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Espelho, espelho meu…

 

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Tem um trecho da música da banda O Rappa, um tanto forte, mas que fará sentido ao texto, que diz assim: “se os velhos não podem criar suas rugas, o novo já nasce velho”. Lembrei-me de uma imagem impressionante da joalheria Amsterdan Sauer, que saiu na Vogue de dezembro/2016.

A ousada propaganda de duas páginas traz na primeira delas a imagem do crânio de um boi sobre a mesa. Na segunda, uma senhora trajando figurino preto inclusive o chapéu, segura entre as mãos uma espiga com as palhas e os milhos bem tostadas ou ressecados posando distintamente com brinco e anel de ouro e pedras preciosas em formatos geométricos. A campanha da coleção TRIBES foi inspirada nos povos do mundo, desde as civilizações astecas, às tribos africanas. As obras com o tema das paisagens semiáridas do New México, da artista norte-americana, Georgia O’Keefe foram referência para um cenário simples e rústico. A personagem e o figurino foram inspirados na artista que é reconhecida como a Mãe do Modernismo Americano e morreu aos 98 anos, em 1986. Quem a interpreta nas fotos é a top model brasileira, Vera Valdez, hoje aos 80 anos. Aquela visão foi mágica! Seu semblante refletindo um olhar sóbrio e concentrado reflete uma postura vívida, serena, lúcida. A estranheza das imagens fica a nos confundir sobre os paradoxos entre o belo e o velho, a vida e a espera da morte, a simplicidade e a experiência, o exótico e o comum, as cores e a ausência delas.

Reassisti recentemente o filme Branca de Neve e o Caçador (2012), com a bela Kristen Stewart. O enredo é uma bobagem, mas a fotografia e a trilha sonora o disfarçam bem, principalmente na canção para a antagonista, “Breath of Life” da banda inglesa, Florence and The Machine.  A atuação da linda e não menos bela, Charlize Theron rouba a cena, mas infelizmente é no personagem dela que enxergamos a dispersão da juventude pela ocupação da velhice. Nela, na Rainha Ravenna, é que sentimos as incertezas da beleza, da força, do poder. Para manter se jovem e poderosa, a Rainha faz um pacto com o espelho mágico e constantemente absorve a juventude de virgens, sugando seus anos de vida e as transformando em velhas. Dessa maneira ela ganhara mais um sopro de vida, mais um ano de reinado, de poder, de juventude! Mas a que preço?

Saber envelhecer bem é uma arte. Talvez a maior e mais sábia de todas. A beleza não está só no físico, mas na alma. Saber cuidar da alma é muito mais difícil e complexo que ir ao salão de beleza, à clínica de estética ou à academia. Cuidar da alma é um encontro com bons livros, com crianças, com a arte de toda cor. É o querer dançar, cantar, desenhar, criar, rir, amar. Saber olhar as rugas no espelho a cada dia e mesmo assim não pestanejar. Saber que a memória é um bem precioso e que as inesquecíveis lembranças não envelhecem jamais. Faça suas rugas valerem à pena. A juventude passa, mas os bons momentos continuam.

“A cultura é o melhor conforto para a velhice!” Aristóteles

 

Trago imagem de minha avó comemorando sobriamente seus 90 anos de idade! Parabéns, vovó!

Legião Brasileira

creditos www.art-sheep.com

A banda Legião Urbana esteve na capital goiana  ano passado para comemorar 30 anos de carreira. Se não me engano foi no dia 6 de maio, antes do impeachment, antes da cassação de Cunha, antes das eleições para Prefeito e outras delações premiadas. O curioso é que três dias antes do show estive no lançamento do livro, Crônicas de Varanasi.  As crônicas são o diário de viagem de Lian Tai sobre suas experiências numa das cidades mais antigas do mundo durante três meses. Lian descreve, em meio a uma paciente espera para se consultar com um guru em Nepal, que cantou a música Faroeste Caboclo e, que na minha interpretação, é como se o fizesse para que o tempo passasse mais rápido. Pelo menos era o que eu sempre fazia quando me sentia só e precisava esperar a hora passar, pois que uma vez cantada, foram se dez minutos.  A música me distraia, embora seu contexto seja tenso e a maior parte dela num ritmo hard core e rock’n roll.  Mas foi nesse tom que recordei das picantes cenas do filme Faroeste Caboclo (2013), com direção de René Sampaio que teve excelentes críticas, mesmo desobedecendo ao roteiro original da letra. A beleza selvagem do filme é semelhante a da música. A crueldade chega ser insuportável, mas ainda sabendo o que nos reserva no final, não desistimos de olhar.

