PASSADOS / PAST

“O cheiro das amêndoas amargas.”

“A água era colorida em razão da quantidade de peixes que flutuavam de lado, mortos pela dinamite dos pescadores furtivos, e os pássaros da terra voavam em círculos sobre eles com gritos metálicos. O vento do Caribe entrou pelas janelas com o alvoroço dos pássaros…”
“O amor nos tempos da cólera”, de Gabriel García Márquez.

As paixões humanas, a vida e a morte são os temas da novela “O amor nos tempos de cólera”, do escritor colombiano Gabriel García Márquez. Símbolo do realismo mágico latino-americano, em suas páginas descreve a origem de nossas identidades mestiças, do nosso passado incerto,construído sobre a base de preconceitos de classes trazidos da Europa, misturados ao calor e à umidade das selvas indígenas e o mar do Caribe.

Já se passaram dois séculos da Cartagena de Índiasantiga e agreste, dizimada pela cólera que serve de cenário para García Márquez. Outras cidades surgiram e foram povoadas por nossa raça, cidades cosmopolitas, verdadeiras metrópoles, onde poucos recordam os tempos em que a cólera era a pior das pandemias. Contudo, o amor, a vida e a morte seguem no centro das preocupações ontológicas do homem latino-americano e de qualquer latitude. Em outro contexto, consciente ou inconscientemente, alienado nacomplexidade das relações sociais e nas dinâmicas competitivas que estabelecem as sociedades mercantis contemporâneas, sublimado, hibernado, invisível, o ser humano sente a necessidade de reafirmar-se a partir de sua individualidade, de expressar-se a partir de suas diferenças, de sonhar, de correr atrás dos seus sonhos: uma busca de utopia que os filósofos e sociólogos descrevem e conceituam constantemente, mas que só os artistas podemcompreender como essência de uma realidade e de uma época determinada.

“O cheiro das amêndoas amargas”, reúne cinco deles: o brasileiro Gerson Fogaça e Pitágoras Lopes, os cubanos Orlando Gutiérrez e Kasay Herrera e o norueguês Herman Skretting, em uma homenagem ao homem latino-americano e universal, ao seu espírito real maravilhoso por natureza, à impressão profunda que deixa sua existência e ao amor.

“Transcorriamem silêncio como dois velhos esposos calejadospela vida,
além das armadilhas da paixão, além das mentiras brutais das ilusões
e das aparênciasdos desenganos, além do amor.
Pois haviam vivido o suficiente para perceberem que o amor era amor em qualquer tempoe em qualquer parte, porém mais intensoquando mais perto da morte.”
“O amor nos tempos da cólera”, de Gabriel García Márquez

Aparentemente são diversos os enfoques destes cinco criadores: em uns o Homem é só silhueta que se extravia na selva arquitetônica ou presença a qual se faz alusão napaisagem urbana da grande cidade; em outros marca tecnológica, cicatrizes que evidenciam a armação elétrica, as redes de comunicação ou a passagem de um veículo sobre o asfalto. Para eles o entorno se minimiza em vários traços que nos conduzem à existência humana, suas lutaspara sobreviver. Para outros esta presença se multiplica, se distorce: a mancha humana sucumbe perante a iminência da multidão. É nos grandes conglomerados humanos onde contraditoriamente não encontramos o Homem. Alguns tentam sobressair e invadir: fazer seu o entorno, dominá-lo, ou em última instância, evadi-lo e evadir-se. Reformular sua realidade através da fábula e da fantasia.Preencher o espaço de cor, de vida, de alegorias que lhe permitam continuar. Em qualquer situação, como resultado final está o amor, esse sentimento que nos distingue e nos faz diferentes do resto das espécies, erepousa contido em todas nossas ações; não é coincidência que atribuam história e cronologia ao amor, expressado em termos filosóficos e teológicos, como uma capacidade de integrar em um mesmo universo e uma Nova Era, ao mundo ocidental conhecido posterior à época cristã.

Formal ou conceitualmente, todas as imagensda exposiçãose relacionam com um espírito febril, passional, expressionista e existencialista, inadaptado, demente, quase suicida, que nos comovee nos recordao dramatismo lírico de “O amor nos tempos da cólera”, não porque falam do amor carnal, físico, entre os homenseas mulheres, mas porque seus protagonistas indagamnessa força interior de busca eterna da verdade, de sua própria verdade, essa busca que não termina,salvo com a morte.

malu