um certo (ou errado) deputado federal, ou pastor, ou amante (como dizem as más línguas) de um ex ator pornô, atual deputado federal também, declarou publicamente: “Africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé”. Um vídeo no Youtube, com a fala de um historiador, corrigiu o racismo e alienação religiosa do aspirante a pastor com a seguinte declaração:

“O senhor não acha que a maldição da África foram os brancos que invadiram e levaram a sua população como escravos? Que exploraram as suas riquezas naturais? A maldição da África não se deve aos europeus e aos americanos (…)? Sem a nossa invasão a África não seria um continente diferente, visto que lá surgiu o grande império mundial, que foi o Egito? A Etiópia não era a miséria que é hoje. A Etiópia era um país muito rico. A Rainha de Sabá, que levou tantas riquezas para o Reino de Salomão, também era proveniente da África. E por que é que nós insistimos em demonizar a cultura africana? Tudo que vem da África, seja comida, seja música, seja folclore. Por exemplo, a gente é capaz de ir ao cinema assistir um filme do Thor, porque o Thor é um Deus da mitologia nórdica, é loiro, tem olhos azuis, mas o Thor pedia sacrifícios humanos. Quem é que levaria seus filhos para assistir um filme de um Deus africano, tipo Xangô? Que pedia sacrifícios, não de humanos, mas de animais”!?

Que venha uma vice-presidente norte-americana, descendente de africanos. Que venha um ator para interpretar o agente secreto mais querido da coroa britânica, descendente de africanos. Que venham a simpatia e volúpia! E sejam muito bem vindos ao padrão de beleza mestiço! Ilustra o texto obra do artista Tarcísio Veloso, “Primeira Aluna” (2020) inspirado em Ruby Bridges ativista estadunidense do movimento negro, conhecida por ser a primeira criança negra a estudar em uma escola primária só para brancos em Louisiana ainda no século XX.

Universo

Deus, a energia cósmica, o Universo, The Force ou a Mãe Natureza (como queiram denominar, fiquem à vontade), está tentando nos passar um recado urgente, mas tem gente que não quer escutar. A pandemia veio, foi, voltou e anda dando o que falar. Sofremos agora o reflexo das festas de fim de ano e o desespero de viajar, sair de casa, ir pro boteco.  Mal não há, somos livres para fazer escolhas, mas prisioneiros das consequências. Deliciosamente fui adicionada à um grupo de meditação e tenho tentado me dedicar a medida do possível aos exercícios espirituais e mentais, o que não é lição fácil, porém com resultados muito prazerosos. Este trabalho de meditação foi elaborado pelo médico indiano-americano, Deepak Chopra e seus ensinamentos focam o equilíbrio entre corpo, mente e espírito. Adepto à ayurveda, Chopra une a boa alimentação, bons hábitos de pensamento e comportamento ético para uma vida (como diria Buda) no caminho do meio.

Num bate-papo com minha irmã mais velha, sobre todas essas questões de família, carma, efeitos e consequências, dinheiro, desapego e a lei do menor esforço, ela me descreveu uma teoria sobre como nossos atos podem ser matematicamente calculados em uma equação que tanto pode se anular, quanto crescer ou decrescer. Somos apenas pequeninos números neste vasto Universo, um insignificante algoritmo, que atrelado a outros, pode somar, subtrair, multiplicar ou dividir. A Matemática é uma linguagem universal, aqui no Brasil ou lá na China, em Plutão, ou na Via Láctea (se tivermos vizinhos alienígenas é com ela que iremos nos comunicar). Então todos os nossos atos e atitudes, pensamentos e intenções tem uma força numérica. Ela pode diminuir, ou aumentar. Coincidentemente assisti ao trailer do filme, “Pi”  (1998), que tem como enredo um protagonista superdotado que desvenda a lógica matemática dos números e suas repetições em intervalos de tempo.

Os cientistas descobriram recentemente que os buracos negros são portais entre o espaço e tempo. Eles conseguiram comprovar esta teoria ao observarem uma estrela que entrou no buraco negro e após um intervalo de tempo, saiu pelo mesmo lugar. Com certeza ela não saiu a mesma, como diria Heráclito “Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio”. Na minha singela opinião, a maior prioridade da meditação é aceitar o fluxo da natureza, entender nossa missão e seguir sem forçar uma resposta. Acreditar no amor, por mais difícil que seja, começando por nós mesmos, nos respeitando, respeitando nosso corpo, nossos hábitos, nosso aprimoramento intelectual, nossas habilidades corporais, nossos cinco sentidos, nossa organização mental, espiritual e material. Por incrível que pareça a Arte tem seu poder de transformação, eu só não sei bem como é essa conta matemática, mas com certeza ela abre os colchetes, as chaves, os  parênteses, aumenta os expoentes e transforma a equação em resultados impressionantes e não sou eu quem estou falando. Muitos cientistas utilizam as cores para explicar o Big Bang, outros, a música. Existem livros que tomam emprestado obras cubistas para exemplificar o movimento e as arestas escondidas dos átomos, ou artistas que são exímios cientistas, como outro conterrâneo indiano-britânico, Anish Kapoor. Kapoor tem uma fixação pela cor, pela luz e seus reflexos e foi a partir do documentário de sua tragetória artística que minha irmã entendeu a particularidade e o algoritmo que cada um é, em como nos refletimos e somos refletidos pelo Universo. Restaria à nós, simples mortais, nos perguntarmos sempre: como e o queremos refletir?

