Animus*

Num desabafo sincero, o rapazola replica à namorada: “Vocês, mulheres colocam uma minissaia e saem por aí, como umas Diabas!” A afirmativa me tocou seriamente e uma questão me veio à tona: “E vocês, homens?” Não é preciso colocar uma minissaia para que fiquem tão endiabrados quanto nós, não é mesmo?

Veja bem, meu bem, um arquétipo masculino que simboliza a sedução é o personagem viril de Don Juan DeMarco (1630), um conto do folclore espanhol, que se transformou no estereótipo do macho fatale, afinal quem resistiria a um Diabo desses? Nem precisaríamos ir tão longe, pois encontramos em nossa própria literatura alguns animus que representem toda essa ‘caliência’ tropical, como o bravo e selvagem: “O Guarani” (1857), de José de Alencar, o cínico e sedutor: “Primo Basílio” (1879), de Eça de Queiroz, o bem dotado de inteligência e atributos físicos: “O Mulato” (1881), de Aluízio Azevedo, o doce e safado: Vadinho (1966), de Jorge Amado, na figura negra: “Orfeu”, em duas versões para o cinema nacional (a primeira com Breno Mello, em 1959 e a segunda com Tony Garrido, em 1999), o corajoso e destemido: Capitão Nascimento, em “Tropa de Elite” (2008), os lendários capoeiristas, mandigueiros e heroicos: “Madame Satã” (2002) e “Besouro” (2009), o caminhoneiro: “Arlindo Orlando”, citado na locução do impagável cantor, ator e humorista: Evandro Mesquita, da banda “Blitz”, a versão John Bon Jovi no carismático brasileiro: Paulo Ricardo, do RPM, nossos belos campeões internacionais: Ayrton Senna, Zico, Guga e o Xuxa, os eternos garotos de Ipanema: Tom Jobim e Chico Buarque, ou os mais contemporâneos: Marcelo Falcão, Charlie Brown, Dinho Ouro Preto e Frejat, ou ainda para abranger todos os gostos, os cafonas, porém simpáticos: Luan Santana e Gustavo Limma, assim como os das cores do pecado, o pequeno: Alexandre Pires e seu xará, o monumental: Xanddy. Meus caros e minhas caras não é a minissaia é o “olhar 43”, é o cochicho ao pé do ouvido, é o toque carinhoso, o cheirinho no cangote, o beijo áspero da barba por fazer, o tico-tico no fubá, o ruído da cuíca!

Na História da Arte observamos casos isolados de representações de animus em relação à proporção de animas, as invencíveis musas inspiradoras. No entanto, muito bem expressados através de milenares esculturas greco-romanas (VIII a.C e V), masculinos corpos nus ou delineados pela fricção de seus músculos simbolizaram a plenitude de divindades e mitos como Odisseu ou Ulisses, de Homero ou o semi-deus, Hércules, num período politeísta que priorizava profundamente a estética do belo. A luz sob essa estética viria iluminar séculos depois as investigações do magistral, Leonardo Da Vinci, que se encarregou de demonstrar cientificamente o animus que vive dentro de cada mulher, o “Homem Vitruviano” (1490), com suas medidas devidamente proporcionais. Ao longo da História da Humanidade há casos raríssimos ou pouco divulgados de manifestações artísticas de mulheres que expressassem seus animus. Corajosas como Anäis Nin (1903-1977) e Simone de Beauvoir (1908-1986) tomaram as rédeas de seus sentimentos e os manifestaram literalmente dando voz e vez às mulheres de seu tempo.

Os registros de índios e negros, por Albert Eckhout, no século XVII e por Debret e Rugendas, no século XIX, a sensualidade quase infantil ou demasiadamente carnal dos corpos masculinos de Vicente do Rego Monteiro (1899-1970), os lábios carnudos do “Mestiço”, de Candido Portinari (1903-1962), os corpos retorcidos e cheios de sadismo, de João Câmara (PE -1944), a repulsa ou atração pelos corpos afro-brasileiros fotografados por Mario Cravo Neto (1947-2009) ou até os mais recentes registros pelas lentes de André Cypriano (SP-1964) são provas de que o animus se manifesta discretamente nas Artes Plásticas Brasileira, seja através de um caboclo-civilizado arcando uma flecha, seja no “moreno, alto, bonito e sensual” jogando capoeira, ou quem sabe até um pálido retrato, andrógeno ou ‘trans’, com as mãos na cintura nos encarando olho no olho sob um fundo azul.

Sim, são corpos masculinos, corpos nus ou quase nus, expressados por artistas e idealizados por nós, mulheres! Não é só a minissaia que consegue infernizar, meus caros. Vocês também conseguem nos infernizar, sejam vestidos ou nus! Haja ânimo para tanta tentação!

Animus* (e Animas): na Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung (1875-1961) são aspectos à persona ou aspecto inconsciente de Personalidade.

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Pitágoras, acrílico s/ tela, 130 x 160 cm, 2018.