Por ironia do destino ou mera coincidência, navegando no instagram da grandiosa Adriana Varejão, no mesmo período me deparo com uma postagem inédita. A imagem é a obra do artista Cildo Meireles, óleo sobre tela, de 2011, que já nos diz tudo no título Project hole to throw dishonest politicians in. Então a primeira letra da banda que me vem à cabeça é Que país é esse? (1987). Será que a canção ainda é tão atual? A pergunta que não quer calar foi bem vinda meses que antecedeu o descontentamento político que as redes sociais conseguiram atingir e assim assumir o risco para uma mudança democrática. O que ocorreu foi um grito popular, a procura de uma esperança em meio a essa selva de pedra, esse faroeste caboclo, essa cruel realidade.

Inevitavelmente já sabemos o fim da história, “Maria Lúcia se arrepende e morre junto com João seu protetor”. No filme, ela é filha de um Senador e, ao que tudo indicava sobre essa relação familiar é a de não haver relação, tampouco exemplo a ser seguido. Mas claro, é só um filme!

A música, a literatura, o cinema, as artes plásticas, a arquitetura e as tantas manifestações culturais brasileiras são o retrato de um povo que ainda tenta se encaixar, se superar e se aceitar aos padrões internacionais. Somos uma legião brasileira vivendo esse amor violento pela pátria, pela moral e pelos bons costumes.

“Que Deus nos abençoe!”

A arte de ser marginal

apelido

 

Certa vez um amigo me presenteou com um desenho das letras do meu apelido, um Bboy com casaco nas insígnias 2Pac (famoso rapper norte americano) e logo abaixo a frase: “Deus cria os loucos para confundir os sábios” e … “O pecador aqui também tem alma”.  Meu amigo, se dizia um vida lôka, um divergente do sistema, à margem da sociedade, um marginal.

Na história da arte é comum nos depararmos com artistas que se desviam da realidade para poder produzir, ou vice-versa. Temos alguns famosos casos como o do neerlandês pós-impressionista Vicent van Gogh (1853-1890), ou a atual japonesa Yayoi Kusama, de 87 anos e ainda o brasileiro morto em 1989, Arthur Bispo do Rosário. Casos surpreendentes que nos levam a crer que a frase sobre os “lôkos” faz realmente sentido.  Relações inconstantes e inconformistas transformam estas mentes criativas em máquinas de produzir arte, ora deslumbrando ora assustando, como num grito de socorro. Estes divergentes, que para se comunicarem com o sistema, com a sociedade, com a cadeia de padrões pré-estabelecidos expressam através da arte um diálogo estético muito mais consistente que qualquer cidadão normal.

Tal como a obra do artista carioca Hélio Oiticica, “Homenagem a Cara de Cavalo”, onde a imagem retirada de jornal do traficante de drogas morto por policiais é agregada pela insígnia: SEJA MARGINAL, SEJA HERÓI, confirma a metáfora de se estar fora da sociedade, à sua margem e mesmo sendo bandido, você acaba virando herói. O caso tomou proporções épicas, em 1965, aludindo à ideologia do anti-herói em busca do confronto com a ditadura.

Hoje, recuso-me a qualquer prejuízo de ordem condicionante: faço o que quero e minha tolerância vai a todos os limites, a não ser o da ameaça física direta: manter-se integral é difícil, ainda mais sendo-se marginal: hoje sou marginal ao marginal, não marginal aspirando à pequena burguesia ou ao conformismo, o que acontece com a maioria, mas marginal mesmo: à margem de tudo, o que me dá surpreendente liberdade de ação – e para isso preciso ser apenas eu mesmo segundo meu princípio de prazer: mesmo para ganhar a vida faço o que me agrada no momento.” (Hélio Oiticica – 1968)

 Meu amigo tampouco ouviu falar destes consagrados artistas, no entanto percebe-se que a sociedade impõe padrões impossíveis de se alcançar, daí o que mais importa para um marginal é confundir quem estabeleceu estes padrões.  Talvez por isso me sinta tão atraída pelo grafite, pelo movimento hip hop, o rap, o break, o skate, a capoeira.