Finalizo com a imagem da aquariana, Marianna Cardoso que ilustra o texto com obra da série “Universo”. A artista pesquisa o abstracionismo, experimentando uma paleta de cores variadas e muito bem distribuídas, em acrílica sobre tela, resultando sugestivos reflexos de possíveis universos particulares!

Para quê serve um Museu?

Antes de mais nada Feliz Ano Novo para vocês, que sejamos todos bem vindos à Era de Aquário e que novos ares encham nossos corações de esperança e saúde! A virada começou bem apesar da grande maioria consciente permanecer em isolamento social. Fomos agraciados com o show high tech do famoso Dj francês, David Guetta “United at Home | Paris” tendo o cenário do Museu do Louvre como palco. Luzes, drones, música eletrônica e projeções de obras de arte tomaram conta da telinha em benefício da UNICEF, patrocinado pelo queridão da hora, o PlayStation 5. O repertório clichê do Dj não deixou abalar sua carismática carreira, mesmo porque não faltaram efeitos especiais reproduzidos nas pirâmides de vidro e a dança de luz sincronizada que contagiou o telespectador do início ao fim!

A remixagem da canção “Dreams” da banda britânica dos anos 70, Fleetwood Mac, foi a trilha sonora para a projeção da icônica obra do pintor romântico Eugène Delacroix, “A Liberdade guiando o povo” (1830). A pintura foi inspiração 50 anos depois para os franceses presentearem os norte-americanos com a Estátua da Liberdade. A letra da música traduz os ônus e os bônus da tão sonhada liberdade:

“Só há trovões quando há chuva”, mas quando chove também podem surgir arco-íris, não é mesmo!? Realmente Guetta got us, nos pegou!

Logo em seguida o Dj nos entusiasma com hits modernos e contemporâneos, numa verdadeira festa trance virtual. Já mais para metade do show quando a plateia atinge o clímax, ele pergunta “Are you feeling sexy”? e finalmente a projeção da mulher mais visitada do mundo, a “Mona Lisa” (1503), de Leonardo DaVinci, ganha espaço e ele solta o som da mixagem “Sexy Bitch” do cantor senegalês, Akon:

Se essa canção não foi feita para a enigmática Gioconda, agora só penso nela quando a escuto, fukin’ sexy bitch!

Enfim, ele prepara as pick ups para a canção “Together” da sensacional cantora australiana, Sia. A projeção é para a tela “Retrato de uma negra” (1800), cuja história é um tanto peculiar. Pintado por uma mulher, Marie Guillemine Benoist, a obra teve grande repercussão porque retratava uma negra semi nua no período pós-abolição. A ousadia não foi só por causa de um seio à mostra, mas porque ele era de uma escrava livre pintada por uma mulher branca. Mais tarde a obra foi renomeada com o verdadeiro nome da modelo “Retrato de Madeleine”.

O show termina num caleidoscópio de imagens e projeções de diversas obras do Iluminismo, Renascimento e Romantismo no prenúncio de um ano com muita luz, Arte e uma pitada de feminilidade. Que os novos ares levem a crer que há mais coisas a serem feitas nos espaços culturais que a nossa vã filosofia possa imaginar. É alimento para a alma, é poesia, é música, é arquitetura, é Arte. Obrigada, David Guetta pela super produção democrática e sensível, para todos os gostos e todas a almas e que continuemos em alimentá-las persistentemente. Fiquem bem, tenhamos fé, mas acreditemos antes de tudo nos artistas e nos cientistas ao invés dos religiosos e políticos. Acredite em 2021!

Mais sentimentos, menos sentimentalismos

O vice-presidente da República, Hamilton Mourão concedeu uma recente entrevista à um desses programas jornalísticos norte-americano sensacionalistas e até que se saiu bem. Com pertinentes afirmações diplomáticas, Morão conseguiu se esquivar de algumas alfinetadas, porém levou alguns uns tantos tropeços típicos de militante reformado. Repetidas vezes alegou que nosso país vive duas drásticas realidades, a gigantesca desigualdade social e a bipolaridade política, ou seja, extremismos que incomodam e parecem nunca conseguir entrar num acordo entre cavalheiros.

