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Coletivos Culturais

Dentre tantas diversidades e adversidades vivemos num momento precioso para avaliarmos atitudes e comportamentos que afetem a sociedade e sua projeção cultural para o futuro. Quando a Arte se manifesta com suspeita cautela e subliminar sobriedade é chegada a hora de uma reflexão coletiva. Se num dado período da história brasileira, artistas declararam guerra contra a ditadura militar e suas censuras, como o famoso Ai-5, atualmente nos deparamos com manifestações mais brandas, no entanto generalizando o comportamento nacional, seja para o bem, quanto para o mal. O filme, “Bacurau”, de Kleber Mendonça e Juliano Dornelles, por exemplo, concorreu à Palma de Ouro ontem e levou o Prêmio do Júri, numa das categorias mais importantes do cinema mundial, no Festival de Cannes, na França. Bacurau é um termo tupi, que significa “maldizente” e dá nome a um pássaro de hábitos noturnos, período que sai a caça de suas presas, de pio triste, ave agoureira,  tal como a analogia dos personagens que exploram à duras penas uma comunidade que passa despercebida no mapa do país. O suspense, terror e ficção são o mote para um roteiro tão politizado e “ao sonho febril sobre um tempo perturbado no Brasil” (Warp – plataforma sobre cultura).

Outro sintoma, mas na literatura é a entrega do maior prêmio da Língua Portuguesa, ao escritor e compositor Chico Buarque. O Prêmio Camões é atribuído a autores que contribuíram para o enriquecimento do patrimônio literário e cultural da língua portuguesa que de tanto ler, estudar e escrever, esse carioca cativo recebeu a singela quantia de 100 mil euros. Com devido merecimento e sem mais delongas.

Mais um sintoma, desta vez na Arte Contemporânea, foi a obra selecionada para 58° Bienal de Veneza, “Swinguerra”, da dupla de brasileiros Barbara Wagner e Benjamim Burca. A videoinstalação dividiu críticas e se fez ouvir e ver para o mundo, como uma das expressões culturais mais popularizadas no país. O misto de pagode, brega funk e swing é trilha sonora para um culto ao corpo, à transexualidade, à resistência afrodescendente e à cultura de gueto. Ali não tem fake news, mesmo que ainda faltem verdades sobre outras expressivas manifestações culturais, o destaque é a ginga (nome da música da cantora IZA que está remixada num dos videoclipes da obra). “Swinguerra” é um apelo ao conservadorismo retraído e enrustido de uma sociedade que vem emergindo à base de extremismos e polarizações coletivas radicais. A Arte vem e dá seu tom! Bonito, bonito não é senão não se chamaria “guerra”, né! O que se pode observar são grupos de dança, selecionados desde 2015 pela dupla de artistas, tentando se firmar com alguma autenticidade em competições que os estimulam a treinar ao menos três vezes por semana. O objetivo principal desses grupos é demarcar sua identidade social em prol da sua manifestação cultural. Daí a divisão de opiniões, se é bom ou ruim, bonito ou feio, isso não vem ao caso, mas sim a beleza “tribalista”, a resistência e adaptação desses guetos que, de uma forma ou de outra se organizam para expressar o que talvez tenham de melhor a oferecer, neste caso, a dança, a swinguera. A obra da dupla de artistas nos conta muito sobre uma nação partida, partidária. Num momento onde tantos gritos virtuais ecoam pelas redes, partimos do pressuposto que a união faz a força. Se foram selecionados para uma Bienal Internacional é porque eles realmente tem algo a nos mostrar.

Uma nação só é reconhecida internacionalmente quando valoriza suas manifestações culturais. Essas manifestações acontecem através dos guetos, grupos, comunidades, companhias, coletivos que se organizam para dizer a que vieram. Ora, se eles estão em guerra ou não, pelo menos já escolherem sua arma, a Arte. Com a Arte, meus amigos só se ganha em longo prazo, mas vale a espera! A gente valoriza os coletivos e incentivamos esta comunhão em nossa própria casa. Todos são convidados para o GARiMPO-COLECiONiSMO, que acontece com o café da manhã, no próximo final de semana. Uma mostra coletiva de arte, design e moda com programação cultural de bate-papos, oficina de arte e obras à preços acessíveis. Aqui não tem guerra, não, tem Arte para dar e vender! Aguardamos sua visita!

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Making off do GARiMPO-COLECiONiSMO. Créditos Alejandro Zenha

