Afinal, quem é artista?

A pergunta foi feita, certa vez, ao curador e crítico de arte paulista, Marcus Lontra, em 2008, no “I° Circuito de Palestras: Olhar Crítico sobre a Arte”, aqui na Galeria. Lontra esclareceu que dentre as virtudes de um verdadeiro artista, além de sua incansável pesquisa estética, seria seu “entorno”. O que faz o artista ser um artista, além de sua boa produção, seria sua relação com a classe artística, seu convívio social no meio cultural, sua pertinente postura ideológica e sua linguagem plástica atual. Antes de tudo, o artista é um ser humano, com defeitos e qualidades, mas que necessita priorizar seus objetivos à longo prazo, estruturar seu argumento artístico numa base sólida e coerente, participando do circuito profissional, principalmente na leitura de portfólio, Concursos, Salões, Feiras e Exposições. Um verdadeiro artista participa de vernissages, conhece o trabalho de colegas da área, se relaciona com curadores, críticos de arte, galeristas, colecionadores, compartilha seu conhecimento não só sobre o seu trabalho, mas de todo o ambiente que está envolvido e a consistência da origem de sua pesquisa artística.

Curiosamente esta temática cultural vem sendo discutida, avaliada e reavaliada. Afinal, o artista é aquele que tem que expressar o belo? O que é “belo” na contemporaneidade? Estas questões estão na pauta do filósofo conservador, o inglês Roger Scruton que refuta a qualidade da produção da arte pós-moderna e retoma o conceito do belo clássico, questionando o porquê  de se ensinar cultura e como a ensiná-la. Ele acredita que de alguma forma as produções artísticas, a partir de Duchamp, se “perderam” e insiste que: “a beleza é uma necessidade universal, pois através da sua percepção moldamos o mundo como nosso lar”.

O artista contemporâneo e conterrâneo do filósofo, Michael Gray Martim rebate sobre o conceito do belo na arte contemporânea e elucida: “A arte produzida atualmente permite as pessoas enxergarem o mundo em que vivem de uma maneira que dê mais significado à elas. Não um mundo ideal, um outro mundo ou algum lugar melhor. Mas o aqui e agora, a produção atual permite tornar a visão de mundo mais fácil do que real”.

Esse embate é território fértil para discussões infindas, mas certamente com valiosos acréscimos às nossas vãs filosofias. Visualizar este paradoxo através das composições fotográficas do artista turco Ugur Gallen, que causou alvoroço nas redes sociais é contrastar o conceito de belo pelo feio, do clássico pelo contemporâneo, do romântico pelo violento.

O filósofo vanguardista e também inglês, Terry Eagleton defende a máxima que a “Arte veio para matar a Religião”, no entanto ele próprio admite que isso não aconteceu por diversos e variados motivos. As transformações e rupturas da Arte e a conceptualização do “belo” na contemporaneidade reafirmam a responsabilidade das Instituições Culturais, Museus, Institutos, Fundações, Galerias e Faculdades de Arte em estabelecer um diálogo lúcido com a sociedade reafirmando os verdadeiros objetivos da Arte Contemporânea. Afinal, quem produz o belo na atualidade? Como ensinar a enxergar este “belo”? Caberia aqui a imortal passagem do livro de Antoine de Saint-Exupéry: “Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”.  O verdadeiro artista é aquele que enxerga o belo na feiura e faz com que o feio tenha beleza, para assim, enxergarmos o mundo com mais facilidade.

Ilustra o assunto deste domingo, o consagrado artista mineiro, José Vasconcellos, residente há mais de 40 anos na Europa e mesmo com mais de 80 anos se prepara para uma agenda de mostras até 2022, por enquanto.

vasconcellosJosé Vasconcellos, resina vegetal sobre tela, “Memória e Arquétipos”, 100 x 70 cm, 2018.