Em nosso universo cultural, isso já vem sendo explicitado antes mesmo da campanha presidencial, desde 2016, pois quando há um excessivo combate, haverá uma excessiva resistência. Não por acaso os extremismos começam através de apelos sexuais, tal quando artistas se rebelaram adotando a nudez como suporte artístico, ou disseminando ferrenhas críticas aos dogmas religiosos, como foi o absurdo caso de um transgênero ter sido eleita uma das mulheres mais sexy de 2018. Todas essas reações são advindas de políticas que acentuam rigorosos discursos falsos moralistas em relação à família do bem, recatada e do lar. O discurso artístico sempre será um discurso político, independente do partido, ou um partido independente: a licença poética. Não reconhecer à Chico Buarque, que ganhou o Prêmio Camões, em 2019 é querer polarizar ainda mais uma situação que já se encontra caótica e desmerecer nosso crédito literário internacional.

Reivindicar direitos feministas, afrodescendentes, de gênero, indígenas e blá blá blá são apenas um dos sintomas da doença coletiva que vem assolando nosso querido país. Mas o pior não está apenas nesta luta vã e de princípios duvidosos, mas na credibilidade que perdem as Instituições quando usam do mesmo discurso extremista de seus governantes. A Arte falaria por si só, mas atualmente anda falando por redes sociais e isto, pode não ser um bom sinal. O imediatismo e a falta de profundidade das ideias fazem emergir uma arte barata, supérflua e vil, assim como o sujo jogo político. Os projetos, as metas, os meios, os fins necessitam seguir um fluxo com princípios dignos e fundamentação filosófica e não religiosa.

Trabalhamos a curadoria da mostra coletiva “Primavera Brasiliana” sem qualquer pretensão tendenciosa, mas nos apoiando à nossa história, ao nosso acervo, às nossas 40 primaveras bem vividas. Em dados estatísticos demonstrarei que tudo feito com amor e princípios se chega à um resultado justo e coerente, principalmente na atual conjuntura. Dos 14 artistas selecionados para mostra coletiva, 68,4% são homens, 45,6% afrodescendentes, 22,8% mulheres e 15,2% europeus. Querendo ou não esse é o real perfil da base trabalhadora cultural da contemporaneidade. Sim, ainda somos poucas mulheres entre homens negros ou pardos, mas isto está mudando gradativamente, esperneando ou não. Enxergar as diferenças e abraçar com amor as novas ideias é querer fazer brotar a esperança num momento onde tanta informação ocupa o espaço que deveria pertencer à emoção. Então, meu amor, mais sentimentos, menos sentimentalismos, por favor!

Vote com consciência, agende sua visita e viva a Arte!

Exorcismo artístico

“Os políticos passam, a Arte fica”.

A frase é do polêmico artista chinês, Ai WeiWei. O artista que vivenciou a Revolução Cultural, viu seu pai sofrer as consequências do ativismo político contra o absolutismo chinês e, mais tarde, também sentiu na própria pele a dor de ser exilado e torturado pelo governo de seu país. Engajado nas causas sociais, ambientais e políticas, o artista chinês desembarcou sua primeira mostra individual “RAÍZ” na OCA, Parque Ibirapuera, no início do ano passado. Weiwei levanta questões pertinentes e usa sua Arte para fazer o espectador refletir sobre os conflitos sociais, o consumismo, as tradições e sinaliza como discernir o que pode ser bom do que pode ser ruim.

O poder estético de suas instalações, a agressividade e ousadia dos recursos e materiais que ele utiliza para manter este diálogo são imediatos e visualmente impactantes. Por causa da facilidade da leitura de suas obras, Ai Weiwei é reconhecido com o “Andy Wharol da China”. Suas polêmicas obras e seu comportamento ativista contra o autoritarismo chinês lhe renderam uma eterna briga e perseguição fiscal.

Ossos do ofício. Se não te incomodou, então a Arte não cumpriu seu papel principal. Bela ou não, a obra precisa passar uma mensagem, um desconforto, uma pontinha de insatisfação. Já diria o ditado “Mar calmo nunca fez bom marinheiro”. Tem que chacoalhar, dar umas afogadas, tirar o ar mesmo. Em artigo para Revista de Estudos Clássicos e Tradutórios, Sandra Minae Sato disserta sobre o artista e sua relação com a cerâmica como narradora da história. No trecho que que transcreve uma entrevista de 2010, ela cita: “Eu odeio a cerâmica… Mas eu faço. Eu acho que se você odeia demais algo, você deve fazer. Você tem de usar isso”. A que o entrevistador pergunta: “Para exorcizar?”, ele responde: “Sim.”

