A dura poesia concreta das ruas

O texto de hoje foi inspirado em alguns acontecimentos pessoais que se desdobraram em sucintas dialéticas à respeito das transgressões urbanas, como a pichação. Se pensarmos que a necessidade humana de se expressar iniciou nos tempos das cavernas teríamos mais tolerância em aceitar as transgressões urbanas como atos de manifestação cultural, acrescento também, como ato de rebeldia, mas como grito de sobrevivência e auto afirmação de guetos marginalizados. Se estiverem errados ou não, se é arte ou não, este não será o ponto nesta narrativa. Acredito ser como naquela velha canção de Caetano Veloso: “qualquer maneira de amor vale a pena”, qualquer maneira de se expressar também!

Certa vez ouvi de um grafiteiro que a pichação é como a cadeia alimentar, assim como o belo e estrutural da arquitetura está para beleza das frutas, a pichação está para os seres decompositores, como os fungos, as bactérias, os vírus. Não é porque não estamos vendo esta camada da classe social não significa que ela não exista. Ela impregna com seus escritos, grafias e códigos a fachada de prédios, muros, tapumes e tudo mais que estiver disponível, exposto e sem proteção, assim como uma maçã ao léu na fruteira corre o risco de ser contaminada com a larva de um mosquito. O interessante não só é vislumbrar a necessidade destes guetos pela autoafirmação na sociedade, mas quais seriam as soluções para manter a “maçã” longe desta contaminação. “Se pixarem eu chamo a polícia”, a polícia, meu caro, tá nem aí pra sua maçã, cada um que cuide da sua, veja só o que aconteceu com Adão e Eva. A ‘cuestão’ é bem maior!

Tenho um exemplo muito próximo da minha realidade e darei meu testemunho. A Escola onde meus filhos estudam ostenta um alto muro por todo quarteirão do bairro do Setor Oeste. Ali foi sempre um alvo fácil e um grande chamariz para os pichadores de plantão, até o dia em que um concurso de desenhos para os alunos abriu uma nova perspectiva sobre a rua e como o diálogo entre os transgressores poderia mudar. Mais de 30 desenhos foram reproduzidos no muro com sua escala ampliada interagindo com a paisagem, os transeuntes e os motoristas. Durante anos o muro não sofreu nenhum tipo de vandalismo e até hoje não houve melhor prevenção e preservação para o patrimônio particular da Escola, que manter a Arte das crianças ali.

Quando decidimos estabelecer um diálogo, aprendemos primeiro a falar a língua de quem não consegue aprender a nossa! Não podemos simplesmente obrigar o outro a entender o nosso dialeto e não é a polícia quem vai ensinar, talquei! Outro exemplo, atualmente é a fachada da sede da Saneago. Todo muro foi grafitado com o tema da água, um projeto que teve desdobramento em 2007, quando fomos contempladas com uma lei de incentivo à cultura e em parceria com a empresa convidamos cinco artistas goianos para intervir no canoduto da Avenida Universitária, o qual sempre foi foco de pichações e inserções de cartazes para publicidade. Hoje ainda é possível verificar a última, da terceira intervenção que propusemos no canoduto, que alias tá na hora de revitalizar! Enfim, regra o antigo ditado: é melhor prevenir que remediar!

Plantar eras, cactos, rosas, grafitar, pintar poesias, interagir com o seu muro é uma maneira de se expressar com a rua, com os transeuntes, motoristas, crianças e pichadores. Dialogue, procure uma alternativa, tente entender a dura poesia concreta das ruas!!!

Famiglia Baglioni

Projeto Intervenções Urbanas por Famiglia Baglioni, em 2008, contemplado pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura

Link do Canoduto da Saneago, em 2008

Link do Canoduto da Saneago, em 2014