Água Limpa

“Disciplina é liberdade. Compaixão é fortaleza. Ter bondade é ter coragem”. (Legião Urbana)

Esse verso da canção “Há Tempos” (1989) é um mantra e deveria ser repetido todo santo dia. Renato Russo e Cazuza foram inspiradores para minha geração e quando analiso alguns momentos dessa época começo a compreender certas situações mirabolantes e, em parte, até que bem previsíveis.

Vivi minha infância dos anos 80 escutando as canções de Tons, Gils, Chicos, Marias, Caetano, Milton Nascimento, mas principalmente de Elis Regina, o álbum “Falso Brilhante”, que era o vinil preferido de mamãe. A gente assistia o Chico Anysio Show, Armação Ilimitada e TV Pirata. Visitávamos as Bienais Internacionais de São Paulo, vagava pela Feira do Bexiga, se encantava com o Parque Ibirapuera e decorava o nome das ruas do Jardins. Entre os anos 80 e 90 frequentamos ateliers de grandes artistas como o dos mineiros Marcos Coelho Benjamim e Fernando Lucchesi, a paulista Leda Catunda, o paraibano Francisco Galeno, o mato-grossense Adir Sodré e o goiano Siron Franco. Este foi o período do boom da renovação da pintura após 20 anos de hibernação ditatorial militar. Ainda entre os anos 90 e 2000 minha pós-adolescência foi embalada pelo rock dos Titãs, Blitz, Kid Abelha, Barão Vermelho, O Rappa e o Olodum, na Bahia! Ahhh, a Bahia! Bahia de todos os santos! Terra de Caymmi, Amado, Mario Cravos, Rubem Valentim, Mestre Didi e Carybé, que foi abraçado pela cultura, pelo dendê e pelo axé. Deitada em berço esplendido da minha zona de conforto, o privilégio de ser parda, alta e de classe média sempre me proporcionou uma segurança ainda que conhecendo as mazelas e os conflitos humanos através das Artes Plásticas, permanecer na “bolha” era um culto ao comodismo. Mas conheci o grafite, o hip hop, a capoeira e perfurei minha primeira bolha. Frequentei periferias, conheci a Ilha do Marajó, dancei o carimbó, frêvo, maculêlê, dança-afro, puxada de rede, samba de roda. A maioria das bolhas estouraram nos meus pés, calejados pela ginga da liberdade, pelo batuque africano, pelo ritmo brasileiro.

Acho que a partir de 2002, quando voltei da Inglaterra e aconteceu uma ruptura familiar, a separação drástica de meus pais, comecei a perceber que nunca mais pararia de perfurar as bolhas ou que elas simplesmente estourariam sozinhas. Me tornei adulta, me casei, ganhei o título de mãe e com ele as honras das dores do parto, da amamentação, do recolhimento social, do início das profundas marcas da vida. Não sei se as marcas vêm sendo só em mim, mas também nos oceanos manchados por óleo, nas nascentes contaminadas por mercúrio, nas terras envenenadas por agrotóxicos, ou nas cabeças ambulantes bombardeadas por funk, gospel, tecno-brega, sertanejo ou Pablo Vittar!

Uma lembrança bizarra, depois do nascimento do meu segundo filho, foi a cena de sexo explícito na televisão de uma reportagem sobre a “Parada Gay”, na Avenida Paulista. Também me ressinto com as agressões machistas e misóginas que sofri de pessoas do meu convívio familiar. “O mundo está ao contrário e ninguém reparou”, disse Cássia à Nando em “Relicário” (2012). Uma anestesia geral tomou conta ou sempre acometeu  boa parte da sociedade.

O sitcom “Sai de Baixo” (nos fins dos anos 90) já nos trazia uma prévia sobre a mirabolante realidade de uma burguesia cega e embebida de sua própria ignorância, um prato cheio para o humor negro, ou neste caso, o sarcasmo dos brancos. Este recorte cultural da minha geração é o reflexo, talvez do conturbado momento artístico que vivemos. Percebo livrarias, bibliotecas, teatros, museus e cinemas sendo sucateados, enquanto clínicas de estéticas e igrejas se erguem como faraônicos centros de lazer. Será que algo se perdeu entre uma “Parada” e outra? Será que militamos demais e nos esquecemos de investigar nossas origens, nossa verdadeira História? Será que a tecnologia está substituindo a poesia ou fui eu quem envelheci rápido demais?

Para finalizar deixo aqui o diálogo com meu filho que disse ser bem antiquado ter vivido no meu século, afinal nem existia computador, celular ou wi-fi. Respondi a ele que tinha razão, mas na minha adolescência ou, no meu século, quando estive na Chapada dos Veadeiros, abrimos com facões suas trilhas e usufruímos de um lugar ainda intocado, o que acredito que não será o mesmo em sua adolescência, pois é possível que tenha de enfrentar “filas indianas” para chegar até onde cheguei. Diz o velho ditado: “bebe água limpa, quem chega primeiro” ou preserva suas nascentes.

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Wés Gama, artista de rua, residente em Alto Paraíso, na Chapada dos Veadeiros promove a arte democrática do grafite nas ruas da cidade. Obra “A terra me come”, técnica mista sobre papel, 2014.