Eu também sou marginal!

Baleias

Curiosamente algumas histórias que há tempos já conhecia foram se entrelaçando como num quebra-cabeça. Tudo começou quando li, recentemente, uma analogia entre a história do escritor estadunidense Herman Melville, “Moby Dyck” e a relação do homem com a vida, a incerteza do futuro, a coragem, a ira e o misterioso caminho rumo à morte. A tão sabida máxima da natureza, que para toda ação se tem uma reação.

Moby Dyck é um clássico, embora não tenha sido nada bem recebido em sua época. Foi escrito em 1851 e relata o episódio, ora realista ora fictício do invencível navio baleeiro Essex, seu capitão e a tripulação que sai em busca de óleo de baleia, grande fonte econômica deste período. A promessa da volta com mais de mil barris cheios é quase a “ladainha glamorosa” de Titanic… Pois é, a natureza é mesmo implacável!

O conto infantil, mundialmente conhecido e escrito pelo italiano Carlo Collodi, em 1883, “Pinóquio”, teve várias adaptações, principalmente pelo Walt Disney, onde na versão original, Gepeto é engolido por um tubarão e não por uma baleia.  Mas a moral da história é a mesma, o boneco de madeira vive as desventuras e tramas do enredo até se transformar num garoto de verdade.

Pelo visto, a vida tende a ser uma grandessíssima engolida de baleia. Ufa!!! Deveriam mudar o ditado de “vou matar um leão por dia”, para “vou ser engolido por uma baleia todo dia”.

O lado bom é que algumas baleias tem coração. E olha que é grande pra caramba. Para se ter uma ideia, o coração da Baleia Azul , que é a maior dos mares, é equivalente ao tamanho de um ônibus. Assisti à um documentário sobre a Patagônia, onde as baleias Jubartes passam o verão. Uma das cenas mais impactantes foi quando, após horas e tentativas de se aproximar, uma delas carinhosamente permitiu que o jornalista tocasse sua cria, um filhote tão dócil quanto um cachorrinho doméstico. Podem acreditar, ele chorou, e eu também. As Jubartes são realmente lindas, generosas e extremamente altruístas. Noutro documentário, sobre elas, mostra seu esforço  em afastar os filhotes de foca do ataque de baleias Orcas. Elas não recebem nada em troca, simplesmente ajudam por prazer.

A imagem que ilustra meu texto é do inglês Christopher Swann, que passou 25 anos fotografando baleias. O Tubarão-Baleia é um peixe que já teve tamanho registrado em 20 metros de comprimento. Ele não ataca seres humanos e se alimenta de plâncton.

Entre as histórias de pescadores e os contos infantis é difícil imaginar uma realidade perene, no entanto é possível atentar às morais subliminares em todos os contextos. O ego em primeiro lugar é o passo certeiro para a catástrofe e isso fica bem óbvio em qualquer  história. Ai de nós um dia sermos como as Jubartes. Menos racionais, mais altruístas!

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Primeira Impressão

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Venho refletindo acerca da simbologia da palavra imprinting (do inglês: impressão), não somente pela sua repercussão na Saga Crepúsculo, mas também por tê-la escutado num documentário do canal da National Geographic sobre a vida e os costumes dos jacarés. Lembrei-me daqueles desenhos que a gente assistia em canal aberto, nos anos 80 (que certamente eram da Disney) onde o bebê jacaré ou qualquer outro bicho que quebrasse o ovo ao nascer e de imediato avistasse um ser que não fosse da sua espécie, já ia logo chamando de “mamãe”. Quem não se lembraria dessa cena animada!?

Bem, psicologicamente é confirmado que este “fenômeno” é relacionado ao afeto e à segurança do recém-nascido, mesmo em espécies primitivas ou selvagens, mas principalmente em seres racionais. Seria o famoso amor à primeira vista. Quanto às áreas científicas da genética, ele corresponderia à um sofisticado aparato da etologia que eu nem saberia sintetizar aqui, mas que por fim, se resumiria numa interação entre os seres humanos além do DNA.