Exorcizar é o ato de fazer jurar e olha só que lindo, ele relatou o verdadeiro poder da Arte. Ela tem a autoridade de expulsar os maus espíritos do corpo da pessoa. Weiwei ficou famoso por se fotografar quebrando uma urna milenar, rompendo com os padrões da tradição chinesa. Num ato transgressivo, o artista aplica o que a Revolução Cultural lhe ensinou, destruir o antigo para criar o novo.

Dando continuidade às observações do artigo de Sato:

“A escolha de Ai Weiwei de “odiar a cerâmica” enquanto “a constrói” constitui uma estratégia para transcender completamente a natureza conflitante de uma categoria para criar outra, são plataformas imprevistas para o fazer e o discurso.” Gregg Moore e Richard Torchia, Doing ceramics

Fica aí a dica e a antiga ladainha, “os opostos se atraem”. Cuidado com o que você não gosta, pode ser que isso seja o que você mais precisa para se autoconhecer. Ilustra o texto cerâmicas esmaltadas por Márcia Magda carinhosamente confeccionadas para nossa empresa!

Quem planta, colhe!

O masterchef, Alex Atala certa vez contou uma experiência vivida quando fazia intercâmbio gastronômico no vilarejo de uma região ribeirinha da Amazônia. A troca entre ingredientes e as receitas administradas pelo gourmet eram fornecidas em embalagens de isopor e distribuídas aos grupos cadastrados do projeto. O fato é que após um tempo, Atala voltou à região e se surpreendeu com as embalagens de isopor espalhadas pelas ruas do vilarejo, sem qualquer reação dos habitantes para recolhe-las e/ou descarta-las corretamente. Conversando com as pessoas ele percebeu que elas não tinham nenhuma noção do que fazer, pois o isopor era um elemento inexistente na região, não se soube se era ou não para descartar, devolver, ou se a própria Natureza cuidaria de dar cabo ao produto industrializado, ninguém tomou qualquer providência à respeito. Moral da História: Alex Atala entendeu que todo processo de aprendizado e troca deve haver um começo, meio e fim com uma metodologia muito bem explicadinha. Não adianta ir lá, atender a comunidade e não explicar à ela como proceder depois.

Um antigo ditado judaico, que ainda parece vir pra puxar a orelha de muito “famosinho” por aí, diz assim: “A caridade deve ser anônima, caso contrário é vaidade”. Em tempos de eleição então, não vou nem comentar. Um artigo de alguns anos atrás da Revista Veja trazia uma reportagem sobre as contradições da filantropia. Quando ela é benéfica e quando é nociva? Bem, das cinco ou seis páginas o resumo é o seguinte: se você faz por vontade e acompanha o desenvolvimento do órgão ao qual está contribuindo e acredita estar progredindo de forma construtiva, ok! Mas há um grande grupo que faz por desencargo de consciência: “Olha, como estou doando uma fortuna aqui, posso ostentar mais um bocadinho ali”. Mas isso não é nenhuma novidade, então por que ainda vivemos este ciclo vicioso? Alex Atala que o diga! Porque dá trabalho, muito trabalho. Demanda tempo, conhecimento, desprendimento, mas principalmente amor pelo que se está fazendo.

Por isso a Arte, o artesanato e toda e qualquer atividade manufaturada sempre será uma certeira solução! São os criadores e produtores: os artesãos, os carpinteiros, os ferreiros, os sapateiros, os ourives, os costureiros, os cozinheiros, os agricultores, os artistas. Estes são os verdadeiros filantropos da sociedade. Eles contribuem para o aprendizado, a cooperação, a construção de um mundo mais autônomo, mais justo, mais humano. Mas as máquinas vão tomar o lugar deles. Será? Qual o valor de uma reprodução e de uma peça original? Ou qual a qualidade de um produto orgânico à um transgênico? Quanto vale o seu tempo, o seu desprendimento, o seu altruísmo? Vivemos em tempos distópicos e me parece que quanto mais o queridinho das redes sociais se mostra fazendo filantropia, mais o lobo mal se transveste de ovelha (sobre o post passado). Enfim, momentos para refletir e desacelerar não faltarão, resta então fazer o bem importando a quem para colhermos os resultados e, como diria um outro antigo ditado: “Ensinar a fazer a vara, para aprender a pescar o peixe, depois aprender a cozinhar e se virar sozinho”.

“A educação é cara? Experimente a ignorância”!

Ilustra o post obra da série “Emblemas” do artista paulista, Rubens Ianelli, em fios de ferro com motivos geométricos que remetem sua pesquisa entre tribos indígenas e seu engajamento na cultura africana. A obra integra a mostra “Primavera Brasiliana”. Agende sua visita!