Atlântico Negro

Todo mundo sabe que o Brasil foi último país a abolir a escravidão, em 1888, mas o que ninguém sabe é que na França, quando o baixinho Napoleão Bonaparte mandava, a abolição ocorreu em 1794, mas foi transgredida, em 1799. Napoleão estabeleceu a escravidão em 1802 e o comércio continuaria até 1848. Eita, esse Seu Bonaparte, hein!? O caso é que a artista francesa, Marie Guillemine Benoist pintou a tela “Portrait d’une femme noire” (Retrato de Uma Negra) para o Salon 1800, vésperas da primeira data da abolição. A obra não seria tão significativa neste momento se não fosse uma das sete selecionadas para aparecer no novo videoclipe do Casal Negro do Século XXI, Beyoncé e Jay-Z. A filmagem do clipe se deu a portas fechadas no Museu do Louvre, em Paris e a obra de Benoist aparece singelamente cortada na parte dos ombros da figura negra para que não fosse exposto seu seio. O curioso é que a tela foi pintada por uma mulher branca, naquela época com o tema de uma mulher negra. Talvez em respeito à modelo negra (penso eu), o videoclipe censurou o topless. O que não aconteceu com a branca escultura “Vênus de Milo”, pois com a ausência do rosto e dos braços teve de mostrar os peitos e as asas. Bem justo e sugestivo não é mesmo, Casal 21?!

bey e jayVia @artcube

Parece-me que todas as obras selecionadas tem algo em comum, assim como sua importância na História da Arte. O Museu do Louvre está oferecendo uma visita guiada a essas míticas obras de arte e já tem lista de espera. O tour inclui a épica “Mona Lisa”, de Leonardo Da Vinci, “A Coroação de Napoleão”, de Jacques-Louis David (onde na realidade quem está em destaque na pintura para ser coroada é Josefina, a esposa do pequeno militar), “A Balsa de Medusa”, de Theodore Gericoult, a “Vênus de Milo”, de Alexandre de Antíquia, “A Grande Esfinge” de Tanis e a “Pietá”, de Rosso Fiorentino. A feminilidade é um dos pontos em comum entre as sete obras escolhidas e (vocês podem até começar a achar que tá virando ladainha) o empoderamento feminino e a voz da negritude vem soando cada vez mais alto nos veículos de comunicação, informação e cultura.

No Brasil um exemplo disso é a mostra “Histórias Afro-Atlânticas” que está no MASP e no Instituto Tomie Ohtake, com obras de mais de 200 artistas nacionais e internacionais. A curadoria é focada na produção de aristas entre os séculos 16 e 21. A ideia é despertar para um conjunto artístico de inclusão negra, onde diversas expressões são baseadas na cultura africana e algumas abordam uma modesta miscigenação com outras etnias. A satisfação desta mostra é que uma das imagens de seus chamados virtuais pertence ao artista goiano, Dalton Paula. Hoje residente em São Paulo, Dalton é um renomado artista que participou da última Bienal Internacional e vem se destacando no circuito de arte com premiações e mostras em importantes instituições. Por falar em artista goiano, o grafiteiro goiano KBOCO está com a mostra “Sertão Estendido”, no Museu Afro, também em São Paulo.

É um orgulho para nós goianienses estar fazendo parte da História da Arte Brasileira, marcando presença em território exclusivo da arte engajada do país. Que possamos nos orgulhar destes feitos não só porque somos goianos, mas porque no fundo, no fundo, carregamos o DNA africano em nossa cadeia genética. Pois, querendo ou não, viemos de algum barro, de algum lugar do mundo e por enquanto o Atlântico Negro ainda é o mais suspeito de todos!

negress“Portrait d’une noire”, Marie Guillemine Benoist, 1800