Andar

Retornar ao Instituto Inhotim após cinco anos e um ano depois do rompimento da barragem da Vale, seguidos de fuxicos, críticas, devaneios e malevolências, ver e sentir novamente a Natureza e a Arte Contemporânea me revigorou as energias e confirmou que estou no caminho certo para a auto consciência. Pela quinta vez, programo a viagem de férias da família para uma breve estadia em Brumadinho/MG, desta vez para conhecer a Galeria Claudia Andujar.

A suíça, naturalizada brasileira, hoje com 88 anos, tem um histórico sofrido, de solidão, guerra e abandono. Muito cedo viveu as consequências da 2ª Guerra Mundial e uma delas foi refugiar-se no Brasil no fim da década de 40. Andujar “andou” (para usar um trocadilho bem adequado ao tema) por terras brasilis e teve o privilégio de conhecer Darcy Ribeiro, o que reforçou seu destino às causas humanistas e a luta pelos direitos indígenas. Jornalista-fotógrafa por profissão, antropóloga-artista por vocação, ela se embrenhou na cultura Yanomami por uma década e registrou a geografia do habitat, os costumes e rituais, assim como o embate traumático entre brancos. As mais de 500 imagens dispostas numa galeria cuidadosamente projetada em madeira, tijolos e vidro, isolada no último canto do Instituto, nos leva a crer que sua localização é um percurso rumo à uma tribo distante e esquecida no mapa. Maravilhosamente arquitetada, o jogo sistemático do vai e vem de tijolinhos à vista, com a selvagem paisagem da mata por entre as portas de vidro, acolhe quatro amplos salões que expõem centenas de imagens repulsivas e atrativas, ora nos comovendo, ora nos enfurecendo. Uma beleza pura que se mistura entre o feio lisérgico ao sujo contato com o “invasor”. A mostra fotográfica se divide em três partes: “A terra”, “O homem” e “O conflito”, um misto de sentimentos nos atravessa os olhos e atormenta nossa alma, não só porque a imagem de um seio desfigurado de uma pré-adolescente já grávida nos choca, senão pela feiura, mas também pela beleza da fertilidade, ou o êxtase de um pajé que se entorpece com uma erva nativa e abre um sorriso amarelo, quase todo podre e desajeitado, num simples momento de prazer. Não! A nossa tormenta é interna, instintiva, animal!

Observar a produção da artista é experimentar nossas origens e entender de onde vem o animalesco que mora dentro de nós. Somos todos feitos de corpo e espírito, uns mais aperfeiçoados que os outros, seja pelas condições, seja pelo esforço diário. Outros abraçam a animalidade, a perversidade e a exploração como ideais de vida. É fato o dito “mais importante que a chegada é a caminhada”, porque chegaremos todos ao mesmo fim. O que nos resta é andar, como no trocadilho à Andujar, andar já, andar bem, para o bem andar.

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Galeria Claudia Andujar, Instituto Inhotim, 2019