Deus

Meu Deus, tanto assunto acumulado para dissertar! Um domingo de folga que deu muito pano pra manga sobre babados, plissados, plumas e paetês. O tema “Camp” do MetGala, por exemplo, roubou a cena de muito evento do circuito da Arte Contemporânea. Quem quer lá saber quem é a swingueira pernambucana, de peito siliconizado, com cara da Beyoncé, em videoclipe selecionado para Bienal de Veneza, quando se tem uma mega performance de Lady Gaga acontecendo no red carpet? Quem vai querer saber da majestosa mostra baiana, no Museu Afro, de São Paulo, ou da retrospectiva de Adriana Varejão no MAM, de Salvador, quando está programado o Festival de Cannes, a última temporada de Games of Thrones ou a passeata em prol do Ensino Público nas ruas? Quem iria se perguntar, que há exatamente um ano atrás, se iniciara uma turnê internacional, após 75 anos escondidas, os gigantescos painéis da sueca Hilma af Klint, que primeiro pousaram em terras brasileiras, na Pinacoteca de São Paulo, para depois desembarcarem no Museu Guggenheim, de Nova Iorque? Quem se importaria em questionar por que insistem em filmar biografias tupiniquins de mitos, ou fake mitos, como políticos, religiosos ou duplas sertanejas, quando se poderia financiar séries de verdadeiros heróis ou heroínas nacionais como Machado de Assis (escritor), Carmem Miranda (dançarina e cantora), Lygia Clark (artista plástica), Ayrton Sena (esportista) e a lista vai… Alguém saberia me dizer por que estamos tão interessados na beleza externa e nos esquecemos da interna?

Olha, esse texto tá ficando um pouco chato, mas sinceramente o mundo anda mesmo muito chato! Tudo tem de virar uma lista de afazeres para alcançar imediatamente a felicidade:

“Vamos ler um livro de auto-ajuda”, “Vamos colocar um botox aqui, mas é só para correção”, “Vamos para Disney, mas é pelas crianças, claro”, “Vamos comprar um Romero Brito, ele é incrível”, “Vamos nos alienar e ficar cada vez mais vazios, assim alcançaremos mais rápido a felicidade”.

Feliz daquele que se satisfaz com pouco e com o melhor. Feliz daquele que cita o nome do autor que leu sem querer levar os créditos daquilo que escreveu. Feliz daquele que posta a imagem e declara sua fonte, o fotógrafo ou o modelo. A história de Narciso nunca foi tão atual! Estamos nos afogando em nosso próprio reflexo. Estamos adoecendo e os remédios não fazem mais efeito. Os médicos indicam a yoga, meditação, gnose, oração… Deus!

Parece piegas, mas é uma questão milenar. Só o dia em que alguém decifrar os vedas, ou as escrituras de Leonardo Da Vinci, ou o surrealismo enigmático de Miró, ou geometria orgânica de Hilma, ou as mensagens dos bordados de Bispo do Rosário, ou até as constelações de Antônio Dias, poderíamos saber ao certo como foi criado o Universo, mas enquanto isso fica sendo o Todo Poderoso mesmo.

No livro “Paintings for the Future” (Pintura para Futuro) há uma interessante passagem (dentre várias), da escritora, Anna Maria Svensson, que observa a importância dos experimentos pictóricos de Hilma af Klint e a relevância em disseminar seu trabalho para o mundo, no intuito de esclarecer a humanidade sobre suas ideologias: “(…) Though they travel through much dirt they were yet retain their purity“: (Apesar de se deslocarem bastante na sujeira, ainda sim preservam sua pureza).

Isto é, em verdade, o ser humano só conseguirá alcançar a felicidade (ou a espiritualidade), quando se aprofundar em sua própria sujeira, em sua mais profunda escória. É triste, mas cest la vie. Esse é o único caminho para a felicidade, a busca do auto-conhecimento. “Conheça-te, a ti mesmo”, repetia Sócrates aos seus discípulos e o quão atual ainda ecoa a voz de suas sábias palavras. Quais são nossas sombras, nossos odores(fedores), nossa escuridão? Só descendo até lá poderemos ascender a luz e aceitarmos nosso breu, desse jeito que somos, sem máscaras, rímel, silicone, hormônio ou remédios. Deixemos que os artistas registrem nossos tempos, nossos medos, nossas falhas, nossas taras e que possamos consumi-los com sabedoria e dignidade, porque é através da Arte que conseguimos chegar o mais próximo de Deus, ou de nós mesmos!

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Fotografia do goiano, Rogério Mesquita

Tudo sobre minha mãe

Pensei um tantão antes de escrever sobre minha mãe, creio ser uma grande responsabilidade para alguém com um olhar tão parcial como o meu, mas vamos lá:

A primeira imagem dela que me vem à cabeça é sua beleza física. Sempre constatei em nossos registros fotográficos ela se escondendo de alguma forma, ou com as mãos no rosto, ou num balancear do cabelo e do corpo o que causaria um embaço na foto, ou ainda com seus inseparáveis óculos escuros. Ela leva à sério mesmo a crença de que “a fotografia captura a alma das pessoas”. Seu sorriso, seu olhar expressivo avivado por suas delineadas sobrancelhas, seu nariz afinado, sua vasta cabeleira, sua altura, sua cintura, seus gestos simples e femininos. A bela que insiste em se esconder por trás de bem feitas mãos e compridas unhas. Não fosse só por esta suposta modéstia, ela teve a virtude de ser uma pré-adolescente com um pseudo défit de atenção, o que a fez se destacar na criatividade e empreendedorismo entre suas colegas de Lyceu. Também foi uma filha “tinhosa” no seio familiar, dado seu tempestuoso inconformismo construtivo, o que culminaria mais tarde, em particular, o gosto pela construção civil. Teve uma infância enriquecida de conhecimentos culturais e relações férteis, desde ser vizinha do então Governador Otávio Lage até ser apresentada formalmente e ainda jovem à Frei Confaloni.

