A Linha

Numa reflexão de José Arthur Giannnotti para a Ilustrada (Jornal Folha de SP), em 2002 sobre a obra do artista Giorgio Morandi (1890 -1964), o filósofo paulista disserta sua experiência como observador crítico e analisa a arte do italiano sob a óptica da fenomenologia. O processo criativo das formas e planos sem o uso da linha que limita um objeto do outro é uma constante subjetiva e ele define esta marcante característica do trabalho do pós-impressionista descrevendo: “A linha não é pois o limite da coisa, mas o limite e a mediação entre valores tonais comunicantes. O volume não é o relevo obtido pelo claro-escuro, mas a distância calibrada entre planos coloridos. Segue se que tudo é relação, determinando se no curso da experiência da pintura”.

Ao contrário de Morandi, o artista contemporâneo Evandro Soares usa e abusa da linha sendo esta o principal objeto de estudo do seu processo criativo. É o uso da linha que definirá seu estudo, o limite entre o claro-escuro, o volume e o relevo, o desenho e a sombra como terceiro elemento. A constância do cubo, da escada, da geometria caracterizam seu trabalho no que ele denominou de “arquitetura inventada”. A projeção do tridimensional quanto desenho é o desafio deste baiano quase naturalizado goiano. Evandro faz o caminho inverso dos artistas pós-modernos superando o ofício de serralheiro ao patamar de artista consagrado por unanimidade. Abriu mostra nesta última sexta-feira (15/02), numa das galerias mais vanguardistas de Portugal e prepara obras para integrar ao acervo do MAAT – Museu de Arte Arquitetura e Tecnologia, de Lisboa. A Revista DASartes, autoridade no que diz respeito às Artes Visuais, fez  um balanço sobre a Feira SP-Arte, em 2016 sinalizando Evandro Soares como a última grande revelação da arte contemporânea. De lá pra cá, Evandro participou de importantes feiras do país como ARTRio, BH-PARTE, SP-ArteFoto, PARTE, mostras internacionais e nacionais individuais se preparando para executar um desafio, transformar sua arte em escala arquitetônica.

O artista projetou nossa fachada no final do ano passado e quem passa pela Avenida Jamel Cecílio entre 9h30 às 11h consegue observar um desenho que muda de lugar. A geometria tridimensional em fios de aço projetada na parede é surpreendida pela luz do dia, que nos presenteia com a sombra de um novo desenho que se forma, a cada minuto que passa.

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O pequeno serralheiro que soldava grades e portões descobriu uma nova perspectiva para o ferro. E ele não pára! Sua pesquisa abrange a intervenção das linhas de aço em fotografias impressas sobre chapas de alumínio. Mario Gioia, o curador de sua última mostra individual, “Traço expandido”, em Brasília (nov/2018) observa: “A linha que desloca-se na superfície envidraçada – sua representação, no caso – e que tanto se estende por volumes e ângulos novos (mas também esvaziados), pode ser lida como formadora de um desenho de expansão, mais no campo da ideia e do conceito, tem atributos do tridimensional, ao relacionar se com o entorno, e não deixa de abandonar a matriz fotográfica”.

Ao eleger a linha como protagonista de sua obra, Evandro inverte os conceitos do desenho tradicional e abre uma inédita perspectiva sobre as Artes Plásticas, promovendo uma nova ruptura com a pintura e a destemida interlocução da Arte com a Arquitetura. Porque na Arte Contemporânea, a linha é muito mais que a distância entre dois pontos. Ela ganha a profundidade da sombra e o relevo do aço produzido pelas mãos de um pequeno grande serralheiro!

evandro e potrich