Desenhar é interpretação!

Finalizamos mais uma semana da nossa Programação Cultural e os resultados foram muito produtivos. A Oficina de Arte “BaÚ”, ministrada pela artista-visual, Adriana Mendonça, com o objetivo de resgatar aqueles materiais esquecidos no fundo do baú e colocar em prática o artista que existe dentro de cada um de nós, foi simplesmente acolhedor e enriquecedor! Adriana nos elucidou sobre a importância da representação como extensão de nossa personalidade e como podemos desenhar à vontade, sem a obrigação de termos traços perfeitos ou concorrermos uns com os outros, negando nossa essência em representarmos quem somos, copiando a realidade sem um sentido específico, apenas por repetição, sem nenhuma originalidade. A proposta da oficina era que cada um também trouxesse um objeto qualquer, o qual seria colocado um ao lado do outro e assim, cada participante optaria por escolher um ângulo do conjunto de objetos para desenhar cada qual, à sua maneira. Sem regras ou proporções, sem técnicas, nem avaliações ou preconceitos.

A turma se desenvolveu trabalhando num coletivo, uns apoiando os outros, compartilhando seus materiais e somando ideias e criatividade. A segunda atividade veio especificar um detalhe do desenho produzido, para que este fosse representado em uma escala maior e mais aprimorada. A experiência valeu, pois houve um planejamento que foi amadurecido a partir do primeiro exercício de criação. Adriana recitou uma bela passagem de José Saramago, do documentário “Janela da Alma” (2001):

“Eu ia muito à ópera no São Carlos, o teatro de Ópera de Lisboa e ficava sempre pro lado do ‘galinheiro’. Na parte de cima, que era de onde se via uma coroa, era o camarote real. Começava lá de baixo e ia até lá pro alto e se fechava formando uma coroa. Uma enorme coroa dourada. Coroa que vista do lado da plateia e do lado dos camarotes era uma coroa magnífica. Do meu lado, de onde estávamos não era. Porque a coroa era dividida em quatro partes e por dentro era oca. E tinha teias de aranha. E tinha pó. E isso foi uma lição que nunca esqueci. Nunca esqueci esta lição. Para conhecer as coisas ‘ha que dar lhes a volta’”.

Sobre essa lição, a artista explica que para desenhar é necessário conhecer, dar a volta no objeto, estudá-lo com cuidado e apreciar seu defeito e sua beleza, há de se entender o que se quer demonstrar. O desenho é uma interpretação do que foi visto e estudado. É o ponto de vista figurativo ou não, de quem o desenhou. Lilia Moritz Schawrcz, em livro para Adriana Varejão, “Pérola Imperfeita”(2014), faz uma pertinente observação quanto à pesquisa da artista sobre seu objeto de estudo. Ela conclui que a qualidade estética da obra de arte está no planejamento, o artista que conhece, estuda e muda sua perspectiva de olhar, “dá a volta”, aprimora sua técnica, mas principalmente, sua estética.

A gente agradece a maravilhosa experiência e deixamos o convite para nosso encerramento na próxima quinta-feira, dia 04 de Julho a partir das 10h00, com um delicioso café da manhã e a exposição do resultado da Oficina de Arte “BaÚ”. Esperamos vocês!

adriana mendonça

Desenho em aquarela por Adriana Mendonça, 2019