Mamãe se casou com o gaúcho Amilto Potrich, na Catedral goiana, onde fora oficializado simultaneamente e comemorado com grande estilo, no Hotel Umuarama, as bodas de prata de seus pais. Concebeu duas filhas Ludmila e Tatiana, nomes de personagens do livro do escritor Fiódor Dostoiévski (1821-1881) um russo idealista que transformou culturalmente toda uma geração. Após a maternidade, mamãe decide enfim sua carreira profissional. Por instinto, destino ou talento ela investe nas Artes Plásticas da década de 80, onde a renovação da pintura ganhara força com o pós-ditadura e as Diretas Já. A partir daí se inicia uma jornada inédita. Ela provê e promove a arte nos quatro cantos do país. Representa artistas goianos num patamar nacional inaugurando sua Galeria com a mostra individual de Roosevelt, o Roos e incluindo no acervo obras de um artista já com destaque significativo no circuito, Siron Franco.

Mamãe nos deu o privilégio de conhecer ainda muito cedo a Bienal Internacional de São Paulo, em 1985. Uma das mais marcantes experiências que pudemos presenciar foi a obra do artista Alex Vallauri, “A Rainha do Frango Assado”, um misto de grafite, instalação e interatividade. Ainda em terna idade fomos desvendar a história do país, em Brasília visitando os restos mortais de Juscelino Kubitschek, as engenhosas esculturas de Bruno Giorgi, os painéis de João Câmara, “A Justiça” de Alfredo Ceschiatti e o conjunto arquitetônico de Oscar Niemeyer. Mamãe nos apresentou o significado de patrimônio e nos ensinou a respeitá-lo, mas principalmente a valorizá-lo. Foi através de seu ofício como galerista que o Estado de Minas Gerais entrou para sempre em nossas vidas. Ganhei uma segunda mãe, sua amiga, confidente e colega de profissão, a renomada galerista de Belo Horizonte, Leila Pace. Uma guia pelas serras mineiras e suas preciosidades culturais. Através dos tortuosos caminhos de Minas atravessamos serras e encontramos recanto caloroso em Ouro Preto, no casarão de artistas da Família Bracher; nos deparamos com a modernidade do atelier de Amílcar de Castro, em Nova Lima; nos aprofundamos na profundeza das minas de ouro, em Mariana; no charme de Tiradentes; na luz de Diamantina; nas esculturas sacras de Aleijadinho, em Congonhas e no instituto de arte contemporânea de Inhotim, em Brumadinho.

Ao sul, em Campo Grande fortalecemos os laços entre família-trabalho com sua cunhada e minha tia, a galerista Mara Dolzan. Retornamos à Sampa inúmeras vezes para desbravar suas garoas e as artimanhas do mercado de arte com outra galerista, a paulistana Regina Boni. No litoral brasileiro, nos afeiçoamos pela audaciosa produção pernambucana esculpida pelas mãos e administração da tradicional Família Brennand.

Mais um privilégio que pudemos vivenciar através de suas nobres relações, do trabalho e não do axé, afoxé e carnaval, foi conhecer a primeira capital do Brasil, Salvador, a ‘mainha’ dos Filhos de Gandhi. Lá ela realizou negócios com grandes galeristas baianos, Roberto Alban e Paulo Darzé em meio à beira mar, com todo aquele cheiro de peixe, que ela nunca degustou, mas tolerou seu odor por causa da graça, “do jeito e do defeito” (Gilberto Gil), que só a baianidade pode ter.

Hoje mamãe tem um refúgio certo, para divagar, no sul da Bahia. Pode até parecer contrastante a Marina não gostar de comer frutos do mar, mas é lá, no mar, onde ela quer estar. Num lugar que se sinta brasileira, humana, mãe e avó. Ali, ela aprendeu e me mostrou como ser livre, ter amor próprio e amar a Natureza! Obrigada, mainha! Obrigada, Marina! Te amo! Saravá!

P.S.: O título é referência do filme, que se tornou um cult, do diretor espanhol, Pedro Almodóvar. Um filme sobre mães, seus prazeres e suas dores!

Um texto de domingo antecipado ao Dia das Mães para homenagear as mães presentes, aquelas que já se foram, aquelas que ficaram, mas se foram os seus filhos e aquelas que ainda se tornarão Mães! Excepcionalmente, não escreverei no próximo domingo, afinal sou mãe mereço uma folga (também sou filha de Deus, né)! Feliz Dia das Mães!!!