Essas características ora afetivas, ora de sobrevivência são da essência do ser, dos seres, desde o Gênesis, do gen, da origem, do homem e da mulher. A capacidade de gerar e propagar a espécie, na espectativa de que estará sempre seguro, amado, protegido. O instinto coletivo e sua formação social vão se organizando através de constantes imprintings, primeiras impressões, seleções naturais, culturais, comportamentais ou atrações sexuais.

Trago aqui imagens de dois grandes nomes da fotografia brasileira. A primeira, extraída do livro “Gênesis”, de Sebastião Salgado, jacarés concentram-se em pequenos lagos, no Mato Grosso, na região de Porto Jofre, onde estão entre 5000 e 8000 deles. A segunda imagem é de Luciano Candisani, extraída do livro “Pantanal na linha d’água”. Os jacarés tiram proveito da alimentação fácil, quando no período das chuvas os peixes deixam os campos inundados em direção aos rios principais, passando por canais estreitos. Esses exemplos de sobrevivência selvagem são apenas o amadurecimento da convivência em grupo e afetividade entre os seres da mesma espécie.  Foi no imprinting o primeiro instinto de sobrevivência que estes bichos e os outros encontram para se manterem vivos e seguros.

A primeira impressão é a que fica!

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É doce, mas não é mole

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Para não dizer que o ano de 2016 foi todo ruim, teve um acontecimento maravilhoso, em minha opinião, que reuniu duas grandes celebridades, cujas distintas áreas admiro por demais.

Uma delas é a banda ‘metropolitana’ O RAPPA e a outra, o artista plástico pernambucano, Francisco Brennand. Francisco Brennand é um exímio ceramista e guardião do Engenho Santos Cosme e Damião, onde fundou, na antiga fábrica de cerâmicas, um extraordinário museu a céu aberto com esculturas esmaltadas em tamanhos e formatos diversos num encontro de arte e natureza.  O pernambucano abriu as portas de seu recanto para receber os músicos Falcão, Lobato, Xandão, Lauro e toda equipe de montagem e filmagem para a realização do show acústico. Brennand, hoje aos  89 anos, dá o seu depoimento na última faixa do álbum: “Vocês tomaram de assalto a oficina com seus instrumentos letais. A mim, só me coube fugir, porque eu já estou rendido!”

A coletânea de músicas e sobreidade da plateia foi uma simbiose à parte, pois quem roubou a cena foi um dos convidados da noite, o cearense e xará do anfitrião, Francisco Igor Almeida dos Santos, o RAPadura Xique Chico. Chico versou numa batida hip hop a canção de sua autoria, o “Nordeste me veste” num pout pourri com a música “Reza Vela”, do RAPPA. RAPadura defende seu estilo e declara não ser rapper, porque “rapper é quem canta rap, eu canto rapente”, conclue. RAP – Revolução Através das Palavras é um estilo que lenta e modestamente ganha espaço no mercado musical brasileiro, dada sua capacidade ácida de criticar a sociedade e a política. Desde os Racionais MC’s, MV Bill, GOG e Sabotage não tenho ouvido tanto engajamento e erudição em versos quanto RAPadura.

Num caleidoscópio de possibilidades o som nordestino interage aos instrumentos da banda O RAPPA que toca guitarra de 12 cordas, clavinete, piano elétrico, escaleta e os steel drums. Numa sincronia entre o rap, reggae, repente, xaxado, oxente o show anuncia uma nova geração para preencher o vazio que ficou com a ausência de Chico Science, Mestre Ambrósio e Cordel do Fogo Encantado. A música integrada ao fabuloso cenário das cerâmicas de Brennand catalisam no imaginário a presença de seres mitológicos e seus objetivos em terras brasileiras. E os músicos, ali no meio do palco, verdadeiros Mestres de Cerimônia, vão contando algo mais sobre o doce e o duro da vida!

