A Era do Ego

O escritor francês Gilles Lipovetsky publicou o livro “A Era do Vazio”, em 2005. O livro é atualíssimo e explana a sociedade narcisista que caminha incessantemente para se afogar. Lipovetsky não tem um ponto de vista tão pessimista, mas pontua os defeitos e as poucas qualidades do desenvolvimento do ser humano e suas transformações como ser consciente de si e de sua comunidade. Ressalta o suicídio como fato inerente, que ao contrário do que imaginávamos é tão comum como antigamente. A diferença, diz ele é que antes os suicídios eram bem sucedidos, pois as ferramentas para cometê-los não tinha erro, eram cordas e armas de fogo e atualmente se ingere medicamentos que, com a velocidade dos veículos de emergência e a eficácia da desintoxicação se tornam um empecilho a estes depressivos em potencial.

A Era não é de depressão e sim de Ego. Inacreditavelmente, li numa dessas revistas populistas de péssima gramatura e conteúdo um tanto tendencioso uma enquete feita sobre uma personagem de uma novela cuja previsível trajetória de vida era ser uma moça feliz, mas pobre e depois de acumular desgraças, uma rica infeliz. A pergunta aos telespectadores (cuja escolaridade ou nível cultural eu desconheço) era qual fim a garota deveria ter: voltar a ser a humilde moça feliz ou ser a ricaça depressiva. Ora, pelas referências é bem possível que você, querido leitor, adivinhe quem ganhou no Ibope. A inversão de valores é impressionante, nunca a Filosofia se tornou tão necessária num momento tão antiético como o atual. Existe uma grande diferença do pensar no nosso próprio bem, entre fazer o bem para próximo ou de achar o equilíbrio entre os dois. Um sociólogo formado em Harvard, numa entrevista anos atrás, numa dessas revistas de má gramatura, levantou a questão acerca da filantropia. Dentre alguns exemplos ele citou que grandes nações na tentativa de ajudar países subdesenvolvidos acabam por prejudica-los, por falta de cuidado ao informa-los e direcioná-los para a autonomia. Seria equivalente a tal suspeita da “Bolsa Família”. Para quem vai, quanto vai e até quando vai ajudar?

O perigo está em fazer e não acompanhar o feito. O imediatismo, a selfie e a enxurrada de curtidas são o que conta, mas e depois? “Caridade deve ser anônima, caso contrário é vaidade”. Daí a Era do Ego, a Era do Ego Vazio. Se fizermos algo bom pelo outro para nos sentirmos bem, ok, mas a controvérsia é que alguns utilizam essa consciência de que fez o bem para compensar para que ele possa fazer o mal. Já que eu fiz essa grande doação vou poder roubar aqui um pouquinho, né! Né não!  Não é assim que funciona, minha gente. A  “santa” Filosofia explica. Os artistas de certa forma pressentem tudo isso e expressam em suas obras essa infeliz constatação. Não é a Arte que está ficando feia, promíscua, “trans” ou apelativa é o ser humano quem está maquiando suas imperfeições ao invés de enxerga-las e corrigi-las. Estamos vivenciando um momento onde se erguem Igrejas e se fecham Bibliotecas, onde se abrem Clínicas de Estética e se taxam altos impostos sob Feiras de Livro, onde se censuram Mostras de Arte e se cultuam falsas celebridades. Estamos seriamente doentes. O excesso de espelho em casa já pode ser um sintoma. Cuidemos para que não nos afoguemos dentro de nosso Ego.

egoObra do Coletivo Argentino DOMA, via @artsoul.br