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Retrato de Marina Potrich pelo artista goiano, Roos, em 1980

Supérfluo

Um expressivo filósofo francês do século XVIII, Voltaire se destacou com pensamentos iluministas, um deles que diz assim: “O supérfluo é uma coisa extremamente necessária”. Um século depois o poeta inglês, Oscar Wilde o confirmaria: “Deem-me o supérfluo, pois o necessário qualquer um pode ter”. O psicanalista pernambucano, Jurandir Freire Costa estuda sobre o supérfluo antes e depois do Iluminismo levando em conta as mudanças comportamentais dadas transformações de sistemas econômicos, desdobramentos éticos e religiosos. A partir de estudos baseados em teorias do sociólogo americano, Colin Campbell, o psicanalista analisa uma mudança crucial na sociedade, a postura do ‘comprador’ para a do ‘consumidor’. O ‘comprador’ ou ‘compradora’ teriam como princípios reforçar o apreço pelas crianças, a intimidade do casal, o aconchego do lar, o vínculo entre gerações e prolongar a memória da família. Jurandir ressalta: “O supérfluo tinha uma função cultural completamente diversa do supérfluo de hoje”. Hoje, nem tantos são ‘compradores’, mas ‘consumidores’. O pernambucano prossegue: “A própria indústria torna os objetos obsoletos. O consumo de bens e sexo tornou-se um imperativo para que possamos ser felizes e reconhecidos pelo outro. O fetiche pelo dinheiro, no sentido de Marx e o fetiche pelo sexo, no sentido de Freud”.

Mas por que não conseguimos consumir o supérfluo como alguns sensatos compradores? A mídia, a religião, a política, o capitalismo, a moda, o imediatismo… Daria para citar páginas inteiras de motivos que nos distanciam do verdadeiro sentido do supérfluo necessário. Ora, se nas redes sociais nos deparamos com milhões de perfis que nos oferecem o mesmo produto, o mesmo prazer e a mesma viagem. Como nos sentirmos diferenciado diante de tantas opções iguais? Se o necessário é para todos, nos tornamos diferentes quando achamos o supérfluo que se encaixa em nossa personalidade. A Arte é um supérfluo necessário por causa disso. Você pode ter uma cadeira para sentar, uma cama para dormir, uma mesa para trabalhar, comer e estudar. São objetos necessários. Eles são úteis. A Arte não é! Recordem se do artigo passado: “A Arte é inútil”. É ela quem almeja os princípios ‘daquele comprador’ (reforçar o pareço pelas crianças, a intimidade do casal, o aconchego do lar, o vínculo entre gerações e prolongar a memória da família).

A escolha da Arte para si é o supérfluo necessário para nos sentirmos únicos, diferentes e especiais. A História da Arte comprova isso em números. A maior cifra já cadastrada de uma obra de arte foi de 450 milhões de libras (“Salvator Mundi“, Leonardo da Vinci). Você já encontrou algum artefato que chegou a este valor? Ano passado, um milhão de dólares foram pagos por uma obra de arte contemporânea, que ao ser arrematada foi triturada imediatamente num happening transgressor realizado pelo artista (“Girl with Balloon“, Bansky). Quem encrustaria mais de 8 mil brilhantes numa caveira que não fosse para ser usada como joia e conseguiria vende-la por 75 milhões de euros (“For the Love of God“, Damien Hirst)? Ou ainda, comprado pelo MoMa, NY a obra da brasileira, Tarsila do Amaral, “A Lua” por 74 milhões de reais. A Arte consegue ser tão surpreendente quanto supérflua para perdurar ao longo da História da Humanidade, não acham!?

Se você for levado a consumir por impulso pelos links de venda online (Polishop, Mecado Livre, iBooking, iFood, Rappi, etc) seja um consumidor consciente. Observe, reflita e perceba que o supérfluo é tão importante quanto o necessário quando atinge princípios que aprimorem o nosso ser, os nossos sentidos, nossos sentimentos! Se deixar levar pelo capricho, fetiche ou prazer pode custar caro. Investir na saúde mental avaliando os estudos e pesquisas de sensatos pensadores e artistas ainda é o melhor gasto de tempo e dinheiro. Pensemos, reflitamos e compremos com consciência! Acreditemos na Arte!

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Poltrona Beto, por Sérgio Rodrigues, acrílico s/ tela, por Pitágoras e escultura em ferro, por Franz Weissmann.

Fotografia: Alejandro Zenha

PAZcoa

Às esperas da Páscoa fomos presenteados com o incêndio na Catedral Notre Dame, mas não digo isso com sarcasmo, o presente em si (com primeiras, segundas e terceiras intenções) foi o de sermos surpreendidos com as doações milionárias de bilionários da high society.  Que bonitinho! Jesus Cristo ficaria orgulho com a atitude desses seres tão desapegados, não é mesmo? Mas a verdade verdadeira é que toda atitude está carregada de boas e más intenções. Observamos essa ambiguidade na própria natureza, como nas árvores, pois através de seus galhos crescem rumo à luz do Sol e suas raízes descem rumo à escuridão do subsolo.

O próprio coelhinho tem um ambíguo simbolismo na sociedade. Na Páscoa, ele simboliza a chegada da Primavera, no Hemisfério Norte onde teve sua origem romântica, quando as primeiras flores desabrocham e eles saem de suas tocas para procriarem. Ícone da sexagenária Revista Playboy, que tinha como conteúdo o registro erótico de celebridades femininas, o coelhinho foi promovido à coelhinha sexy! Que contrastante o simbolismo desse bichinho, né!

Se observarmos cuidadosamente e nos atentarmos aos detalhes constataremos, que tudo tem um vínculo de ambiguidade e, por incrível que pareça, observar bem estes detalhes podem fazer a diferença em nossas opiniões, decisões e julgamentos.

