A arte é completamente inútil

A afirmativa do satírico poeta irlandês, Oscar Wilde reascende os conceitos filosóficos de Aristóteles sobre a “inutilidade” e comunga com os pensadores contemporâneos, de Christian Dunker à Ségio Cortella (Casa do Saber)  sobre a importância de ser inútil. Pelos termos filosóficos tudo que é útil encontra utilidade fora de si, isto é uma coisa, um objeto ou uma pessoa só tem função se for utilizado para algo, alguma coisa ou para alguém. O que é inútil é, por si só, realizado/resolvido, como a Arte e a Felicidade! Não há como utilizar a Arte para algo, ela é por si só auto suficiente, ou seja útil para ela mesma. Na frase de Clóvis de Barros Filho: “feliz é aquele que descobre a sua inutilidade no mundo”!

A arte por milênios vem sendo estudada, pesquisada e analisada com a finalidade de não ter qualquer fim. Minha professora, mestra e artista, Selma Parreira, certa vez, no curso de pós-graduação em Arte Contemporânea (FAV/UFG) que ministrava, afirmou que: “a Arte não tem que ter função, como ela não é um objeto de design para decorar, ou sentar, ou apoiar objetos, ela é Arte, por isso sua magnitude”! Ela é inútil! Não fossem tantos estudos e pesquisa à respeito disso, a verdadeira Arte não teria sobrevivido tanto tempo. Há uma investigação sobre um primitivo instrumento musical, ícone da manifestação cultural da Capoeira, o berimbau. Não se sabe ao certo se o homem inventou primeiro o arco e flecha para caçar ou o instrumento para tocar. A necessidade da Arte para a vida do ser humano é tanto quanto ou maior que o alimento para sua sobrevivência!

Galeristas, marchands, comissionados e curadores driblam esta “inutilidade” da Arte a comercializando como parte da decoração, ou por colecionismo e investimento. Mas afinal, qual o sentido da Arte para nossa vida? Ela é essencial? Recentemente o artista-diretor, Wagner Moura, em entrevista para o Canal Brasil desabafou: “vivemos agora no Brasil, uma ode à mediocridade, o triunfo do homem medíocre… num momento de tanta dicotomia,  as pessoas questionam qual realmente é a função dos artistas na a sociedade”.

Ora, há algumas poucas semanas atrás um dos maiores museus do mundo, o MOMA, de Nova Iorque adquiriu a obra da artista brasileira, Tarsilia do Amaral pela bagatela de 20 milhões de dólares. “A Lua” (1928) representa a fase Antropofágica, que inspirou o Manifesto de Oswald de Andrade no mesmo ano, onde enfim a Arte Brasileira se alimentaria da cultura alheia e se expressaria com originalidade e autenticidade. Inútil ou não, isso prova o quanto a Arte pode se materializar em utilidade cultural monetária, não é mesmo?!

O artista russo, Wallissy Kandinsky, em seu célebre livro “Do Espiritual da Arte”, do início do século XX, considera que a elevação do espírito se dá principalmente através da sensibilidade, onde a vida é um triângulo (ou uma pirâmide) e sua base representa toda matéria existente no mundo. Só atingirá seu ápice quem estiver conectado espiritualmente com a Arte e as sensações que ela proporciona. Assim como um monge, ou um yogue ou um pajé trabalham para se conectarem com o mundo espiritual, o artista trabalha para se conectar com sua Arte. Ela é quem o conecta à inutilidade do dom de ser, por si só, o que se precisa ser, no momento preciso!

Os artistas, em verdade, são os felizardos que descobriram a sua inutilidade no mundo!

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Obras de Pitágoras e Selma Parreira. Via @adrianamundimfernandogalvao