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Mondrian

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Dificilmente alguém escreverá algo sobre o gênio do geometrismo que ainda não tenha sido dito. Ele ultrapassou os limites embasando, através das formas geométricas e das cores puras, a formação do universo e seu perfeito equilíbrio. Li certa vez, acho que no livro Hiper Espaço, ou assisti à um documentário sobre isso, que tentava demonstrar através das cores,  a formação das galáxias, dos planetas, seus satélites, cometas e demais astros celestes. O exemplo era bem singelo. Foi colocada três latas de tintas, uma do lado da outra, o vermelho, o azul e o amarelo. O inicio de tudo seria o nada que a partir dele ecoaria uma vibração a qual desencadearia o derramamento da primeira lata de tinta, que consequentemente, depois de alguns bilhões de anos, derrubaria a outra e depois a outra. Quem frequentou as primeiras aulas de arte na escola, sabe que com a mistura destas três cores é possível criar mais três e daí por diante… É bem simples, mas muito complexo imaginar que um universo colorido nasceria apenas de três cores primárias, não é mesmo!?

Bem , a historinha do Mondrian foi mais ou menos assim, ele pintava paisagens, naturezas mortas, desenhos de observação, como todo aluno prendado nas Belas Artes. Porém, num dado momento ele revoluciona as teorias e práticas da arte moderna europeia e começa a difundi las numa revista chamada “O Estilo”. Ele foi muito feliz com esse nome, porque marcou seu estilo mundialmente com seus quadrados e retângulos flutuantes e cores literalmente primárias. Mondrian também ajudou a revolucionar a arquitetura, o design e a moda, visto que seu trabalho além de simples e extraordinário causara tamanho impacto pelas formas limpas (ou clean) e a despreocupante cartela de cores.

O artista neerlandês não teria ideia da força de suas ideias ao longo dos tempos. A matemática se instalaria, pós-construtivismo russo, nos mais vanguardistas movimentos artísticos. No Brasil, na década de 50, estas formas geométricas ganham proporções ainda maiores e mais especiais. Os artistas investem nos triângulos, losangos, trapézios, tri dimensões, instalações e gigantescas esculturas. São os filhos do Abstracionismo e os pais do Neoconcretismo.

Modrian gerou possibilidades e descobertas para a arte, assim como um cientista gera para a Ciência. Afinal, o que tem demais desenhar um retângulo branco com uma margem preta em uma de suas laterais? Até meu filho de 7 anos faz isso. Bem, mas ele não teria feito isso em 1920, teria? Mondrian simplesmente desprendeu a forma geométrica de sua bidimensão e deu a ela profundidade, movimento, sombra, tri dimensão. É isso mesmo! Ele inventou a tri dimensão dos retângulos e quadrados nas Artes Plásticas. Mas não foi só isso. Ele tentou associar essa geometria ao equilíbrio e harmonia do universo. Não é lindo!?

Daí eu retorno ao parágrafo inicial, se pensarmos que “Deus” soprou tinta por tinta e as misturou numa paleta de cores é possível que ele também as tenha desenhado cada uma em seu devido lugar, como nas proporções de Mondrian, uma maior, do lado de uma menor, duas ou três do mesmo tamanho juntas ou espaçadas, mas sempre em equilíbrio, em movimento, em harmonia! A história da arte e seus mistérios dão pano pra manga ou muita sarna pra coçar, os cientistas que o digam! Mas o barato da vida é saber abrir espaço para novas possibilidades, novas formas, novas cores! A Arte e a Ciência num inesquecível casamento de descobertas!

Siga o Coelho

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A Páscoa passou e com ela os símbolos dos ovos, do chocolate e do coelhinho. Este bichinho que mais parece de pelúcia de tão fofo, irresistivelmente macio e cativante foi eleito o ícone-mor para esta data. Na edição passada da Revista IC/GO, para quem se lembra da coluna de arte, mas principalmente para quem leu, citei sobre o filme “A Origem dos Guardiões”, que abrange os personagens do Jack Frost, Papai Noel, Fada do Dente… Enfim o Coelhão! No filme ele é representado por um coelho másculo, tribal e atlético, que tem como narrador ninguém menos que Hugh Jackman. É bem legal ver esta nova perspectiva, mesmo porque ele, o Coelhão, é um guardião, um guerreiro, um defensor desta data comemorativa.