A Arte tem o poder de subliminar perspectivas importantes que exercitam e desafiam nossa sensibilidade e senso crítico. O cinema, em minha opinião é a expressão máxima e mais completa da Arte. Ele é uma expressão viva, em movimento que inclui todas as Artes: literatura, arquitetura, música, dança, pintura, performance, moda, design… Tudinho!!! Num mesmo filme podem estar contido todas as manifestações artísticas. “Star Wars”, por exemplo, consegue essa proeza, mesmo não sendo mais aquele Rei da Bilheteria, a saga nunca perderá sua majestade. Principalmente pela atualidade do roteiro elegendo como protagonista uma mulher no papel de jedi, a Rey. Foram 40 anos de vida para que eu pudesse “viver para ver” este feito no cinema. O antagonista é o jedi Ben, filho da Princesa Léia com o contrabandista, Hans Solo. Observe as ambiguidades presentes nos detalhes do enredo. A princesa e o ladrão, a República e o Império, Rey e Ben. O desfecho dessa história é bem diferente dos contos de fada. Ele é dramático e realista, mas nada que a tragédia grega e Freud já não tenham dissertado por aí, o filho mata o pai contrabandista. De fato, nossa heroína, Rey terá um inimigo à sua altura, porque eles têm uma coisa em comum, ela também carrega ressentimentos familiares. Ambos sofrem por dores íntimas e inconscientes, mas há de se fazer uma escolha no modo como lidar com estes sentimentos. O que nos resta é esperar para assistir o final desta trama!

A Páscoa é uma data para repensarmos atitudes e ressentimentos. A Semana Santa vem para celebrar a esperança, o renascimento e a ressurreição de ideias e relações. Se o ser humano é capaz de arrecadar milhões para reconstrução de um Patrimônio Mundial da Humanidade pense no que ele seria capaz para querer a Paz!

“May the force be with you”! Que a paz esteja com você! Que a Páscoa esteja conosco!

Ilustra o post a imagem primaveril da Mata Atlântica, na fotografia impressa em papel Canson, pela Carioca Cristina Oldenburg (2014).

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Cristina Oldenburg, fotografia sobre Canson, 2015.

Animus*

Num desabafo sincero, o rapazola replica à namorada: “Vocês, mulheres colocam uma minissaia e saem por aí, como umas Diabas!” A afirmativa me tocou seriamente e uma questão me veio à tona: “E vocês, homens?” Não é preciso colocar uma minissaia para que fiquem tão endiabrados quanto nós, não é mesmo?

Veja bem, meu bem, um arquétipo masculino que simboliza a sedução é o personagem viril de Don Juan DeMarco (1630), um conto do folclore espanhol, que se transformou no estereótipo do macho fatale, afinal quem resistiria a um Diabo desses? Nem precisaríamos ir tão longe, pois encontramos em nossa própria literatura alguns animus que representem toda essa ‘caliência’ tropical, como o bravo e selvagem: “O Guarani” (1857), de José de Alencar, o cínico e sedutor: “Primo Basílio” (1879), de Eça de Queiroz, o bem dotado de inteligência e atributos físicos: “O Mulato” (1881), de Aluízio Azevedo, o doce e safado: Vadinho (1966), de Jorge Amado, na figura negra: “Orfeu”, em duas versões para o cinema nacional (a primeira com Breno Mello, em 1959 e a segunda com Tony Garrido, em 1999), o corajoso e destemido: Capitão Nascimento, em “Tropa de Elite” (2008), os lendários capoeiristas, mandigueiros e heroicos: “Madame Satã” (2002) e “Besouro” (2009), o caminhoneiro: “Arlindo Orlando”, citado na locução do impagável cantor, ator e humorista: Evandro Mesquita, da banda “Blitz”, a versão John Bon Jovi no carismático brasileiro: Paulo Ricardo, do RPM, nossos belos campeões internacionais: Ayrton Senna, Zico, Guga e o Xuxa, os eternos garotos de Ipanema: Tom Jobim e Chico Buarque, ou os mais contemporâneos: Marcelo Falcão, Charlie Brown, Dinho Ouro Preto e Frejat, ou ainda para abranger todos os gostos, os cafonas, porém simpáticos: Luan Santana e Gustavo Limma, assim como os das cores do pecado, o pequeno: Alexandre Pires e seu xará, o monumental: Xanddy. Meus caros e minhas caras não é a minissaia é o “olhar 43”, é o cochicho ao pé do ouvido, é o toque carinhoso, o cheirinho no cangote, o beijo áspero da barba por fazer, o tico-tico no fubá, o ruído da cuíca!

Na História da Arte observamos casos isolados de representações de animus em relação à proporção de animas, as invencíveis musas inspiradoras. No entanto, muito bem expressados através de milenares esculturas greco-romanas (VIII a.C e V), masculinos corpos nus ou delineados pela fricção de seus músculos simbolizaram a plenitude de divindades e mitos como Odisseu ou Ulisses, de Homero ou o semi-deus, Hércules, num período politeísta que priorizava profundamente a estética do belo. A luz sob essa estética viria iluminar séculos depois as investigações do magistral, Leonardo Da Vinci, que se encarregou de demonstrar cientificamente o animus que vive dentro de cada mulher, o “Homem Vitruviano” (1490), com suas medidas devidamente proporcionais. Ao longo da História da Humanidade há casos raríssimos ou pouco divulgados de manifestações artísticas de mulheres que expressassem seus animus. Corajosas como Anäis Nin (1903-1977) e Simone de Beauvoir (1908-1986) tomaram as rédeas de seus sentimentos e os manifestaram literalmente dando voz e vez às mulheres de seu tempo.

