A prova viva da morte

Não há como negar que a simbologia da caveira é um xodó globalizado. Desde as civilizações antigas até a contemporaneidade sua imagem é difundida e venerada por diversos estilos, classes e gêneros.

Na música, por exemplo, ela é símbolo vitalício do rock’n roll e para os famosos motoqueiros de Harley Davidson a caveira está alada. Já na logomarca das tropas de elite ela dispensa as asas e acolhe a faca. Na cultura mexicana é motivo de festa nas celebrações ao Dia dos Mortos. Na moda, a caveira é cultivada com design e irreverência. A dama do clássico, Constanza Pascolato não tira do dedo médio seu anel de caveira. O designer de joias, Antonio Bernardo estereotipou o acessório com linhas geométricas num jogo de engenharia e arte. O estilista, Alexandre Herchcovitch ficou conhecido como o percursor da caveira nas passarelas aderindo a imagem à maquiagem dos modelos no seu desfile. Também à aderiu  em sua linha de cama, mesa e banho, em estampas de lençóis, canecas, toalhas e outros. Há alguns anos atrás, a consolidada marca de tênis All Star, se rendeu à caveira executando uma montagem com tênis brancos que remetiam à sua imagem em uma das vitrines internacionais.

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Ninguém mais audacioso que o artista americano Daimen Hirst para encrustar 8600 brilhantes numa réplica de crânio do século XIX, que continha dentes autênticos e mais um enorme brilhante de 52 quilates na testa. Talvez, o maior símbolo do capitalismo relacionado à morte. Uma sátira as riquezas deixadas nas milenares múmias, no entanto recriada para atualidade numa alusão à fragilidade da vida e à desnecessária acumulação de bens materiais para o pós-morte.

O artista húngaro Istvan Orosz repercute a imagem da caveira através de desenhos em ilusão de ótica. Suas paisagens escondem a caveira e suas disposições angulares, seja de perfil, seja de frente, seja deslocada. Ela é sempre a imagem principal dos desenhos, que representam situações cotidianas da vida, cenários comuns, pessoas e seus afazeres.

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O brasileiro Alexandre Órion, foi além. O artista paulista criou uma intervenção desenhando ou “limpando” as imagens das caveiras da fuligem dos 300 metros de comprimento do Túnel Max Feffer, em São Paulo. Órion utilizou somente panos para executar a intervenção Ossário. Foi reprimido pela polícia e depois rejeitado pelo serviço de limpeza municipal após um jato d’água que apagou a obra do artista. Órion conseguiu registrar seu trabalho definindo uma crítica ácida à sociedade, da qual se exprime a convivência da vida e da morte num contraste bem hipócrita de atitudes éticas. A transgressão do grafiteiro, a intransigência do poder político e a ignorância dos espectadores.

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Em algumas culturas, após a morte era comum a família recolher os ossos do sepulcro e colocá-la numa urna. Essa urna era suficiente para que os fêmures ficassem cruzados e por fim se alojasse o crânio.  Dessa maneira, a atitude pode ser considerada uma reverência de respeito à alma dos mortos. Essa imagem do crânio no meio de ossos cruzados ficou muito conhecida na bandeira dos piratas, o Jolly Roger que por algum erro de ortografia ou tradução incitou a apologia à barbárie e a contravenção deste grupo criminalizado. Era também através do formado do crânio que se identificava a personalidade e caráter da pessoa, principalmente depois das teorias e estudos do cientista de Cesare Lombroso.

A caveira nada mais é que nós mesmos. A aversão que temos à morte seja talvez a mesma que temos a ela. Sua imagem parece nos dizer o tempo todo o quanto somos frágeis, findos, falíveis. É um tanto frustrante admitir, mas impossível relutar. Somos mortais, ela é a prova viva disso. Portanto, olhar para uma caveira pode provocar uma série de sentidos sobre a vida e a morte. Ela pode ser simbolizada como transformação, renovação, o início de um novo ciclo, ou pode simbolizar veneno, perigo, morte.

Não podemos negar, ela é o xodó do ser humano. O lugar do corpo reservado às ideias, aos sentidos, as dores e os amores. O crânio é a abóboda celeste, segundo os alquimistas. É a ligação do homem com o céu e a terra. A parte mais alta destinada à guardar o órgão pensante do corpo. A prova viva da morte!

“Faca na caveira!!!”