“(…) Alguns povos antigos relacionavam este animal com a chegada do fim           do inverno e começo da primavera, como um simbolismo do         “renascimento da vida”.         Os coelhos eram os primeiros animais a abandonarem as suas tocas quando a             primavera começava.”

(apud http://www.significados.com.br/coelho-da-pascoa/ dia 04/04/2016)

Daí o mito do coelho branco de “Alice no País das Maravilhas” (1865) na história de Lewis Carrol, que vai mais além. A sua relação com o inconsciente e autoconhecimento é muito mais profundo que nossa vã filosofia previa.

O tão aclamado ditado: “siga o coelho”, que ganhou adeptos dos finais do século 20, com o filme ficção Matrix, no qual “os membros da resistência eram aqueles que, em algum momento, enxergaram que a vida cotidiana era só uma trama, um programa de computador, uma ilusão. A realidade era um deserto em que os rebeldes lutavam contra ‘as máquinas’ num mundo sem beleza ou gosto” (Eliane Brum). O protagonista, representado pelo ator Keanu Reevers, o Neo, é convidado por uma bela garota, que o conduz até os personagens que o levarão a desvendar  esta realidade nua e crua. Mas o que isso tem a ver com o coelho? Bem, a garota tinha um coelho branco tatuado um pouco abaixo do ombro.

“Nós nunca descobriremos o que vem depois da escolha, senão       tomarmos uma            decisão. Por isso, entenda os seus medos, mas jamais        deixe que eles sufoquem os    seus sonhos. Siga o coelho. Não tenha medo             de entrar em lugares onde você acha que não cabe.” (Bruna Vieira)

A descida de Alice na toca ou a conexão hightech de Neo são ambas escolhas para o autoconhecimento, o sofrimento e a capacidade de enfrentamento ao desconhecido. Pode não ser lá uma experiência cor-de-rosa, com unicórnios e arco-íris adocicados, mas a realidade também não é assim. A senha “siga o coelho” é justamente o inverso da  calmaria, do bem-bom, dos contos de fadas, da tal famosa zona de conforto.

“Essa viagem ao interior de nossas próprias dimensões inconscientes é no   início uma experiência amarga porque corrói e porque é realmente desagradável      para as ilusões da consciência, mas quem paga o preço, arrasa. E encontra paz             interior            e mais auto-estima. Tudo bem que esses não são os prêmios mais cobiçados da   sociedade moderna, mas quem tem, valoriza. Também espera          encontrá-los nos outros           que vão compor sua família, seu grupo, seus queridos.    Não tem pra vender, o status não paga em nenhuma moeda do mundo. “Nosso ouro não é o do vulgo”, diz a           máxima           alquímica.” (Larissa Siqueira)

Outra curiosidade acerca do coelho é o seu significado no horóscopo chinês. Segundo alguns especialistas no assunto o coelho é o signo mais capaz de alcançar a felicidade, então vamos segui-lo, não é?! No entanto tudo tem o seu sentido contrário, o signo de coelho se machuca facilmente, podendo assim sofrer muito com pequenas decepções.

Ainda bem que o coelho tem essa aparência dócil e carinhosa! Dessa forma somos mesmo estimulados a segui-lo. Trago a imagem da obra do artista goiano, Pitágoras que interpreta bem os medos e anseios na nossa era contemporânea. Um mundo robótico e catastrófico que tenta associar a beleza e carisma que advém da natureza, bem dentro deste contexto contraditório dos nossos sentimentos. Desejo e medo, o que atrai e repele…

Sobre Réus, Reis e Reais

Mural para Rodoviária de Alto Paraíso - GO

O título parece soar bem apropriado à atual conjuntura política do país, porém e felizmente para mim, esta coluna aborda sempre a história da arte e da cultura brasileira.

Há tempos acompanho a saga de jovens talentos goianos. Percebi ao longo dos anos que alguns se sobressaíram mais que outros. Uns muitos são grafiteiros. Outros tantos, ilustradores ou designers gráficos. Mas poucos são verdadeiramente artistas de rua. Uma parte desses jovens permaneceu no universo limítrofe de temas constantes. No entanto, àqueles que emergiram e romperam a barreira da mesmice e do déjà vu. Cada um à sua maneira, cada qual com seu estilo. “Cada um na sua!”, como costumava repetir o slogan de uma propaganda de cigarros da minha época.