Os registros de índios e negros, por Albert Eckhout, no século XVII e por Debret e Rugendas, no século XIX, a sensualidade quase infantil ou demasiadamente carnal dos corpos masculinos de Vicente do Rego Monteiro (1899-1970), os lábios carnudos do “Mestiço”, de Candido Portinari (1903-1962), os corpos retorcidos e cheios de sadismo, de João Câmara (PE -1944), a repulsa ou atração pelos corpos afro-brasileiros fotografados por Mario Cravo Neto (1947-2009) ou até os mais recentes registros pelas lentes de André Cypriano (SP-1964) são provas de que o animus se manifesta discretamente nas Artes Plásticas Brasileira, seja através de um caboclo-civilizado arcando uma flecha, seja no “moreno, alto, bonito e sensual” jogando capoeira, ou quem sabe até um pálido retrato, andrógeno ou ‘trans’, com as mãos na cintura nos encarando olho no olho sob um fundo azul.

Sim, são corpos masculinos, corpos nus ou quase nus, expressados por artistas e idealizados por nós, mulheres! Não é só a minissaia que consegue infernizar, meus caros. Vocês também conseguem nos infernizar, sejam vestidos ou nus! Haja ânimo para tanta tentação!

Animus* (e Animas): na Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung (1875-1961) são aspectos à persona ou aspecto inconsciente de Personalidade.

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Pitágoras, acrílico s/ tela, 130 x 160 cm, 2018.

Tempo

O mês de Abril este ano faz jus ao nome. Abril abriu com mostras do circuito “Histórias das mulheres, Histórias feministas” das gigantes da arte e da arquitetura brasileira: Tarsila do Amaral e Lina Bo Bardi, no MASP, a Feira de Arte Internacional: a SP-Arte, no Pavilhão da Bienal, no Ibirapuera, o itinerante Festival Lollapalooza, também em Sampa e o Salão de Móvel de Milão, na Itália, só pra citar o que abriu o mês e termina nesta semana. Mas nunca termina! Tem sempre um outro evento, atividade e muita, muita informação, o tempo todo! Todo tempo!

Somos bombardeados com imagens, fake news, fakebooks, fetiches e fantasias 24 horas por dia, não tem como relaxar. Só desligando o celular, ou o computador, ou a televisão. Foi sob esta angústia temporal que indaguei minha amada vovozinha, no seu aniversário de 93 anos, em Junho do ano passado, data de nosso último encontro, em Campo Grande, MS, quando seu falecimento se daria dois meses depois. Sou eternamente grata pela oportunidade de ter me despedido da querida nonna Potrich e ter sentido pela última vez o calor de seu abraço! Por sorte ou destino ela me tirou ou terminou de colocar um peso em minha consciência, afinal por que viemos ao mundo, qual o sentido de tudo isso? Vovó nunca foi de muitos estudos, seu aprendizado foi com a vida, com o trabalho doméstico, as delícias de dançar, as tristezas do coração, as dores e as belezas em ser mulher.  Uma pequena grande sábia, pois sua maior virtude sempre foi a Mãe de todas: a Paciência. Ela me olhou docemente, apertou minha mão e disse: “Sabe, Tatiana, no meu tempo não tinha tanto que querer ou fazer, a mulher tinha de cuidar da casa, dos filhos, do marido e já era muita ‘coisa’. A gente era feliz assim, com a alegria em família, a saúde dos filhos, a vida com simplicidade. Tudo é muito diferente hoje. As mulheres trabalham como empresárias, tomam anticoncepcional, se responsabilizam por muitas ‘coisas’ além da família. Eu acho que deva ser mais difícil. Eu não gostaria de viver nesse tempo. Compreendo a sua ansiedade e seu medo, é bem complicado mesmo. Mas sabe, eu aprendi que devemos esperar o que o dia tem a nos oferecer e ser grata por isso. Não adianta correr atrás do tempo perdido, é ele quem deve vir à nós e, à nós, nos resta apenas agradecer este precioso tempo para desfrutar a vida!”

O tempo, o dono de todas as ‘coisas’. Sua fala me remeteu ao filme vencedor do Oscar Estrangeiro, o mexicano “Roma” (2019). A crítica bate na tecla que é um filme bem chato, mas pensando bem, a vida de duas personagens completamente diferentes, embora mulheres, morando num bairro de classe média no México, na década de 1970, deva ser bem chata mesmo, porém irritantemente realista. O incômodo do espectador é na falta de ação, o desencanto constante dos desfechos, a vida insignificante dessas duas mulheres. Mas há beleza! Há muita Arte no filme, há amor e há uma realidade quase mortífera dos trágicos acontecimentos cotidianos. O recado do filme é importante no que diz respeito à vida com simplicidade e desapego. Ela é finda e nada é para sempre e somos obrigados a conviver com essa verdade diariamente. Daí mais um recado de outro filme, um cult francês que rompe com os padrões de ficção documental, “Lucy” (2014), onde a personagem principal confessa : “A única unidade de medida que existe no mundo é o Tempo”. Cuidemos dele, com cautela, zelo e amor!

