Azul do mar

Na última quarta-feira (12-08) a curadora Marisa Mokarzel à convite da Revista Virtual Zum, entrevistou a artista paraense Berna Reale. Intitulada “A performance da violência”, a artista relata na live, disponível no YouTube o momento de sua vida em que decidiu definitivamente investir na sua carreira de performer.

Berna Reale é perita criminal do Centro de Perícias Criminal do Pará e foi no dia que compareceu para fazer o concurso do cargo, que ela se deparou com uma forte cena nos arredores do local. Reale chegara uma hora mais cedo para a prova e encontrou um grupo de homens fardados na frente do prédio, se divertindo, enquanto um colega pagava um demérito, sozinho no chão, fazendo dolorosas flexões. Ela contou que aquele episódio a comoveu profundamente e que a partir daquele momento ela iria se debruçar sobre o tema da violência humana, sobre a dor do outro e o prazer de seu algoz, sobre o que fazemos, o que queremos fazer e o que podemos fazer com os outros.

Berna Reale tem se destacado internacionalmente por abordar temas provocativos e pertinentes como abuso sexual, religião, sadismo, machismo, racismo e por aí vai. A artista integrou a mostra “Da Pedra Da Terra Daqui”, em 2015 com curadoria de Aracy Amaral, no MAM-SP sob o tema de quem somos, nossa ambiguidade social, revendo o conceito de “progresso” da sociedade desde nossas origens, com o regaste de artefatos rupestres e a formação dos sambaquis, até a formação das grandes metrópoles, a poluição e a desigualdade social.  A curadoria da mostra selecionou diferentes suportes para a apresentação da coletiva, composta por seis artistas brasileiros, como instalação, vídeo-arte, performance, fotografia e pintura. Esta última foi encarregada pelas mãos do artista goiano, Pitágoras Lopes Gonçalves. Ao lado de grandes nomes da arte nacional, o artista goiano marcou presença numa das maiores, quiçá a melhor mostra de sua carreira. Intitulada “Quase tudo que é azul lembra o mar”, o artista produziu uma série de obras, incluindo 3 gigantescos painéis e outras 6 telas em grandes formatos para representar o tema da mostra, que assim como artista paraense, Pitágoras expressou, ao seu modo de ver, nosso “progresso” à violência. A violência humana contra a natureza que envenena as águas do mar, distribui cadáveres enfermos em terras férteis, embaça o céu azul com fumaças de jatos, naves e sonares de última geração.

Anunciamos que a partir do dia 01 de setembro estas obras de Pitágoras estarão em exposição para a comemoração dos seus 30 anos de pintura e nada mais atual para demonstrar nosso momento de pandemia que esta sua extraordinária série de obras de arte. A ideia é voltar o olhar para nossas origens e as consequências desse “progresso” para questionarmos onde estamos errando e por que esta violência fica cada vez mais evidente e normalizada.

Nossa comemoração dos 40 anos continua e celebraremos também a mostra dos 5 artistas selecionados do nosso Edital 2020. Artistas que se divergem em suas pesquisas e suportes, mas adotam a expressão artística para nos alertar, nos informar e questionar como estamos vivendo, como estamos tratando nosso corpo, nossa alma, nosso azul do mar!

Montagem do nosso salão de exposições para Pitágoras da série “Quase tudo que é imenso lembra o mar”, 2015.