A questão é que um deles em especial sempre me chamou atenção. Seus desenhos, suas linhas, suas combinações de cores e formas me conquistaram mais. Talvez por causa da simplicidade à qual tanto me assemelho. Enfocou a temática brasileira, o naif ou primitivo, o caipira ou caboclo, o dócil ou selvagem. O talentoso Wesslei Gama Barbosa, o WÉS pintou em largas escalas as várias facetas da nossa multiplicidade étnica e conseqüentemente cultural. Deu continuidade ao brasileirismo um tanto iniciado pelo veterano Decy, que ocupou muros e fachadas do cenário urbano goiano, assim como as ilustrações dos livros de história ocupam as carteiras das salas de aula. Participou de interessantes projetos culturais onde a biodiversidade local e algumas pessoas de cidades do interior do Estado foram retratadas pelo reconhecimento afetivo da comunidade onde vivem. Assim como num ciclo que se renova apresento um curto recorte da história da arte brasileira que remete à nossa formação étnica. O Romantismo marcou a beleza naturalista indígena nas obras ícones: “Moema” (1835), de Victor Meireles e “Iracema” (1881), de José Maria de Medeiros. Entre as décadas de 1920 e 1930, o Modernismo de Cândido Portinari e Tarsila do Amaral marcou a nossa brasilidade com o “Mulato” e o misto racial de “Operários”, respectivamente. A artista contemporânea, Adriana Varejão teve inspiração em um censo do IBGE de 1976, no qual foi feita uma pergunta aberta aos brasileiros: “Qual a sua cor de pele?” e desenvolveu junto à uma indústria de tintas mais de 30 tons de cores. Varejão pintou dezenas de auto retratos na temática da miscigenação para sua mostra “Polvo”, em 2014.

O artista WÉS também levanta algumas questões acerca da miscigenação. Seus temas tampouco abordam a realeza, reis ou heróis. Abordam sim, pessoas reais, pessoas mestiças. Ele enxerga a beleza da simplicidade, a pureza do desapego, a grandeza de ser pequeno. Pinta com ousadia, na cor do ébano, o primeiro casal bíblico e seus descendentes. Enaltece a cultura brasileira enfocando fauna/flora e as registra em becos/vielas, sem medo de hesitar. Mesmo quando a lei o reprime, ou quando a crítica do mercado vigente “torce o nariz”.

WÉS nos propõe críticas e questões sobre a sociedade, resta saber se estamos prontos e dispostos a enxergá-las e solucioná-las. Réus, Reis ou Reais?

Mito e Arte sobre Unicórnios e Rinocerontes

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Rinoceronte vestido com puntillas. Salvador Dalí. oti

 

 

 

 

 

A verdadeira origem sobre os unicórnios ainda é uma incógnita, embora cientistas e artistas tentam desvendá-la há milênios. Muito difundido na simbologia da Antiguidade e da Idade Média, conhecem-se, no entanto, escritos sobre este animal muito mais antigos, alguns dos quais remontam o século IV a. C., como os do historiador grego, Ctésias de Cnido, que  redigiu textos sobre alguns animais fabulosos da Índia.

No século XVII o italiano, Dominico Zamperi executou arabesco no Pallazzo Farneze, de Roma retratando o ser mitológico adormecendo nos braços de uma donzela. No mesmo século o astrônomo alemão, Johannes Havelke ou, dito Hevelius  introduziu  a constelação equatorial de Unicórnio, ao norte de Cão Maior.

De poderes mágicos e curativos, o mito selvagem seria domado apenas pela pureza de uma virgem.  Há quem o diga que habitaram a terra nos tempos da pedra lascada (o Elasmotherium sibiricum), ou que uma espécie de ossada com defeito genético variando sua biologia e a exceção da regra, tivesse sido erroneamente catalogada. Talvez por causa de algumas semelhanças, como no caso dos chifres dos narvais, os unicórnios-do-mar ou ainda mais hipotético, às semelhanças com o primo mais próximo, mas não ruminante, o rinoceronte anão, de apenas 1,2m.