Ilustra o post obra do artista goiano e exímio tatuador no Brooklin, em Nova Iorque, Gustavo Rizério, “1° Ato” (2010). O óleo sobre tela remete à uma mulher e cantora de ópera, porque “sem a música a vida seria um erro” (Nietzsche). Predominam na tela as cores: vermelho, como o sangue da vida e o dourado, como ouro da sabedoria.

O tempo é o Senhor da verdade e ele é o dono da eternidade!!!

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O que dizer!

O que dizer sobre o artista português, naturalizado goiano, que amava as maravilhas da natureza humana, a flora, a fauna, o folclore, a argila, a criação!

O que dizer do artista que criava figuras tão puras, ou primárias ou “primitivas”, tanto quanto uma criança, mas mandava o recado sobre a essência do homem e o lado “amargurecido” (amargo + amadurecido) da vida!

O que dizer deste senhor, com barba de “Papai Noel”, que moldava o barro e inventava bichos de um universo com seres híbridos para contar a História da Humanidade!

O que dizer dele, quando o conjunto de toda sua obra já demonstra tudo isso!

Eu diria somente que convivi desde criancinha com a beleza e o colorido de suas obras e o quanto a simplicidade de suas figuras me deram inclusão ao sofisticado mundo da Arte. O quanto foi fácil entender ou ter medo de alguma mensagem subliminar de seus temas bíblicos. Lembro a primeira vez que estive em seu atelier, uma criança curiosa, observando o mundo encantado deste mago das cores, onde há pesquisa, produção e muita brasilidade envolvida. Para mim foi como idealizar um cientista, um alquimista, um feiticeiro. A barba, os fornos, a fumaça, o cheiro de tinta, a argila por todos os lados, o caos ordenado, uma vida dedicada à Arte.

É compreensível que o naif continue tendo tanta força no complexo circuito da arte. Ele é uma expressão artística inclusiva, porque é simples e expressa o que há de mais naturalista no modo de viver, nos costumes, nos rituais, na natureza. Ainda que se assemelhe com os traçados infantis ou primários, há sempre um contexto muito engajado no tema abordado das obras.

Antônio Poteiro se embrenhou nas matas brasileiras, aprimorou seu conhecimento, principalmente nas margens selvagens do Pantanal e nunca abandonou a cultura que adotou como sua, ou vice-versa, a cultura abraçou este luso-brasileiro legítimo que expressou melhor ainda nossas origens, talvez até mais que muitos naturalmente aqui nascidos. O artista descobriu literalmente a “terra” brasileira através do barro que ele tanto moldou seus potes. O velho Poteiro, o Antônio português, que percebeu a beleza na simplicidade e nos presenteou com a complexidade de sua obra. O que dizer sobre alguém que já disse tudo!? A folclorista, Regina Lacerda disse para ele ser Poteiro, o curador Enock Sacramento diz sobre ele ser o Colorista do Brasil, eu digo que ele pode ser um Mago das Cores!

A obra “Mundo III”, 1985, é um painel que diz sobre a origem da natureza, a leveza e a dureza da sobrevivência, da labuta do trabalho e da morte. Seus estereótipos são o resultado de uma pesquisa particular, que caracteriza sua produção reconhecida mundialmente como uma das mais importantes para o estilo naif.

Pensando bem, ainda há muito que dizer por aí sobre ele!!!

poteiroAntônio Poteiro, “Mundo III”, 180 x 190 cm, 1985

Diário de uma hóspede

Raramente, com tom tão irônico, Gilberto Freyre alfinetou, em “Ordem e Progresso” (1987), as medidas populares que mais vieram atuar como meras datas comemorativas que propostas postas em prática: “O 15 de Novembro no Brasil não foi senão o periquito da sociologia com relação ao papagaio: o 13 de Maio”.

A abolição da Escravatura e a Proclamação da República, mesmo um tanto “simbólicas”, ainda hoje, por bem foram oficializadas para flexibilizar pensamentos e a mobilidade das classes na crescente pirâmide social. Inspirada em nossa épica história nacional, sob o olhar sereno e pincelado de romantismo por Freyre, a jornada brasileira é de dor e prazer, sangue e suor, misticismo e fanatismo.

Existe uma antiga cantiga da Capoeira que diz assim: “olha eu vou falar, quem quiser diga que sim oh, iá, iá, quem quiser diga que não. Agradeço à escrevidão. Quem quiser que ache asneira, se não fosse o escravo oh, iá, iá, não existia a Capoeira”. O Brasil nos presenteia entre uma ferida e outra, a singeleza bruta cultural de um país lapidado a ferro e fogo, pedra e ouro, que vem se transformando cada vez mais em patrimônio mundial. Pensar no Brasil é pensar na árvore genealógica que nos criou, na árvore do pau-brasil, na Bahia, na calunga, na capoeira, no caruru, no caiçara, no camará! É pensar no índio, africano, português, as belezas naturais, o calor e a geada, o mar e as montanhas.

