Abre Alas

O Projeto Giganto realizado em 2019, nos viadutos de São Paulo capital, teve o propósito de intervir na cidade e expor em grande escala retratos fotográficos de personagens da urbis. Uma dessas imagens foi um personagem muito peculiar e que vem ganhando voz entre os youtubers da nova geração. Rita Von Hunty é uma Professora de História, mas ela não é uma professora comum, ela é uma Drag Queen. Entre um assunto polêmico e outro, Guilherme ou Rita, esmiúça a Humanidade em dosagens semanais, com direito à Bibliografia e muito senso de humor. O tema que selecionei para o texto de hoje foi a história das Drags, é claro! Por que? Onde? Como? Quando? “Tempero Drag” é o nome do Canal do Youtube de nossa personagem e lá tem história para gente ter resposta para quase todas essas perguntas. Com formação também em Artes Cênicas, Rita explica sua atração desde cedo pela fantasia de se vestir como Drag. Citando uma de suas escritoras favoritas, que para sua época já era uma feminista, a francesa Simone de Beauvoir (1908-1986), em seu livro “Segundo Sexo” (1949): “Ninguém nasce mulher, torna-se”.

Desde a Antiguidade, no Hinduísmo, na Mitologia Africana, na Mitologia Greco-Romana, nas tragédias inglesas e mais alguns fatos curiosos da Humanidade são descritos, implícita ou explicitamente, a respeito dos gêneros que representam homens se transformando em mulheres, ou mulheres em homens. Quem ainda não sabe que no séc. V a.C. todos os atores do teatro grego eram homens? As mulheres eram proibidas de frequentarem estes ambientes (e o foi durante muitos séculos depois). Com a Idade Média ou das Trevas (séc. V), certas manifestações culturais foram proibidas ou censuradas com a ascensão do Cristianismo. Mais tarde, no séc. XV, com o Renascimento, o brilho da cultura se reascenderia e o teatro teria seu ápice com obras célebres do inglês, William Shakespeare (1564-1616). O mais curioso nos escritos do dramaturgo foi o acrônimo nos roteiros das peças, cuja sigla que designava o momento que o ator interpretaria uma personagem feminina, era D.R.A.G. (Dress Remeber A Girl – vestida para lembrar uma garota).

Outro fato histórico de nossa peculiar Humanidade foi o livro que deu origem ao fantástico filme “A Garota Dinamarquesa” (2016), sobre fatos reais da trajetória da protagonista que se submeteu à primeira cirurgia de gênero da época, no início do século XXI. Aqui no Brasil, Madame Satã (1900-1976) foi um famoso transformista e também capoeirista ganhando biografia cinematográfica, em 2002. Conhecida como “a grande dama do retrato de nosso país” (apud Pedro Karp Vásquez), a húngara Madalena Schwartz (1923-1993) dedicou seus registros fotográficos em antológicas personagens do cinema brasileiro, como a icônica Elke Maravilha (1945-2016) e o polêmico grupo Dzi Croquette (1972-1976). O grupo teatral e de dança tinha como ideia fundamental abalar as bases do sistema ditatorial e reagir às repressões abordando temas nada convencionais, tradicionais, recatados ou do lar. Quanto maior a repressão, maior será a reação, pois em momentos políticos onde há retrocesso cultural, alianças entre crença religiosa e gênero musical duvidoso devem e precisam ser cautelosamente administrados. Apesar do pouco tempo de existência o grupo ganhou um Documentário que foi contemplado com o maior prêmio do cinema brasileiro, em 2009 e trouxe depoimentos de artistas como Marília Pêra, Gilberto Gil, Miguel Falabella, Pedro Cardoso, Cláudia Raia, Ney Matogrosso e outros.

Mais uma e última curiosidade histórica é o orixá Oxumaré, da mitologia yorubá, cuja cultura milenar data de mais de 5 mil anos, foi sincretizada no Brasil com a religião do Candomblé. Oxumaré é uma entidade que passa 6 meses do ano como homem e os outros 6, como mulher. Bom lembrar que hoje, dia 2 de fevereiro é dia de Iemanjá. Parabéns, Rainha do Mar! A nossa abre alas do mês do Carnaval, a festa do ano onde tudo é permitido, pelo menos nos três dias sagrados do samba, do semba, da celebração profana da diversidade. Vamos todos celebrar a carne, a vida, a alma! Vamos todos juntos, com moderação!

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Ludmila Potrich entre obras do fotógrafo Vinícius de Castro, na mostra “Vendo o Carnaval”, 2010