Habilidades mágicas e curativas são alguns dos dons deste ser fantástico, que esteve presente em meados dos anos 80 nos famosos desenhos animados, como o da princesa “She-Ra” e “A Caverna do Dragão”, ou no filme A Lenda , de Ridley Scott, que estreou Tom Cruise no cinema. No início dos anos 90 ele é citado numa das séries de “Harry Potter”, escrito por J.K.Rowling e metaforicamente idealizado, por Steven Spielberg em “As Aventuras de Tin Tim – O segredo do Licorne”, de 2011.

De relatos em relatos, lendas ou filmes, ele teria surgido de antigos registros e pesquisas arqueológicas no pêlo branco de um ungulado com um único chifre na testa e com o mito fortalecido através dos contos de fadas.

Li na Enciclopédia Cultural Laureasse que além das cinco espécies ainda existentes de rinoceronte, o rinoceronte-indiano leva o nome, Rinhocerus unicornis. Alguns possuem um ou dois chifres, assim como algumas espécies também se diferem pelo tamanho da boca e temperamentos.  Embora sejam fortes e robustos, apresentam três dedos em cada pata e são animais herbívoros. O rinoceronte-branco é o mais pesado dos mamíferos africanos, podendo chegar a 4 toneladas. Na verdade ele não é branco, é cinza. O nome se deve a um erro de tradução e não à cor da pele.  Com grande risco de extinção, hoje paga se preço de ouro pelo seu chifre. O chifre do rinoceronte é utilizado sob a forma de pó por suas supostas propriedades para aliviar a febre, manter a potência sexual em qualquer idade e até combater o câncer. A caça à esse tesouro vem causando perdas irreparáveis ao ciclo de vida desses animais.

Uma das marcas líderes do segmento de urbanwear, a Ecko escolheu o contorno da figura do rinoceronte como sua logomarca e quando questionado, seu fundador argumenta: “são os únicos animais de quatro patas que não andam para trás”.

Uma famosa marca de carros japonesa aproveitou o lançamento publicitário de um novo veículo, em 2009 e usou a imagem do animal como referência e analogia à sua força, tração e impacto.

No filme de Woody Allen, Meia Noite em Paris (2010), o artista surrealista espanhol, Salvador Dalí interpretado pelo o ator, Adrien Brody, tem uma epifania no meio de uma conversa e cita repetidamente: “I see rinhoceros, I see rinhoceros…”. Bem da verdade é que Dalí executou uma série de obras com o bicho. Rinoceronte vestido com puntillas é uma escultura em tamanho real, do ano de 1956, que está localizada em Marbella, na Espanha. Seus detalhes e referências são baseados no Rinoceronte de Dürer, intitulado assim por causa de seu autor, o renascentista nórdico alemão Albrecht Dürer, que esboçou o animal, em 1515 baseado em relatos descritos sobre um rinoceronte indiano.

No documentário,  A Caverna dos Sonhos Esquecidos (2010), do diretor Werner Herzog, é possível observar um antigo ascendente do rinoceronte nas pinturas rupestres da caverna de Chauvet, na França, há milhares de anos atrás.

A bióloga Nurit Bensusan se inspirou nos versos de Pablo Neruda e escreveu o livrinho Quanto dura um rinoceronte (2012), que trata com seriedade a extinção do animal. As divertidas ilustrações foram concebidas por Taísa Borges.

Ferreira Gullar também entrou na dança e elaborou o livro infantil A menina Cláudia e o rinoceronte (2013), onde a cada página seus poemas expressam a tentativa da protagonista em moldar a imagem do bicho com pedacinhos de papéis.

A idéia de contar um pouco sobre estes mitos surgiu quando, navegando nas redes sociais, encontrei um desenho que ilustrava um rinoceronte em bicas, numa esteira de academia e, ao seu lado, colado na parede, o retrato de um imponente unicórnio branco. A moral da história vinha com o slogan:“Nunca desista de seus sonhos!”

Histórias, lendas, mitos ou fatos os unicórnios e os rinocerontes construíram no imaginário coletivo a crença do acesso ao poder em contraponto à perda da inocência. O bem e o mal, a cura e a doença, a vida e a morte. Duas versões com o mesmo propósito, atingir o poder através do chifre.

Surrealismos e realismos juntos num inesquecível casamento de possibilidades!