Um cantinho no sul da Bahia, em particular, conta nossa trajetória através de artefatos, obras de arte e uma suntuosa e rústica decoração explorando as primordiais etnias, que deram origem à formação da “raça brasileira”. O Arraial d’Ajuda Eco Resort nos recepciona com arranjos naturais de flores e folhas de bananeira, de arecas, de coqueiros, antúrios, orquídeas e outras espécies não nativas que se adaptaram bem às terras Brasilis. As esculturas em cerâmica do Vale do Jequitinhonha, os vastos aparadores em madeira que tinham como função a produção de queijo nas fazendas do século XIX, as máscaras africanas, a coleção de plumária indígena cuidadosamente exposta nas vitrines de parede vermelha, as reproduções de Jean Baptist Debret, os tecidos com estampas de costumes indígenas, as referências da baiana e do capoeirista nas portas dos toaletes, a parte de um barco de pescador na parede da sala de informática para “navegar”, os ladrilhos azuis no salão principal, como referência maior à cultura portuguesa. As gigantescas esculturas do artista baiano, Tatti Moreno espalhadas pelos jardins do resort, fortalecendo a espiritualidade dos orixás, como Oxalá, que pela etimologia árabe, significa “in shá allh” (se Deus quiser), de frente ao rio que separa Arraial de Porto Seguro. Tudo que há, por todos os lados é impossível não estabelecer a relação da Casa Grande e Senzala, em mais uma jornada épica de Freyre.

Se o “periquito” da República funcionou ou continua funcionando é porque a Humanidade caminha a passos lentos, pois pela percentagem, ainda se constata que o “papagaio” da abolição é uma preservação aos hábitos da nossa pirâmide social.

Um lugar simplesmente mágico e inspirador, que coloca em pauta nossa origem e nossas diferenças sociais, econômicas, mas nunca culturais. A cultura ali é demarcada por todos os lados e dialoga com todas as tribos, porque a arte é uma linguagem universal.

1foto: Flávia Domingues, “Oxalá”, Tatti Moreno, no Jardim do Arraial d’Ajuda Eco Resort

R.B.Marx

O MUBE – Museu Brasileiro de Escultura, em São Paulo prorrogou a mostra “Burle Marx: Arte, Paisagem e Botânica”, que teve início em dezembro do ano passado e iria até hoje, mas para nossa oportunidade se estende até dia 26 de Maio. A curadoria selecionou 70 obras dos mais variados suportes identificando a pluralidade deste artista paulista (quase carioca) que estudou afinco as plantas brasileiras e fez a descoberta de mais de 30 espécies diferentes.

“Trazemos ao público singularidades pouco exploradas de um artista de múltiplas capacidades. Sem dúvida nenhuma o paisagismo foi sua grande contribuição para o mundo, mas ele foi mais que um paisagista”, declara o curador da mostra, Cauê Alves.

“Paisagista, arquiteto, pintor, gravador, litógrafo, escultor, tapeceiro, ceramista, designer de joias e decorador” (ufa!) a Enciclopédia Itaú Cultural enumera as virtuosas funções que Roberto Burle Marx (1909-1994) exerceu durante toda sua produtiva vida. Manteve contato com grandes nomes da classe intelectual brasileira enriquecendo seu trabalho e o do outro numa simbiose artística . Só para citar alguns: os arquitetos Lucio Costa e Oscar Niemeyer, os artistas, Di Cavalcanti e Candido Portinari e o poeta, Mario de Andrade. Com formação em Arte e Arquitetura, se engajou através de cursos, palestras, mostras de arte, parques públicos, florestas, museus e um apanhado de informações ao redor do mundo aderindo sempre à preservação do meio ambiente e um discurso ecológico coerente e global. A vasta produção do artista é consequência de uma intensa capacidade de criação, afinal R.B.Marx começou cedo, iniciou sua coleção de plantas aos 7 anos de idade.

O colecionador de arte e competente médico goiano encontrou no circuito de Arte um universo de deleite e investimento, adquirindo uma obra muito peculiar do artista. O Panneux (painel em tecido) de 385 x 137 cm, assinado no verso é um trabalho diferenciado por fazer parte do projeto dos jardins de sua casa e, tais dimensões em coleções particulares são raras, pois grande parte deste acervo estão em poder de museus ou órgãos governamentais, como a Câmara dos Deputados e o Itamarati, em Brasília.

No Rio de Janeiro, o Sítio Roberto Burle Marx (S.R.B.M), doado em 1985 para o Governo, foi tombado como Patrimônio Cultural da Humanidade, pelo IPHAN. São 400 mil m² de área que aspiram arte, paisagismo e botânica num encantador recanto de 3.500 espécies. Vale conhecer a multiplicidade da obra deste artista, aos paulistas a oportunidade prorrogada, no MUBE, aos cariocas, no patrimônio S.R.B.M e aos goianos, o Panneux, em nossa Galeria! Agente uma visita!

54222378_266839977566154_8145813666260844544_nRoberto Burle Marx (1909-1994), Panneux, 385 x 137 cm