Fé cega na tecnologia

“WALL-E, abreviação de Waste Allocation Load Lifter Earth Class é o ultimo robô deixado na Terra. Ele passa o dia arrumando o lixo do planeta. Mas por 700 anos WALL-E desenvolveu uma personalidade e é mais do que um robô. Ao avistar Eve, uma sonda mecânica em missão na Terra, ele se apaixona e resolve segui-la por toda galáxia.”

A sinopse do filme WALL-E, produzido em 2008 pela Pixar é romântica, mas não descreve a complexidade de acontecimentos que, no passar dos quase quarenta minutos de filme sem algum diálogo aparente, sequencia uma série de fatos curiosos sobre uma projeção futurista para a Humanidade. Vi, revi e revivi com meu filho várias vezes a história desse robozinho sentimental, tanto que ao completar 4 anos ele me pediu o tema de robô para sua festinha de aniversário. O artista plástico goiano, Pitágoras confeccionou uma espécie de “boneco robô” para a decoração da festa e posso garantir que todos aprovaram a “escultura” feita de caixas de papelão, embalagens de danone, molas, luzes de led, tinta e spray.

pityPitágoras, “Robô para Igor”, 2011

Meu filho, hoje aos 10 anos de idade, acaba de receber uma atividade de Ciências da escola sobre o filme, após reassistí-lo em sala de aula. As perguntas sobre o filme são muito pertinentes e levantam questões de um futuro não tão distante da atual realidade. Um dos picos emocionantes do enredo é a tomada de comando da nave cruzeiro, com tripulação humana, pelo piloto automático. Um robô, que por si só, desenvolveu autonomia para comandar os demais robôs a bordo e a manter os humanos sob controle.  Os sentimentos que pareceriam comuns nos humanos são características dos robôs com defeitos de fabricação, que acabam desenvolvendo relações de cumplicidade uns com os outros. Contemporaneíssimo mesmo após completar 10 anos de idade, WALL-E é um clássico tanto quanto “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick ou “Star Wars”, de George Lucas.

A Arte tende a nos antecipar ou prever com as devidas consequências nossos atos diários, na incansável busca pela sobrevivência sem sofrimento, sem dor, nem tristeza, mas com conforto, com prazer e muito entretenimento. É certo que a ficção extrapole nos efeitos especiais, mas no nosso inconsciente estamos lidando com fatores possíveis, palpáveis e praticamente em direção a um constante declínio ou ascensão do caos. O termômetro desses fatores está explícito na Arte. Na Arte de verdade. Aquela que abala a zona de conforto, que cutuca a ferida, que incomoda. Não nesses versinhos ou contos pra boi dormir, nessa eterna espera de Príncipes Encantados, Super-Heróis ou na Liga da Justiça, mas sim nas caricaturas dos “Zérois”, de Ziraldo, no Neoconcretismo das Lygias, nas vísceras de Adriana Varejão, nas transgressões pictóricas de Pitágoras, nos “Homens Amarelos” do OsGêmeos ou nos do ORappa, na melodia sacro-profana de IZA, ou nos versos tão verdadeiros de Lenine:

“Agora são com dados estatísticos. Os cientistas é que nos dão razão. De que valeu, em suma, suma lógica, do máximo consumo de hoje em dia, duma bárbara marcha tecnológica e da fé cega na tecnologia?” (É Fogo – álbum “Labiata”)

pity 1Via @pitagoras_lopes, 2018